Internacional

Onde será a próxima contraofensiva?

Russos fugidos de Kherson têm sido colocados em Melitopol, onde uma insurgência não os deixa descansados.


Mais de metade das tropas russas que escaparam de Kherson, humilhadas mas aliviadas por terem o rio Dnipro nas suas costas, começam a ser recolocadas nos territórios ocupados. Uns cavam trincheiras e preparam-se para enfrentar a próxima contraofensiva ucraniana, seja ela onde for. Outros foram lançados para o inferno que se vive em Donetsk, sobretudo em Bakhmut e Avdiivk. E muitos receberam ordens para caçar guerrilheiros em Melitopol, onde a insurgência ucraniana se torna cada vez mais incontrolável. O que poderá fazer da segunda cidade de Zaporíjia um ponto fraco nas linha da frente russa, o sitio ideal para a Ucrânia tentar mais uma vez avançar.

Não surpreende que cada vez mais tropas russas expulsem residentes de Melitopol das suas casas. Instalando-se também em infantários ou escolas e expulsando  civis dos hospitais para tratar os seus próprios feridos, acusou o presidente da Câmara Ivan Fedorov. «Russos que fugiram de Kherson estão agora a tentar cavar à volta de Melitopol», declarou num live para as redes sociais, citado pelo Odessa Journal. Uma das linhas até foi apelidada pelos invasores de «linha Wagner» ou «linha Prigozhin», relatou Fedorov, em referência a Yevgeny Prigozhin, chefe da empresa de mercenários que tem servido para fazer trabalho mais sujo do regime de Vladimir Putin.

Os mercenários da Wagner são conhecidos como brutais mas eficientes, responsáveis por boa parte dos sucessos da Rússia durante a invasão. Já os russos mobilizados à força nos últimos meses, por ordem de Putin, atirados para a linha da frente com pouco ou nenhum treino, quase dão pena. «Os mobilizados parecem pessoas sem-abrigo. Rebelam-se, passam o dia todo a beber e por isso ameaçam os nossos moradores», relatou Fedorov.

Se é improvável que tropas mal equipadas e treinadas consigam encetar com sucesso operações ofensivas, muito mais complexas, servem bem na defesa de trincheiras, de kalashnikov na mão. E os russos que guarnecem Melitopol poderão ter que o fazer em breve.

Kherson não está livre de perigo, apesar da alegria com a visita de Volodymyr Zelensky, tendo um correspondente do Guardian relatando que pouco antes do discurso do Presidente ouviam-se estrondos dos disparos de HIMARS e o típico ‘swoosh’ dos camiões lança-foguetes Grad, a atirar salvas para a outra margem. Ainda assim, parte das forças ucranianas agora poderão ser deslocadas da região, protegida pelo Dnipro.

Parte delas terão de travar a ofensiva russa em Donetsk, «mas a frente sul na direção de Mariupol e Melitopol operacionalmente é mais importante», frisou Oleksiy Melnyk, um antigo tenente coronel ucraniano, agora codiretor do Razumkov Centre, ao Financial Times. Se avançarem em Zaporíjia, os militares ucranianos «podem cortar os abastecimentos russos às suas tropas e cortar o acesso à península da Crimeia», salientou.

O controlo russo de Melitopol já parece muito frágil à partida. No mapa do Instituto para o Estudo da Guerra, os arredores da cidade até são uma mancha de cor diferente, no meio do sul sob controlo russo, classificada de «área de guerra de guerrilha». Os invasores têm reagido aumentando o número e frequência dos seus postos de controlo, marcando os carros dos residentes em que confiam, avisou a semana passada o Centro de Resistência Nacional da Ucrânia. Esta agência sob tutela das forças especiais tem o propósito de ensinar a civis como dificultar a vida aos invasores, publicando manuais de guerrilha.

Esta dinâmica de resistência em Melitopol poderia ser crucial numa eventual contraofensiva. «Guerrilheiros ucranianos mudaram o jogo», garantia o Kyiv Post. É que, «desde o início da invasão russa, secretas receberam uma enxurrada de informação da população local», salientou o general  Vadym Skibitsky ao jornal ucraniano.

Isso não só permitiu que defensores atingam os russos com precisão, antecipando as suas movimentações, como lançou o terror entre os invasores através de assassinatos, dificultando ainda a logística com atos de sabotagem. O mais notório dos quais talvez tenha sido em abril, com a explosão de uma ponte de ferroviária em Yakymivka, nos arredores de Melitopol, que era utilizada para abastecer os russos a partir da península da Crimeia.

 «Mesmo generais dos EUA, com os quais cooperamos, estão surpreendidos», contou Skibitsky. E os americanos sabem o quão difícil é lidar como qualquer insurgência, como viram recentemente no Iraque e Afeganistão.

Ainda assim, apesar do quão assustador deve ser guarnecer Melitopol, sendo obrigado a olhar constantemente sobre o ombro, os russos aqui colocados não têm motivo para invejar os camaradas colocados em Donetsk. Bakhmut tornou-se um «inferno», contou um militar das forças especiais ucranianas ao Financial Times, «parece algo saído da II Guerra Mundial, como um posto no Dia D», explicou. Descrevendo o campo de batalha como um labirinto de trincheiras, armadilhas para tanques e crateras.

Afinal, o comandante russo na Ucrânia, Sergei Surovikin, comprometeu-se com Putin em arrastar as suas forças no leste para a frente, a todo o custo. Usando artilharia para lentamente destruir Avdiivka – onde fica uma enorme fábrica de coca-cola, propriedade de Rinat Akhmetov, também dono da metalurgia Azovstal, em Mariupol – e Bakhmut, um nódulo logístico essencial para abastecer as forças ucranianas no Donbass.

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