Cultura

Mestres Japoneses Desconhecidos II. O Japão ao abandono

É importante cartografar o Japão por via do cinema, e localizar as pequenas vilas? Os programadores do ciclo “Mestres Japoneses Desconhecidos” acreditam que sim.

Mestres Japoneses Desconhecidos II. O Japão ao abandono

Voltaram os “Mestres” “Desconhecidos” do cinema japonês. A segunda parte do programa “Mestres Japoneses Desconhecidos”, composta pelos filmes A Vida de uma Mulher (Yasuzô Masumura), Johnny Coração de Vidro (Koreyoshi Kurahara), e A Mulher que Eu Abandonei (Kirio Urayama), estreou no Cinema City Alvalade, em Lisboa, na semana de 3 a 9 de Novembro (onde continua em sessões avulsas), e no Teatro Municipal Campo Alegre, no Porto, na semana de 10 a 16 de Novembro, graças ao trabalho de programação e de distribuição de Miguel Patrício e da produtora The Stone and The Plot.

Feita esta apresentação curta, deve continuar-se a reflexão sobre o acto de programar imposta através do primeiro programa (Novembro de 2021), por ser óbvio que o trabalho por detrás deste ciclo passa pela definição de uma geografia que os responsáveis consideram estar mal (ou, com mais rigor, “incompletamente”) cartografada. É importante cartografar o Japão por via do cinema, e localizar as pequenas vilas? Em quantas paredes caseiras se expõem hoje os mapas do primeiro ciclo, pontilhados com os rostos de Tomotaka Tasaka, Kôzaburô Yoshimura e Tomu Uchida, e o que significa isso?

Com uma insistência e uma dedicação que provêm do conhecimento sobre o tema, os programadores respondem que sim à primeira pergunta, escolhem as “aldeias” mais recônditas do cinema japonês, e focam-se no critério do desconhecimento absoluto, mais do que no da mestria: não existe qualquer outra forma de se ver, legendado, qualquer dos filmes do programa. Quanto vale o desconhecimento e, sobreposto o desconhecimento a outro tipo de critérios, em que pode traduzir-se?

Não cumpre responder de forma exaustiva às questões que esta reflexão levanta, desde logo porque a resposta não é óbvia e depende de vários factores, como sejam a recepção imediata dos espectadores em sala e, em seguida, a recepção mediata dos mesmos espectadores, confrontados com a tentação (ou com a falta dela) de explorarem os realizadores (agora) conhecidos. Porém, é possível adivinhar certas coordenadas de resposta, e desde logo que apenas se pode dar continuidade à proposta de apresentar filmes desconhecidos caso se consiga estabelecer uma relação de confiança com os espectadores.

É sedutor saber que estamos perante “filmes nunca estreados fora do Japão”, e é até exótico. No entanto, esta característica não confere automaticamente ao ciclo um selo de qualidade (quando muito, o selo de um certo interesse), e é responsabilidade de quem escolhe os filmes, de forma articulada, obter um certificado (de importância, de perenidade, de algo que transcenda o exotismo) para cada um deles e para a sua programação conjunta. Escolher, neste caso, é um serviço e uma responsabilidade.

Nenhum dos filmes é uma obra-prima, ou um filme particularmente sólido. Os três são filmes apenas muito difusamente ligados por uma ideia de abandono e das ferramentas utilizadas por cada um dos intervenientes (os abandonados e os que abandonam) para lidar com ele, que vão do suicídio “à japonesa” até ao abraço do dever e à mercantilização da própria vida ou alma. Vistos em separado, são três filmes dos anos 60, formalmente muito diferentes entre si, sendo que A Vida de uma Mulher faz a ponte entre os “clássicos” do primeiro ciclo, por um lado, e, por outro, Johnny Coração de Vidro e A Mulher que Eu Abandonei, duas aproximações modernistas a estruturas relacionais antigas.

A Vida de uma Mulher é um filme virtuoso no que respeita à imagem, à encenação e às movimentações em campo, que concorrem para a expressão de um ambiente melodramático puro. A utilização das elipses para contar uma história de várias décadas, através de recortes de notícias das eras imperiais japonesas, contribui para a emotividade do argumento; ao mesmo tempo, a fragilidade do desenvolvimento das personagens torna esse argumento pouco credível, o que, aliado à tendência explicativa que pontua os diálogos, dificulta, por natureza, o resultado do melodrama.

Johnny Coração de Vidro tem o nome de uma canção, que a protagonista sofrida canta aos elementos da natureza, e que fala de um homem idealizado que a poderia vir salvar em sonhos de um triângulo de horrores. Esse triângulo tem inspirações da “nova vaga francesa”: dois homens maus, um pior do que outro, destratam, vendem e atemorizam uma mulher idiota, mas crente. As formas do filme estão imbuídas de grandes temas, ideias, planos e mitos do cinema japonês clássico, perfeitamente identificáveis, mas enfraquecidas pelos exageros de tom e pelas irregularidades no andamento, que desaguam num final onírico, mas ineficaz.

A Mulher que Eu Abandonei, de entre todos o filme experimental por excelência, com os seus jogos de cores e as sequências abstractas (de inspiração cristã), é provavelmente a proposta mais interessante deste programa. O filme revela um país maculado em tempo real, e a urgência de combater um certo classismo e uma meritocracia viciada, enquanto narra através de analepses a história de um homem que em troca da ascensão social abandonou uma mulher, e que com isso se perdeu. Kirio Urayama aprofunda os sentimentos de culpa e as dores das personagens até aos confins da alma, e mostra cenas de sofrimento atroz na intimidade dos protagonistas, que lhe servem posteriormente para uma exploração das vias de redenção avançadas pelo escritor Shusaku Endo no romance que inspirou o filme.

Para os programadores, a escolha não se apresenta apenas como um serviço e como uma responsabilidade: é também um risco. As formas de mitigar e de controlar esse risco nem sempre estão ao seu alcance, porque residem não só no trabalho árduo de visualização e de análise, mas também na possibilidade de acesso às fontes, em portas que no Japão são difíceis de abrir. As nuances que os responsáveis do ciclo poderão introduzir no conhecimento que os portugueses têm do cinema (e da geografia) do Japão podem ser tão mais disruptivas quão maiores forem as suas possibilidades de acesso, mas também quão mais orientado for o seu processo de selecção.

Concretizadas duas partes de um projecto que poderia ser infinito, devem agora medir-se as ânsias criadas naqueles que viram os filmes, as feridas que eles abriram, os homens que encantaram. Daí, é obrigatório que se tirem todas as lições para os ciclos que se sigam (e que de qualquer forma terão, já em Abril de 2023, um interlúdio, com a estreia pela The Stone and The Plot dos seis filmes da realizadora Kinuyo Tanaka, essa sim uma “mestre”, apesar do reconhecimento). 

Tudo isto com a certeza de que nem todos os filmes japoneses merecem ser resgatados dos estúdios e dos arquivos e que a alguém cabe fazer essa escolha, escrever a história, e guardar para si a culpa de ter escolhido uns e não outros, votando alguns dos merecedores (e, com eles, o Japão) ao abandono.

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