Tenente General Alípio Tomé Pinto

'Corremos o risco de guerra civil até ao 25 de Novembro'

O 25 de Novembro de 1975 ocorreu numa situação política muito radicalizada. No dia 12, milhares de trabalhadores tinham cercado o Parlamento e durante dois dias mantiveram os deputados como reféns. No dia 20, o Governo suspendera funções. Na madrugada do dia 25,  paraquedistas ocuparam várias unidades militares e, pelas sete da manhã, prenderam o comandante da 1.ª Região Aérea. Enquanto isso, outras forças ocupavam os estúdios da RTP. É então que entra em cena o chamado ‘Grupo dos Nove’. O General Ramalho Eanes vai a Belém, fala com o Presidente Costa Gomes, e assume a liderança de um contragolpe. Dois dias depois era senhor da situação.

'Corremos o risco de guerra civil até ao 25 de Novembro'

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Como se formou o Grupo dos Nove? Quando e em que circunstâncias? Quem tomou a iniciativa de o formar? O que o animava (aparentemente, era a luta contra o avanço do PCP em direção ao poder)? Onde se realizavam as reuniões? Quem eram os elementos mais ativos?

Fazendo parte desse grupo e como elemento operacional coadjuvando o Sr. General Ramalho Eanes, este pediu-me para eu responder face aos seus compromissos já assumidos e consequente falta de tempo. Assim farei não tão bem como ele o faria mas sempre dentro da verdade e da necessidade de informação especialmente aos jovens. O Grupo dos Nove formou-se naturalmente por elementos que participaram no 25 de Abril de 1974 e outros. A indisciplina reinante e o sentimento que os objetivos do 25 de Abril não seriam alcançados por força de grupos que desejavam implantar a sua doutrina partidária, não quer dizer que fosse apenas o PCP, mas era principalmente, que ficou desiludido com os seus apenas 12,46% dos votos nas eleições de 25 de Abril de 1975 para a Constituinte em que participando 91,66% do povo português, na maior calma e alegria, ciente que estava a escolher o seu futuro. O Major Melo Antunes “ideólogo da revolução” depois dos acontecimentos de 28 de setembro de 1974 tentou equilibrar a situação provocando uma reunião com os nossos melhores economistas (dezembro 1974 em Sesimbra) para desencadear o desenvolvimento, um dos objetivos do 25 de Abril de 1974. O programa económico não seria aprovado pelas autonomeadas assembleias populares. Acontece o 11 de março de 1975, a revolução acelerou e dá-se a grande viragem: indisciplina social, medo, nacionalizações, fuga de pessoas e retirados bens, prisões arbitrárias e lapidaram-se as reservas financeiras. Aí os militares (Movimento das Forças Armadas) tentam dirigir essa nau à deriva. Criou-se para tal o conceito de revolução para controle da situação. É um dos novos órgãos do poder formado após o 11 de março. Em maio chegam os primeiros retornados/refugiados de Angola, no mesmo mês são criados os conselhos revolucionários de Trabalhadores, Soldados e Marinheiros constituindo os Comités de Defesa da Revolução (CDRs). A situação agrava-se, em 8 de julho surge o documento “Guia, Povo, MFA”; o primeiro-ministro Vasco Gonçalves lança o grito “Tomada do poder pelos Trabalhadores”. A loucura toma conta do poder (PREC, Verão Quente). Dois sistemas políticos em confronto, Ocidente/ Oriente, Democrático/Revolucionário. Por pressão de militares conscientes e responsáveis surge o documento “Melo Antunes” ou “Documento dos Nove” (inicialmente assinado por nove conselheiros) que foi difundido em 8 de agosto de 1975. Constitui-se assim a primeira plataforma para criar a serenidade bastante para evitar a guerra civil e permitir o retorno aos objetivos iniciais do programa do MFA (Democratizar, Descolonizar e Desenvolver). E assim nasceu o “Grupo dos Nove” que eram muitos mais e reuníamos em casa um dos outros inicialmente, no gabinete de Garcia dos Santos e outros. O grupo articulou-se na parte politica e na parte militar. Não foi fácil reunir adeptos face ao risco envolvido, mas foi o necessário e todos cumpriram. 

 

O Grupo dos Nove esperava pela ‘saída do coelho da toca’ para fazer um contragolpe. Como vigiavam as manobras das tropas esquerdistas? Quando souberam que os paraquedistas iam sair para a rua e tentar um golpe?

