Cultura

Used to Be. Quando a simbologia do classicismo encontra a esfera urbana

Até 30 de dezembro, a galeria Underdogs recebe a dupla espanhola PichiAvo. Na exposição Used to be, unem dois universos que, à partida, parecem não se tocar: as linguagens do graffiti contemporâneo e a arte clássica greco-romana.


Uma das singularidades da arte é que pode estar em toda a parte. A variedade de formas como a sentimos leva-nos a lugares de encontro, mas também pode fazer-nos viajar nos séculos. Muitas vezes, a facilidade com que une universos temporais distintos fascina aqueles que a observam. É exatamente esse o desejo da dupla de artistas Pichi e Avo (conhecidos por PichiAvo) que, a partir de hoje, apresentam a sua mais recente exposição. Intitulada Used to Be, pode ser vista até ao penúltimo dia do ano, 30 de dezembro, na galeria Underdogs, em Lisboa.

Ao longo do tempo, a dupla espanhola – através do seu trabalho – tem proposto uma reflexão a partir de um encontro inusitado, mas apelativo, entre as linguagens do graffiti contemporâneo e a arte clássica greco-romana e entre a produção em ambientes externos, na rua, e ambientes internos, como galerias e estúdios.

Mais uma vez, e no espaço principal da Underdogs, apresentam intervenções que ligam a simbologia do classicismo à esfera urbana. Porém, numa exposição que apresenta um corpo de obras inteiramente novo: “Se a arte de PichiAvo nasce do graffiti e do muralismo – atividades baseadas no uso da parede e do espaço público, onde a efemeridade e o acaso determinam a integridade e a vida útil das obras –, o Used to Be sintetiza e materializa essas questões na forma de um engenhosa encenação que coloca um passado (simulado) em diálogo com o presente”, explicam os artistas ao i.

 

Três conjuntos Used to be

integra obras criadas especialmente para a exposição, contando também com uma peça única criada em colaboração com o artista português Alexandre Farto aka Vhils – com quem já colaboraram diversas vezes e mantêm uma amizade – e tem a particularidade de se iniciar com um Online Viewing Room que permitirá a compra direta das peças através do website da Underdogs.

Os visitantes poderão observar três conjuntos de obras: um grupo de fragmentos de parede com pinturas, outro grupo de fragmentos de parede com desenhos – ambos sobre placas de reboco em gesso (uma técnica nova que abre um novo capítulo na obra dos artistas) e ainda um grupo de bustos fragmentados.

“A exposição é quase que uma coleção do nosso trabalho e, neste caso, há muitas inspirações”, afirma Pichi. Para este conjunto de obras, nomeadamente as esculturas, a dupla visitou muitos museus de arte. Depois perceberam que, com um pedaço de uma escultura de um museu e outro pedaço de uma obra de outro museu, conseguiam formar uma peça única. “No processo criativo desta produção também percebemos que, ao separarmos uma peça única, cada parte tinha a sua identidade. Nesta exposição, o espectador pode procurar a parte que falta de uma só peça”, adianta Avo. “Além disso, tentámos criar uma ilusão no espectador de uma coisa que costuma estar no espaço público e que agora está num espaço privado, como se fosse um artefacto ou um objeto arqueológico”, completa Pichi. Ou seja, todas estas peças – assim como a sua própria disposição – procuram sugerir uma operação de transposição para a galeria de artefactos encontrados num contexto arqueológico, “em que cada um exibe a inevitável corrupção ditada pela passagem do tempo”. “Um resgate simulado, com vista à sua preservação para o futuro”, lê-se na descrição da exposição.

Interrogados sobre a dificuldade em unir esses dois universos, os artistas respondem que “a priori pode parecer difícil, mas não o é”. “Ambos são arte e a arte ecoa entre si. Nós tentámos tratar a forma clássica com o máximo respeito, o mesmo acontece com o grafitti. São duas linguagens que falam por si mesmas, juntas”, acrescentam. O resultado, de certo modo, representa aquilo que são. “Ao nível cultural temos essa herança da arte clássica e gostamos muito da arte do grafitti. Quisemos juntá-lo e ver como resulta perfeitamente. É uma forma pessoal e contemporânea”, sublinham.

Used to Be representa, por isso, “um simulacro que mexe com a nossa perceção e nos convida a refletir sobre a arte e o património artístico, sobre a longevidade e a conservação, sobre o colecionismo, o valor dos objetos e a sua importância histórica”. Mas também, e particularmente, “sobre aquilo que é (ou era) e aquilo que aparenta ser”.

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