Posfácio

Quem instrumentaliza, não respeita!

Ao passo que os governos, e os moderados, defendem a tomada progressiva de medidas capazes de diminuir o impacto das alterações climáticas, e de descarbonizar as nossas sociedades, os grupos de ativistas, associados aos populistas de esquerda (ou manipulados por estes), defendem uma tomada de posição urgente, colocando tudo em causa

Quem instrumentaliza, não respeita!

O melhor sinal de vida que uma geração pode dar é a rebelião contra o estado de coisas. Esta geração, tantas vezes acusada de não ter causas, encontrou a sua: a causa ambiental. O modo como o desenvolvimento tem sido promovido, menosprezou, particularmente nos países não democráticos, as consequências negativas sobre o nosso habitat. 
Negar a evidência das alterações climáticas (consequência maior do impacto do desenvolvimento sobre o planeta) é hoje, um absurdo. Como tal, as diferenças substanciais na resposta à crise não estão tanto nas medidas a seguir, mas no timing das mesmas e, mais importante, na ideologia subjacente às diferentes tomadas de posição. 

Ao passo que os governos, e os moderados, defendem a tomada progressiva de medidas capazes de diminuir o impacto das alterações climáticas, e de descarbonizar as nossas sociedades, os grupos de ativistas, associados aos populistas de esquerda (ou manipulados por estes), defendem uma tomada de posição urgente, colocando tudo em causa. Isto é, regressámos ao debate entre a ‘evolução’ e ‘revolução’ ou, em linguagem de socialismo científico, à defesa do eterno dogma que diz que “o capitalismo contém, em si mesmo, o germe da sua destruição”.

Por isso mesmo, não espanta que, quando o Ministro da Economia e do Mar recebeu os ativistas, estes nada mais tinham a propor senão a sua demissão. 

É bastante curioso que muitos dos políticos do ‘centrão’, desejosos de se colarem às causas do politicamente correto, e de terem o seu quinhão de popularidade junto daqueles grupos, tentem seduzi-los, falando da ‘epidemia das alterações climáticas’ ou da justeza das manifestações, sem nunca explicar que as alterações climáticas não são o único problema do mundo ou do nosso país. Sem nunca fazer pedagogia.

Acreditamos ter sido esse o objetivo do ministro quando recebeu aquele grupo de ativistas, procurando conversar racionalmente. Costa Silva parece ter ignorado que aquele grupo já está radicalizado, e devidamente instrumentalizado: não estavam ali para conversar ou aprender – mais do que ativistas, muitos já são operacionais (ou a líder bloquista não sorria tão luminosamente quando visitava as manifestações, orgulhosa do trabalho bem feito).

O aproveitamento desavergonhado destes jovens é um exemplo claro do que os partidos fazem à juventude. Aproveitar-se da generosidade e da paixão dos jovens é uma perversão e é uma das causas do afastamento dos mesmos da política. Alguns, poucos, ficarão. Outros, a maioria, quando percebem que estavam apenas a ser usados, afastam-se para sempre. 

Porque já tive a idade daqueles jovens, revejo-me em muitos dos seus protestos. Têm pressa de ver as coisas acontecer. Eu próprio tenho pressa. Tenho pressa que o meu País tenha outros níveis de qualidade de vida. Tenho pressa de ver os idosos a serem tratados com o respeito e a dignidade que merecem. Tenho pressa de ver travado o processo de empobrecimento que a população portuguesa conhece, há décadas. 

Claro está que, quando apenas olhamos para um dos problemas, não vemos os outros e nem sequer pensamos que o combate às alterações climáticas tem de ser conciliado com todos estes combates, e que não será com demagogia que será vencido.

Talvez seja um mundo de ‘revolução cultural’ que esteja a ser vendido, mas duvidamos que seja esse o mundo que queremos para o futuro. Quem manipula ou instrumentaliza estes jovens não os respeita.

Ser livre significa, sobretudo, poder escolher. Livre de escolher, escravo da decisão!

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