Posfácio

As surpresas da história também se evitam

Vivemos um início de século no qual parece estarmos a caminhar sobre gelo fino. As surpresas da história acontecem, sobretudo, porque damos mais atenção a uns factos do que a outros. Em todos os casos referidos no início do texto, era possível ter percebido os riscos.

As surpresas da história também se evitam

por Francisco Gonçalves,

Em meados da década de 90, a internet era um novo mundo que se abria à comunicação, partilha e aproximação das pessoas. Era, então, o instrumento essencial para potenciar a globalização. Na política, com a internet, falou-se de novas formas de participação política. Desde a última década, com as redes sociais, a internet passou a ser uma ferramenta de insulto e de ódio – servindo, sobretudo, para afastar pessoas. Um pouco como me dizia, um diplomata moçambicano, a respeito da língua portuguesa como instrumento de aproximação dos povos, «que esta também serve para percebermos melhor quando nos insultam».

Quando, em 1999, a NATO aprovou um novo conceito estratégico, pleno de missões comuns e de diálogo, ninguém imaginava que, em setembro de 2001, os EUA fossem atacados, na dimensão conhecida, por uma rede terrorista global. A preocupação deixou de ser o direito de ingerência humanitária, para se centrar na reação aos futuros conflitos assimétricos com agentes não formais, que dominariam as décadas seguintes. A guerra na Ucrânia vem também negar aquelas previsões: o Estado não desapareceu e o tempo das guerras não terminou.

Também em 2001, a China aderiu à Organização Mundial do Comércio. As potências exportadoras do ‘Ocidente’ rejubilaram com a abertura de um mercado de mais de 1000 milhões de consumidores. Em duas décadas, a China passou de ser um gigante demográfico para se tornar numa potência central, na organização do sistema internacional. Acreditava-se na possibilidade académica do despertar da China, mas imaginava-se que demoraria muito e muito tempo.

Francis Fukuyama imaginou que a história tinha terminado. Todavia, a história parece ter um certo gosto pela surpresa. As tendências imaginadas, há alguns anos, não são mais verdade, exigindo cada vez maior velocidade de adaptação, que apenas é possível com estudo, conhecimento e sabedoria – bens escassos e, entre políticos, em vias de extinção.

Acresce, às dificuldades conhecidas, os problemas trazidos pelas redes sociais. Estas, para além de terem aumentado o maniqueísmo da relação entre forças políticas, potenciaram o surgimento de uma geração de políticos ocos e ignorantes, que passaram a ter espaço de intervenção. A política passou do livro e do jornal, para o post e, agora, deste para a fotografia. Perante o vácuo das ideias, a fotografia a sorrir de quem nada tem de inteligente para dizer.

É, também, devido à fragilidade cultural e intelectual dos agentes políticos, que vai fazendo caminho um pensamento tremendista que, a cada passo, imagina o fim do mundo. Espera-se, de jovens idealistas, os protestos contra as negociações e a ‘dureza de ouvido’ de alguns políticos. Todavia, exige-se a políticos experimentados outra serenidade na análise e outro pragmatismo na decisão. Tal como a história não tem fim, também o mundo não acaba de um momento para outro.

Vivemos um início de século no qual parece estarmos a caminhar sobre gelo fino. As surpresas da história acontecem, sobretudo, porque damos mais atenção a uns factos do que a outros. Em todos os casos referidos no início do texto, era possível ter percebido os riscos.

Devemos ter cuidado com as caixas de Pandora que vamos abrindo. É responsabilidade dos políticos atentar à libertação dos demónios das gavetas do fundo da história. Uma vez libertos, são difíceis de voltar a conter.

Portugal, país velho, costumava ser experimentado em saber para que lado vai o vento. Também ajudava ter timoneiro que soubesse para onde ir.

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