Opiniao

A instabilidade e a precipitação têm custos

Escalpelizando um pouco a argumentação aduzida na comunicação social, existirá uma crença que para fazer crescer o partido, este terá obrigatoriamente de se popularizar.

A instabilidade e a precipitação têm custos

1. Já andava há uns tempos a estranhar o silêncio da Iniciativa Liberal sobre diversos temas bem ‘quentinhos’ da atualidade portuguesa e até já tinha comentado isso com alguns amigos em privado. Não era normal que um partido tão desafiante e oportuno nas críticas políticas andasse tão caladinho, mas a explicação aí está: João Cotrim de Figueiredo decidiu bater com a porta, para mim demasiado cedo, após ter alcandorado a IL, um partido tão jovem na política portuguesa, ao 4.º lugar no Parlamento com 8 deputados.

Como se costuma dizer, ‘cada um saberá as linhas com que se cose’, mas não deixa de ser enorme surpresa e, na minha opinião, uma tremenda precipitação por parte dos dirigentes da IL, em particular do seu líder. Escalpelizando um pouco a argumentação aduzida na comunicação social, existirá uma crença que para fazer crescer o partido, este terá obrigatoriamente de se popularizar.

Argumentação discutível, porque o seu crescimento se deveu exatamente às características brilhantes, sobretudo à inteligência criativa da personagem que foi o seu líder por tão curto espaço de tempo. A consolidação da base eleitoral de apoio viria agora numa segunda fase, mantendo a imagem inovadora, segura e desafiante do poder que tão bem caracteriza a IL, porventura com uma presença mais institucional, mais catedrática, sem perder o ADN do partido. 
Cotrim de Figueiredo assim não o entendeu, a democracia poderá, a prazo, ficar sem os liberais representados no Parlamento, para alegria do CDS e de Nuno Melo que poderão capitalizar, com um discurso mais liberal e presença criativa, o descontentamento das bases eleitorais da IL, dado o risco destas não se reverem no populismo mais básico dos novos líderes, sejam Rui Rocha ou Carla Castro. Porque, na política, como em muitos setores e/ou empresas, os partidos também são os seus líderes.

2. O PRR tem como uma das suas grandes bandeiras industriais a produção em Sines de hidrogénio verde, existindo planos de investimento em que se refere a verba de Eur 1,3 MM. Não surpreende o afã do Governo português em tentar encontrar mercados para o produto, promovendo a possibilidade da sua exportação para o centro da Europa e são compreensíveis as diversas insistências de Costa até consumar o Acordo tripartido com os Chefes do Governo de Espanha e França para a construção deste ‘pipeline’ que tal irá permitir.

No entanto, este Acordo que Costa anunciou com pompa e circunstância, tem mais incertezas do que certezas, a saber:
(i) qual a procura real a nível europeu que o produto com origem em Portugal irá ter, embora Costa refira que Portugal e Espanha, no futuro, poderão abastecer 30% das necessidades da Europa?
(ii) quem irá pagar a sua construção? Macron foi explicito: terão de ser exclusivamente os fundos europeus a suportar esse custo; acreditam mesmo que para o mesmo ser construído, os contribuintes de cada um dos países não serão chamados a comparticipar?

Depois, existe outro tema importante que Costa referiu: este ‘pipeline’ igualmente irá possibilitar o transporte de gás natural. Será mesmo assim? Não estará mais que provado que do ponto de vista económico, é mais barato levar o gás por navios metaneiros até qualquer porto situado mais perto do centro da Europa do que por ‘pipeline’? 

Como disse, sobram incertezas a uma ideia (futuro investimento) que deveria unir os portugueses, dando azo a que qualificados dirigentes do principal partido da oposição, nomeadamente Paulo Rangel, viessem questionar a necessidade e oportunidade desse investimento, sobretudo por se ter deixado cair outro de 2014, segundo ele muito mais favorável a Portugal. Independentemente da indelicadeza e agressividade de Costa ao referir que Rangel nada percebe de energia, há uma das afirmações deste que parece indiscutível e impossível de rebater: com este Acordo, há um vencedor que é… Barcelona!

Dito isto, relembrando que o PS tenta partilhar com o PSD o ónus da escolha do local do novo aeroporto, parece-me que seria legítimo perguntar ao PS de Costa: um investimento desta envergadura não deveria avançar com o acordo dos principais partidos? Ou andará Costa a pensar que os 2 maiores partidos são o PSOE de Sánchez e o seu PS?

3. Há uma entrevista da Procuradora Ana Carla Almeida que é um autêntico alerta público sobre os riscos das utilizações apressadas dos fundos PRR. Coordenadora da equipa que acompanha os riscos de fraude dos referidos recursos financeiros ao nível da Procuradoria-Geral da República (PGR), não se coibiu num programa de radio de referir que «a pressa em executar é sempre sinónimo do aumento do risco de fraude e de corrupção».

Mais clara não poderia ser, dizendo o que tantos sabem, mas parecem esquecer. Quando nos apercebemos que existem atrasos significativos na atribuição das verbas do PRR, conforme corroborou Pedro Dominguinhos (Presidente da CNA – Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR) ao referir, há escassos dias, que dos Eur 16.444 milhões contratualizados foram apenas aprovados Eur 8.577 milhões e liquidados Eur 843 milhões, fazendo um apelo ao Banco de Fomento para ser mais expedito, percebemos quão importante são os alertas da Procuradora.

Serão suficientes? Não sabemos, mas a minha experiência profissional diz-me que por muito bom que seja o controlo interno na atribuição das verbas, existe o sério risco de se olharem os temas sob a ótica do interesse económico nacional (leia-se: o importante é que os fundos venham!) em detrimento da substância económica e interesse real dos projetos.

P.S. – sobre a discussão do OE 23: será que os políticos portugueses não percebem que descer o nível das discussões a questões laterais com piadinhas ou ataques individuais que só arrancam sorrisos a quem se revê nestas graçolas apenas os descredibiliza e faz aumentar a desconfiança na política? Porque sobre o OE 23 e a sua falta de ambição pouco há a dizer, além do reforço do alto nível da fiscalidade para sustentar o despesismo do Estado, tentando equilíbrios que agradem à Europa e aos mercados, entre graves fatores de desequilíbrio como são a inflação e a subida das taxas de juro.

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