Internacional

Ucrânia. Russos massacrados no leste e às escuras no sul

Fuzileiros russos relataram ter sido atirados como “carne” contra uma aldeia em Donetsk, de forma desorganizada, com centenas de baixas. 


A vida não está fácil para a guarnição de Kherson, no sul da Ucrânia, que ficou sem eletricidade esta segunda-feira. Mas nem em Donetsk, no leste, a guerra tem corrido bem ao Kremlin e o desespero dos comandantes russos cresce. Estes recorrem a atirar homens para a frente como carne para canhão, acusaram tropas de elite da 155.ª Brigada de Guardas da Marinha, numa carta divulgada em canais de Telegram de militares nacionalistas russos. A existência da carta foi reconhecida até por Alexander Sladkov, um correspondente de guerra pró-Kremlin. 

O facto do Kremlin se ter dado ao trabalho de negar os relatos dos bloggers militares, em vez de os ignorar como habitual, foi visto como sinal de nervosismo. “Fomos atirados para uma ofensiva chocante”, assegurava a carta destes fuzileiros, oriundos do distante Extremo Oriente. Foram tirados das bases da frota russa do Pacífico, pouco após o início da invasão, sofrendo pesadas perdas nos arredores de Kiev. A semana passada deram por si quase a sete mil quilómetros de casa, avançando rumo a Pavlivka, uma pequena aldeia a uns de 70km de Donetsk.

A 155.ª Brigada de Guardas da Marinha que no seu pico tinha três mil homens, recebeu ordens para montar uma ofensiva isolada. Levavam consigo morteiros, alguns tanques T-80, blindados BTR-82 e BMP-3. Mas tinham pela frente tropas veteranas, incluindo a 72.ª Brigada Mecanizada, que combate no Donbass desde 2014.

O fogo dos ucranianos, equipados com howitzers polacos e lança-mísseis americanos, seria avassalador. “Em quatro dias perdemos cerca de 300 homens, mortos, feridos ou desaparecidos, como resultado da ofensiva ‘cuidadosamente’ planeada pelos nossos ‘grandes’ comandantes”, lia-se na carta, endereçada a Oleg Kozhemyako, governador do Krai do Litoral, terra natal dos fuzileiros. E apelando a que este enviasse uma comissão independente, não ligada ao Ministério da Defesa, para investigar o sucedido. 

“Como é que eles estavam a planear capturar uma localidade passando por campos onde o inimigo permanecia, e que está agora a destruir-nos enquanto evacuamos os feridos e trazemos munições?”, questionavam estas tropas de elite. “Além disso, Pavlivka fica abaixo de Vuhledar e eles estavam a atingir-nos dali”, continuavam, apontando o dedo aos seus generais e à sua ânsia por serem condecorados pelo Kremlin. “Eles não querem saber de nada a não ser decorarem-se. Eles chamam às pessoas de carne”, acusam. 

Às escuras Já em Kherson, do outro lado da Ucrânia, guarnição russa ficou sem energia ou água pela primeira desde o início da invasão, esta segunda-feira. Pelo menos dez outras localidades nos arredores foram afetadas após um “ataque terrorista” destruir três linhas elétricas em território ocupado, ao longo da autoestrada de Berislav-Kakhovka, denunciou Yuriy Sobolevskyi, dirigente da administração local nomeada pelo Kremlin, num post no Telegram.

 Já em Kiev, há receios de uma escassez de eletricidade em pleno inverno após sucessivos ataques russos contra a infraestrutura energética da Ucrânia. As autoridades chegaram a sugerir que os residentes fugissem da capital no caso de um apagão. 

“Se têm família ou amigos fora de Kiev, onde haja fornecimento de água autónomo, um forno, aquecimento, por favor ponderem a possibilidade de ficar lá por um tempo”, apelou o presidente da câmara da capital, Vitali Klitschko, este domingo à noite, perante as câmaras da televisão ucraniana.

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