Economia

Duas das maiores empresas lucram dois milhões por dia

António Costa já garantiu que vai avançar com o imposto sobre lucros extraordinários, onde o setor da distribuição está incluído e lucros fazem soar alarmes junto da opinião pública. APED tem mostrado surpresa e continua a aguardar reunião com o Governo.


A “bomba” foi lançada no final de outubro. A par das energéticas também a distribuição irá pagar o imposto extraordinário sobre lucros excessivos, anunciou, na altura, António Costa. Mas mais de 10 dias depois ainda não se sabe em que moldes irá funcionar, apesar de começarem a ser conhecidos os lucros das empresas do setor. A primeira a apresentar resultados foi a Jerónimo Martins que registou um lucro de 419 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, ontem foi a vez da Sonae MC – dona do Continente – ao anunciar um lucro de 123 milhões de euros, uma queda de 18,6% face a igual período do ano passado. Feitas as contas, dá uma média de quase dois milhões por dia, tendo em conta que a dona do Pingo Doce deve grande parte dos seus lucros ao mercado externo, nomeadamente Polónia.

A notícia do novo imposto caiu que nem uma bomba junto dos responsáveis do setor que continuam à espera de uma reunião com o Governo. Ao i, o secretário-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), disse em entrevista que “estamos a refletir sobre isto e enquanto setor estamos a aguardar informações e explicações do Governo sobre esta matéria. Não sabemos mesmo como vai acontecer”.

E acrescentou: “O primeiro-ministro disse que a seguir ao debate ia começar a trabalhar no assunto, deduzo que ainda não tiveram tempo e estamos a aguardar”.

Já em relação aos lucros apresentados pelas empresas do setor disse que “se analisarmos os resultados, facilmente se vê que há uma explicação dos mercados internacionais onde estão a operar, que ajuda a explicar grande parte desses bons desempenhos”.

Recorde-se que Gonçalo Lobo Xavier também já tinha dito ao Nascer do SOL não perceber a aplicação deste imposto extra aos lucros da distribuição, até porque, no seu entender, “não houve nada de extraordinário que concorresse para os resultados das empresas” e que o setor se depara com “um enorme crescimento dos custos dos fatores de produção em toda a cadeia e que não tem sido transmitido para os consumidores”. E em relação ao retalho alimentar lembrou que é um negócio com margens muito baixas, na ordem dos 2% a 3%. “Não há nenhum fator extraordinário, ninguém está satisfeito com a escassez de matérias primas, com o aumento do custo dos fatores de produção, com a guerra, com a instabilidade que tudo isto está a provocar nas economias”, defendeu.

No entanto, a medida anunciada pelo Governo não convence os economistas contactados pelo nosso jornal. João César das Neves garante que “tem pouca sustentabilidade económica, pois seria preciso confirmar se os lucros são mesmo extraordinários e se se justifica uma tributação acima da já verificada. Trata-se de uma taxa populista, que só está a ser aplicada em países onde o Governo se sente frágil. Por cá, com maioria absoluta, a razão não é essa, mas encaixa na atitude do Governo, que tem sido minorar os seus gastos com a crise, pretendendo que sejam outros a assumir os deveres governamentais”.

E em relação ao facto de este imposto também abranger as empresas de distribuição diz apenas: “Este é o elemento mais populista da medida, porque as distribuidoras, ao contrário das energéticas, só teriam lucros extraordinários se abusarem da situação, subindo mais os preços que os seus custos”, lembrando ainda que “o facto de tributar as empresas nada beneficia a população, se essas receitas não forem distribuídas”.

O economista vai mais longe ao acrescentar: “Pode mesmo dizer-se que o setor que está a ter mais lucros extraordinários é o Estado, pois a inflação está a empolar muito os impostos”.

Por sua vez, Henrique Tomé, analista da XTB, já tinha dito ao Nascer do SOL que “faz sentido avançar com estes aumentos dos impostos sobre os lucros extraordinários das empresas que têm beneficiado com os efeitos da inflação e devem servir para apoiar as medidas de apoio avançadas pelo Governo”. No entanto, reconhece que é um tema controverso, “dado que os apoios do Governo são francamente inferiores quando comparamos com os aplicados nos restantes países da zona euro e isso é percetível quando analisamos o impacto que estes gastos têm em relação ao PIB”.

