Internacional

EUA. Trump 'ferido' nas eleições

Republicanos que querem trumpismo sem Trump conspiram, vendo candidatos que este apadrinhou derrotados. E DeSantis em ascensão na Florida.


Era esperado que estas eleições intercalares servissem como uma espécie de teste a Joe Biden. Não foi particularmente conclusivo, dado que não se materializou a prometida onda vermelha - cor dos republicanos - e os democratas ainda lutam para manter a sua no Senado, apesar de estarem perto de a perder na Câmara dos Representantes. Na prática, foi Donald Trump que foi testado. E vê a sua liderança sobre os republicanos questionada, tendo apoiado vários candidatos pouco ortodoxos - desde celebridades com esqueletos no armário até teóricos da conspiração, acusariam detratores - que se saíram mal. 

Os resultados finais vão demorar a chegar, dado o sistema eleitoral americano ser tão complexo, com regras diferentes de estado para estado. Mas o que vimos até agora indica que as orientações políticas trumpistas, que incluem alegar fraude nas presidenciais de 2020, são populares entre militantes republicanos e úteis para ganhar nas primárias do partido, mas também dificultam ganhar apoio do eleitorado. 

Talvez mais grave ainda para as ambições de Trump, o grande vencedor da noite eleitoral foi o seu principal rival interno, Ron DeSantis, reeleito governador da Florida por uma incrível margem de quase vinte pontos percentuais. Não é de estranhar que entre os seus apoiantes, na noite da vitória, se gritasse «mais dois anos, mais dois anos», segundo a CNN. Aparente referência a que o governador da Florida teria de abandonar o cargo e mudar-se para a Casa Branca. 

«Nunca vi uma coisa assim», admitiu Jim DeFede, um repórter político veterano da filial estadual da CBS, olhando para um mapa dos resultado na Florida, em tempos o pêndulo que decidia eleições. «Este é o aspeto de um estado vermelho», proclamou DeFede. «A Florida já não é um swing state».

«Nós não só ganhámos as eleições, nós redesenhámos o mapa político», gabou-se DeSantis. E não estava a exagerar. Foi acusado de o fazer através de gerrymandering - ou seja, a prática de redesenhar círculos eleitorais de forma estratégica, mais vantajosa para o seu partido, algo ilegal na Florida - e agora enfrenta processos judiciais por isso. Mas também venceu graças à migração de eleitores republicanos para a Florida. DeSantis incentivou-o, destacando-se a nível nacional na pandemia, fazendo da Florida dos primeiros estados a reabrir, impedindo que empresas exigissem que funcionários usassem máscaras ou se vacinassem, proibindo que se discutisse temas LGBT+ ou o racismo nas escolas. 

«Deixámos de ser o sítio para onde as pessoas se mudam pelo bom tempo e as praias. A principal coisa que nós agora ouvimos é: ‘Vou mudar-me para a Florida pela liberdade’», explicou Christian Ziegler, um estratega republicano e n.º 2 do partido no estado, ao Washington Post.

Já De Santis, passou de ser um governador frágil, eleito em 2018 graças a uma margem de pouco mais de 32 mil votos, passando a controlar uma base sólida com a qual desafiar Trump. Para o antigo Presidente, isso traz grande amargura. Afinal, se De Santis chegou onde está foi graças a si, quando decidiu apoiar este então desconhecido nas primárias de 2018. DeSantis tinha pouco mais a seu favor. Aliás, os seus primeiros anúncios de campanha até se resumiam ao futuro governador a ler uma história de embalar ao seu filho bebé sobre os méritos do seu Presidente. 

«Então o sr. Trump disse: ’Estás despedido’. Adoro esta parte», contou DeSantis, com o filho ao colo. Em breve, talvez tenha hipótese de dizer isso ao próprio antigo apresentador do The Apprentice. Mas Trump promete não se deixar ficar, ameaçando abrir a boca, porque sabe mais sobre o governador da Florida que qualquer pessoa, «exceto, talvez, a sua mulher».

Já dirigentes republicanos ortodoxos esfregam as mãos de entusiasmo, pela calada ou em público. Estão entusiasmados por poder ter uma espécie de trumpismo sem Trump, caso DeSantis entre na liça como potencial candidato à presidência.

