Opiniao

A política e o futebol: contrastes e confluências

Curiosamente, o mundial de futebol em dezembro, colocará em evidência a confluência das lógicas opostas entre a burocracia ‘estatal’ e o futebol: por um lado, o vetor dinâmico, o talento extraordinário dos jogadores, fruto da atividade ‘empresarial’ dos clubes; por outro lado, o vetor ‘burocrático’, no enquadramento da seleção nacional. Qual dos dois vetores prevalecerá?

A política e o futebol: contrastes e confluências

Por Nuno Paiva Brandão, gestor

A discussão parlamentar do OE 2023, deu visibilidade pública no país a uma situação inusitada em matéria económica. Desde 2015, no Produto Interno Bruto (PIB) per capita, Portugal foi ultrapassado por 4 países, caindo da 17.ª para a 21.ª posição, no grupo dos 27 Estados da União Europeia, sendo superado, nomeadamente, pela Estónia e Lituânia.

Paralelamente, após a penúltima jornada da Liga dos Campeões de futebol, duas equipas portuguesas estão já apuradas para os oitavos de final, e uma terceira pode alcançar essa meta exigente na última jornada. Para se aferir do caráter excecional destes resultados, basta referir que Espanha teve apenas um clube a atingir essa fase adiantada da prova. 

O êxito das equipas portuguesas na arena internacional, parece estar relacionado com vários fatores inerentes a uma lógica de mercado. No futebol, há uma concorrência interna e europeia muito intensa, o que obriga os clubes a alcançarem níveis de excelência para atingirem resultados. E a ausência de resultados conduz rapidamente a mudanças de líderes e de projetos. Por outro lado, existe uma aposta continuada no talento jovem, através de academias de topo, com equipas técnicas de elevada qualidade. 

Nomes como Rúben Dias, João Félix, Diogo Dalot, Vitinha, João Palhinha, Nuno Mendes, entre muitos outros, certificam nos maiores palcos do futebol europeu, a qualidade e a competitividade do trabalho dos clubes com os jovens. E o país beneficia com os significativos fluxos financeiros correspondentes às suas transferências.

Simultaneamente com estes êxitos desportivos, o OE 2023, não se destacou por integrar reformas económicas que promovam a inovação e a competitividade, num caminho de recuperação dos lugares perdidos no ranking da União Europeia. Num conjunto de 27 países, estar apenas acima da Roménia, Letónia, Croácia, Eslováquia, Grécia e Bulgária, no crucial indicador do PIB per capita, não suscitou uma resposta firme ao declínio económico relativo. Em particular, os especialistas apontam como preocupante a não descida gradual da taxa de IRC, para incentivar o investimento privado e impulsionar o crescimento económico. Relativamente aos jovens, foram tíbias as medidas destinadas a reter o seu talento. Em vez de uma decidida aplicação de uma taxa máxima de IRS de 15% até aos 35 anos, um conjunto de meias-medidas dececionaram a juventude e quem deseja que Portugal desenvolva equitativamente a sua economia e dê aos jovens as oportunidades que a sua qualificação merece. Em matéria de Educação, uma nova desilusão, o setor ‘perde peso com a descentralização’ e o OE não contempla medidas de reforço da atratividade da carreira docente, o fator mais crítico para se progredir. Longe vão os tempos da paixão de Guterres pela Educação.

Mas se no futebol, estar na cauda da Europa e ser ultrapassado pela Estónia e pela Lituânia, bem como deixar degradar a situação dos jovens talentos e dos seus treinadores constituiria um escândalo nacional, com pesadas consequências, já no domínio económico e social, a situação de forma discreta, sem, aparentemente, preocupar os nossos dirigentes.

A existência de situações competitivas opostas, no futebol e no crescimento económico, parece também resultar das distintas lógicas das atividades e da diferente responsabilização pelos resultados obtidos. Nos clubes, prima a concorrência intensa, a aposta na competitividade europeia e a exigência de resultados. A frequência da avaliação dos resultados é muito elevada. Algum treinador ou dirigente desportivo se manteria em funções depois de anos sucessivos de resultados medíocres? Na atividade pública de enquadramento económico, o complacente duopólio que tem governado o país, tem beneficiado dos ciclos longos da política para se perpetuar, independentemente da escassez de resultados na área macroeconómica. 

Aliás, em matéria de avaliação de resultados, no ciclo eleitoral anterior, a oposição feita por Rui Rio (que se preocupou em reduzir o escrutínio parlamentar ao Governo), é um exemplo claro de ‘fraca concorrência’ e de uma oposição indulgente. Hoje, todos conhecemos os efeitos produzidos no país, na oposição política e para o próprio ex-líder. O contraste com a vigorosa concorrência existente no futebol é evidente. 

Curiosamente, o mundial de futebol em dezembro, colocará em evidência a confluência das lógicas opostas entre a burocracia ‘estatal’ e o futebol: por um lado, o vetor dinâmico, o talento extraordinário dos jogadores, fruto da atividade ‘empresarial’ dos clubes; por outro lado, o vetor ‘burocrático’, no enquadramento da seleção nacional. Qual dos dois vetores prevalecerá?

O OE 2023 de Fernando Medina foi entusiasticamente resumido pelo próprio, através de um lema acinzentado, que outro Fernando, o selecionador Fernando Santos, subscreveria com satisfação: ‘Estabilidade, confiança e compromisso’. Afinal, são conceitos que o selecionador tem aplicado às escolhas de jogadores, ao modelo tático e aos planos de jogo. O brilhante Rafa, muito pouco utilizado na seleção, percebeu isso, ao autoexcluir-se da convocatória para o mundial. Quem também entendeu as consequências dos conceitos partilhados pelos dois Fernandos, foi o jornalista do diário Marca que depois da falta de ambição exibida pela seleção portuguesa frente à Espanha afirmou: «O selecionador é um drama para Portugal».

O Orçamento de Fernando Medina foi definido por um fiscalista da EY, como sendo ‘prudente e não muito ambicioso’. Num país que é o 7.º com o rendimento médio mais baixo da União Europeia e o 6.º com menor produtividade, ter um OE sob o conceito central de ‘estabilidade’ e com ‘pouca ambição’, não parece o mais adequado. 

Mas sabendo-se que os ritmos de avaliação no futebol e na política diferem muito, restará verificar a que velocidade as políticas públicas do OE 2023 serão ajuizadas. E em que medida elas serão percecionadas pelos portugueses apenas como ‘pouco ambiciosas’, ou se o serão, numa estranha confluência entre os Fernandos, o ministro e o selecionador, como ‘um drama para Portugal’.

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