Economia

BCE prepara-se para subir os juros pela terceira vez

BCE vai decidir amanhã nova subida das taxas de juros e analistas contactados pelo i acreditam que aumento será de 0,75%. Valores da prestação podem subir entre 50 e 108 euros, consoante o valor do imóvel. Nova reunião está marcada para 15 de dezembro.


Os alarmes voltam a soar em torno do novo aumento das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu (BCE). Trata-se da terceira subida deste ano e a reunião está marcada para amanhã. De acordo com os especialistas ouvidos pelo i, tudo indica que a entidade liderada por Christine Lagarde irá optar novamente pelo cenário mais pessimista: um aumento de 75 pontos base. Tudo para tentar travar a escalada da inflação.

A subida dos juros irá ter um impacto nas taxas Euribor, que também subirão, o que tornará o crédito mais caro, aumentando por exemplo o valor das prestações mensais das hipotecas. Uma situação que também terá reflexos em quem está a pensar em pedir empréstimo.

O que poderá isso significar? Numa análise do ComparaJá.pt feita para o i, para um imóvel avaliado no valor de 125 mil euros a pagar em 33 anos, se a prestação em junho de 2020 se fixava em 383,11 euros mensais, esse valor subiu para 423,87 euros para julho deste ano e para 432,09 euros em agosto. Se aliarmos este valor da prestação ao aumento previsível da subida das taxas de juro irá pagar em novembro 481,27 euros. Isto é, quase mais 50 euros por mês – e mais 100 do que há dois anos.

Já para um imóvel de 186 mil euros, a pagar no mesmo prazo (33 anos), se em junho de 2020 pagava 565,54 euros, a prestação subiu para 578,77 euros no ano seguinte esse valor disparou em agosto para 642,95 euros. Com este aumento dos juros irá pagar em novembro, uma prestação de 716,13 euros. Ou seja, um aumento mensal de 73,19 euros.

O cenário agrava-se para uma casa na ordem dos 275 mil euros. A prestação em junho de 2020 fixava-se em 836,15 euros mensais, esse valor subiu para 932,52 euros em julho deste ano e para 950,50 euros no mês seguinte. A concretizar-se esta subida de 0,75%, irá pagar em novembro uma prestação mensal de 1058,80. Feitas as contas, mais de 108 euros por mês.

João Melo, diretor desta plataforma, lembra que “nunca na história da banca as taxas de Euribor subiram tanto em tão pouco tempo e os portugueses já começaram a sentir nas carteiras o aumento exponencial das prestações do crédito”.

Em relação ao futuro e às tendências da banca, garante que “é difícil de prever o que acontecerá, mas tudo indica que os juros continuarão a aumentar”. Além deste aumento, há que contar com “a inflação na economia e a constante subida dos preços da eletricidade e do gás que contribuem muito pouco para o bem estar financeiro dos portugueses”.

O que esperar? Para Ricardo Evangelista, analista sénior da ActivTrades, é difícil prever qual será a tendência até ao final do ano, mas lembra que a expectativa dos mercados é de que a taxa de referencia atingirá os 3% quando o atual ciclo de subida terminar em fevereiro.

“A subida de 75 pontos base que se espera nesta quinta-feira fará com que esta taxa atinja os 1,75%. Sendo que temos mais três decisões de política monetária até ao fim de fevereiro, a próxima subida tanto poderá ser de 0,75, 0,5 ou até 0,25%”, diz ao nosso jornal.

O responsável garante que este impacto da subida dos juros do BCE sentir-se-á sobre as taxas Euribor, que tenderão a subir também, o que tornará mais caro o crédito. “Tal cenário será negativo para aqueles que estão a pagar empréstimos a habitação e não optaram por taxas fixas”, garante.

Também Henrique Tomé, analista da XTB, acredita que, depois deste aumento previsível de 0,75% nesta quinta-feira, o BCE, até ao final do ano, deverá aumentar mais uma vez os juros, mas desta vez 0,50%. “Mas estas são apenas previsões e podem ser alteradas se a inflação continuar a dar sinais de persistência”, analisa.

E acrescenta: “Com o aumento das taxas de referência, espera-se que todas as outras taxas também aumentem, nomeadamente as taxas Euribor. Os portugueses que têm os créditos à habitação contratados a taxa variável (o que representa mais de 90% dos créditos à habitação em Portugal) serão penalizados pelos aumentos das prestações dos bancos”.

Paulo Rosa, economista do Banco Carregosa, aposta também num aumento de 0,5% na próxima reunião, mas lembra que, até lá, as taxas de juro associadas à Euribor vão refletir estes aumentos esperados para evolução da política monetárias do BCE e respetivas taxas de juro dos seus depósitos.

"A Euribor a 12 meses está atualmente nos 2,78% e é esperado que os juros do BCE alcancem o seu máximo no próximo verão nos 2,84%. Os portugueses que recorreram ao crédito à habitação para a compra de casa verão a sua mensalidade ser agravada apenas no vencimento do seu indexante. No caso da Euribor a três meses, a prestação será revista, e renovada a taxa de juro, a cada trimestre. Na Euribor a seis meses a cada semestre e nos contratos cujo indexante é a 12 meses, a revisão é apenas anual. A Euribor a 6 meses está nos 2,11% e a 3 meses em 1,54% e de acordo com as perspetivas para evolução das taxas de juro dos depósitos do BCE”, salienta.

Juros vs inflação Henrique Tomé lembra que a subida dos juros é a ferramenta mais utilizada pelos bancos para combater a inflação. “Através dos aumentos das taxas de juro os Bancos Centrais conseguem ‘arrefecer’ a atividade económica, acabando por travar os efeitos da inflação”. Acrescenta que “esta não é a única opção, mas entre todas as possibilidades é a menos ‘agressiva’”.

Ainda assim, admite que esta decisão poderá comprometer metas de crescimento. “É o preço que se tem de pagar para travar a inflação: diminuição da atividade económica que acaba por prejudicar o PIB”. Acrescenta, no entanto, que nem sempre estas medidas levam a períodos de recessão profunda.

“Na maior parte das vezes assistimos a períodos curtos de contração do PIB (recessão) que servem para equilibrar os preços na economia. Apesar de tudo, neste momento, a economia encontra-se forte e embora os bancos tenham apostado em fortes aumentos das taxas de juro, ainda não há indicadores concretos que apontem para que estes aumentos possam conduzir a uma recessão profunda”.

Ricardo Evangelista lembra que os juros mais altos têm impacto sobre a procura, o que ajuda a controlar a subida dos preços, mas isso por isso só não chega. “Alguma da inflação que agora sentimos é gerada pela oferta, sobretudo na área da energia. A subida das taxas de juro por si só não chega, uma vez que o fenómeno também é influenciado por fatores exógenos”.

Mas deixa um alerta: “As taxas de juro mais altas provocam reduções no investimento e no consumo, tendo também um impacto negativo sobre o emprego”.

Mais pessimista está Paulo Rosa, ao apontar para um cenário de estagflação à semelhança do que se verificou na década de 1970. “É certo que a guerra na Ucrânia acelerou ainda mais a inflação energética e agravou os preços dos alimentos, mas efetivamente a inflação na Zona Euro está cada vez mais generalizada e os preços dos serviços vêm também acompanhando este contínuo aumento de preços. A possível reposição de algum poder de compra, após uma quebra significativa do rendimento disponível das famílias, nomeadamente as assalariadas, cresce também a probabilidade de uma espiral salários/inflação, aumentando a probabilidade de um cenário de estagflação”.

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