«Trump perdeu as eleições intercalares. DeSantis venceu-as», descreveu David Frum, o antigo redator dos discursos de George W. Bush que cunhara a conhecida expressão «eixo do mal», num artigo de opinião no Atlantic. «Se o governador da Florida alguma vez pretender arrancar o controlo do Partido Republicano a Trump, este é o seu momento». 

Estrelas e radicais 

Até Mitch McConnell, meses antes das eleições, se queixava da «qualidade dos candidatos» republicanos a senador. O líder do partido no Senado - operador político temido, creditado por construir a maioria conservadora no Supremo Tribunal ao recusar aprovar juízes nomeados por Barack Obama, consciente que tal impactaria a política americana durante décadas - chegou a admitir que a fraqueza dos candidatos poderia fazer com que só conseguissem ganhar a Câmara dos Representantes. 

Este aviso parece profético. Na Geórgia, Trump escolheu como candidato Herschel Walker, uma antiga estrela do futebol americano, contra a vontade dos dirigentes republicanos locais. Este centraria a sua campanha numa oposição feroz à interrupção voluntária da gravidez. Mas a meio descobriu-se que tinha pago um aborto a uma antiga namorada, entre outras peripécias, coincidindo com o evaporar da vantagem que os republicanos tinham no estado. Permitindo que o candidato dos democratas, o pastor Raphael Warnock, conseguisse levar Walker à segunda volta, a 6 de dezembro, que poderá decidir quem manda no Senado. 

Se os republicanos não conseguiram conquistar já o Senado - a câmara estava dividida 50/50, tendo o voto da vice-presidente a desempatar - também podem apontar o dedo ao candidato escolhido pelo antigo Presidente na Pensilvânia, Mehemet Oz, conhecido por doutor Oz. Este cirurgião ficou conhecido no mundo de televisão, à semelhança de Trump, e causava polémica há anos devido à sua associação à venda de curas milagrosas ou comprimidos de perda de peso com mérito dúbio. Ainda causou mais escândalo na pandemia, promovendo a hidroxicloroquina e chamando ao rosto da resposta à covid-19, Anthony Fauci, de «tirano mesquinho».

Oz recebera o apoio de Trump para senador por insistência da sua mulher, Melania, e do seu pivot favorito da Fox News, Sean Hannity, avançou a Axios na altura. «As mulheres, em particular, são atraídas pelo Dr. Oz pelos seus conselhos», explicou o ex-Presidente. «Ele viveu connosco através do ecrã, sempre foi popular, respeitado e inteligente», garantiu.

No entanto, a campanha começou a correr mal logo de início. Nas primárias, em maio, Oz teve um empate técnico contra o candidato favorito do establishment republicano. Instado por Trump, Oz declarou vitória não terminara ainda a recontagem, dando a entender que houvera fraude no próprio partido. E indicando que talvez haja mais tensões internas do que se vê cá fora. 

Oz defrontaria o vice-governador da Pensilvânia, John Fetterman. Este antigo sindicalista de cabeça rapada e tatuagens, conhecido por andar de fato de treino e ter um tamanho gigantesco, com mais de dois metros de altura, sofreu um AVC em plena campanha. Sobreviveu, após bastante tempo hospitalizado, insistindo em voltar à corrida apesar das sequelas. Nas entrevistas, precisava que os repórteres tivessem um ecrã atrás de si onde as perguntas eram legendadas, por ter ficado com problemas de audição.

A sua saga de superação - apelando a todos aqueles que «caíram e tiveram de se levantar», aos que têm familiares e amigos que tiveram de se readaptar depois de uma doença - parece ter tocado os eleitores da Pensilvânia. Já Oz preferiu troçar do adversário, notando em comunicado que «se John Fetterman alguma vez tivesse comido um vegetal na vida, então talvez não tivesse tido um AVC». Os resultados indicam que isso não caiu bem entre os eleitores.

Já o antigo Presidente reagiu com fúria ao resultado das eleições intercalares, sobretudo à derrota do seu candidato na Pensilvânia, relatou Maggie Haberman, uma repórter do New York Times conhecida pelo seu acesso privilegiado à órbita de Trump.

Este «culpou todos os que o incentivaram a apoiar Oz, incluindo a sua mulher», tweetou Haberman. Notando que há aliados a pressionar Trump a adiar o anúncio da sua recandidatura, que este sugerira que poderia ser já esta segunda-feira. Mas adiar «é arriscado e seria um reconhecimento que ficou ferido» nestas eleições intercalares.

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