 

Raio-x

Os lucros da MC nos nove primeiros meses do ano fixaram-se em 123 milhões de euros, uma quebra de 18,6% face a igual período do ano passado. No entanto, a queda é mais significativa tendo em conta apenas o terceiro trimestre: 61 milhões de euros, uma redução de 41,1% face ao terceiro trimestre de 2021.

“Durante o terceiro trimestre, o ambiente macroeconómico desafiante, caracterizado por níveis de inflação e taxas de juro crescentes, continuou a afetar o poder de compra das famílias e a confiança dos consumidores”, lembrando que “neste contexto desfavorável, a proposta de valor dos formatos da MC continuou a ser reconhecida pelos consumidores, com as vendas totais a atingirem 1,6 mil milhões de euros no terceiro trimestre, um crescimento de 16,0% em termos homólogos”.

O volume de negócios atingiu os 4,3 mil milhões de euros, até setembro, um crescimento de 10,6% em termos homólogos, “com a MC a reforçar a aposta na sua estratégia omnicanal e de reforço da sua posição de liderança em Portugal”, referindo que “em termos de desempenho operacional, a MC continua a enfrentar fortes pressões na sua estrutura de custos, dado os elevados custos recorde de energia juntamente com as medidas implementadas para proteger os seus clientes e reforçar a competitividade, suportando parte dos custos inflacionários. De facto, os custos de energia continuaram a aumentar significativamente no terceiro, ficando nos 9 mil milhões, cerca de 40 milhões acima dos níveis de 2021”.

Neste período, o investimento fixou-se em 61 milhões no terceiro trimestre, mas fixou-se em 131 milhões até setembro, “apostando no desenvolvimento da sua infraestrutura digital e logística e na expansão e remodelação do seu parque de lojas. No trimestre, a MC abriu 16 novas lojas próprias, “representando mais 6 mil m2 de área de venda”.

Em contrapartida, a dona do Pingo Doce viu os seus resultados subirem 49% nos primeiros nove meses do ano em relação a igual período do ano passado, em que a faturação subiu 21% para os 18,4 mil milhões de euros. Mas garante que este aumento de vendas se deve à estratégia seguida e passou por absorver “parte” dos aumentos nos preços de compra dos produtos aos fornecedores, tentando criar “oportunidades de poupança para os clientes” no âmbito de programas de fidelização.

“Conscientes da pressão da inflação sobre o custo de vida das famílias, todas as insígnias do Grupo reforçaram as dinâmicas comerciais e absorveram parte dos aumentos registados nos preços de compra aos fornecedores, investindo na criação de oportunidades de poupança para os seus clientes e no reforço da competitividade”, disse a Jerónimo Martins quando apresentou resultados.

A operação na Polónia continua a ter grande peso nos resultados e também na dimensão, em termos de loja. A Biedronka registou um crescimento das vendas na ordem dos 23%, totalizando os 12,7 mil milhões de euros. Nos primeiros nove meses inaugurou 65 lojas, passando a ter um total de mais de 3300 espaços. Já no mercado nacional, as vendas subiram mais de 10%, o que representou nove milhões de euros. Neste período foram inauguradas sete nove lojas, contando com um total 469.

Em termos de investimento, o negócio na Polónia absorveu 51% do total – o equivalente a 292 milhões de euros, enquanto a operação em Portugal pesou 26% (151 milhões de euros). No total, a Jerónimo Martins investiu 577 milhões de euros.

Quanto ao futuro, o CEO da distribuidora não hesita: “A dois meses do final do ano, a elevada instabilidade geopolítica e as perturbações nas cadeias de abastecimento que resultaram da pandemia aumentam o nível de incerteza relativamente à evolução dos preços dos alimentos, da energia e dos combustíveis e à extensão dos seus impactos sobre o consumo, num inverno que se antecipa com um nível de dificuldade sem precedentes nas últimas largas décadas”.

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