O objetivo do grupo era evitar qualquer atitude violenta e dar confiança aos Portugueses. As manifestações eram quase diárias, contra e a favor do governo. Os partidos políticos mais representativos PS (37,87%) e PSD (26,39%) estavam preocupados e ligaram e apoiaram na medida do possível o Grupo dos Nove, em especial o PS e o seu presidente Dr. Mário Soares lutando pela Democracia. A 6 de novembro de 1975 Mário Soares e Álvaro Cunhal debatem acaloradamente na TV diferentes perspetivas para o país (durante quase 4 horas o pais assistirá ao primeiro grande debate político da Democracia Portuguesa). Já em 16 de Junho de 1975 veio gente do Porto para a manifestação na Fonte Luminosa na Alameda D. Afonso Henriques criada pelo PS. O Grupo dos Nove, ou melhor dizendo, o grupo militar ia-se preparando para uma resposta militar se viesse a ser indispensável. Obtinha informações da maior parte dos militares amantes da paz. Tempos difíceis, até porque o potencial militar em confronto era desequilibrado a favor do PCP embora de um lado estivesse a maior parte do exército, a totalidade ta Força Aérea e parte dos oficiais descontentes da Armada (Grupo dos Noventa). O grupo constituído ad hoc foi formado pelo General Ramalho Eanes, Coronel Jaime Neves com os seus comandos experientes e muitos deles voluntários, o Capitão Vasco Lourenço nomeado para equilibra o governo de Lisboa teve um papel importante na ligação política-militar e exerceu o comando com coragem e determinação. O Major Melo Antunes sempre atento ao evoluir politico. O “sair da toca” corresponderia à indisciplina e não obediência à linha de comando e à presidência o que aconteceu com os paraquedistas e outros. Quando o Presidente da República apelou ao seu bom senso e obediência de comando recusaram.
À ordem do Presidente e sobre sua orientação, aceitou a disponibilidade do Grupo Militar dos Nove que viriam a atuar em Monsanto e na Calçada da Ajuda com dois mortos e um, diz-se de uma outra unidade adversa.

O objetivo dos paraquedistas e outras unidades esquerdistas era mesmo um golpe de Estado? E quem estava por detrás dele? O Partido Comunista?

Não sei se seria, tudo levava a querer que sim. Quem estava por detrás deles, é difícil afirmar, mas Zita Seabra no seu livro “Foi Assim/2007” diz:
“…Quando chegaram as noticias da viragem dos paraquedistas e do avanço dos Comandos do Jaime Neves eu temi o pior. Chamaram-me para receber uma informação e mandaram desmobilizar tudo e todos imediatamente, confirmando que os paraquedistas tinham virado, que tinha passado para o outro lado, que os Comandos estavam na rua e que só a Marinha se mantinha fiel à revolução e só com a Marinha não se podia ganhar uma revolução…”; “…Eu e os UECs ficamos furiosos com esta ordem tão rápida de recuo. Porquê desistir logo assim?!...”; “…Os militares de Eanes a Jaime Neves, de Melo Antunes a todos os outros do Grupo dos Nove, tinham feito o 25 de Abril e não tinham como modelo a revolução Russa. Decididamente. Eram militares patriotas orgulhosos de terem virado essas espingardas…”
Também no juramento de Bandeira a 21 de Dezembro de 1975 por Ralis perante a presença de Alta Entidade juraram “pela mesma ocasião estar ao serviço da classe operária, dos camponeses e do povo trabalhador, com voluntária aceitação da disciplina revolucionária, contra o fascismo, contra o imperialismo, pela vitória da revolução socialista”.

Como se explica que, sendo o Presidente Costa Gomes muito próximo do PCP, tenha apoiado o Grupo dos Nove?

A força das circunstâncias já dificilmente dominava a situação e tem de socorrer dos meios de confiança que tinha ao seu alcance não sem antes declarar o Estado de Sitio para a região de Lisboa e dar ordens de atuação será isto um golpe de estado ou uma atuação às ordens do poder legalmente constituído?

Como foi designado Ramalho Eanes comandante militar do contragolpe? 

Naturalmente, porque chefiava a parte operacional do Grupo dos Nove e porque se apresentou na presidência declarando o evoluir da situação: Comportamento do COPCON, não aceitação por algumas unidades militares do então Capitão Vasco Lourenço para assumir o comando Governo Militar de Lisboa e ocupação das bases da Força Aérea e indisciplina geral. Forças dispersas, mas que em ação conjugada poderiam lançar o pais na desordem. Atuação preventiva e ativa face ao desenrolar das ações minuto a minuto. Felizmente os fuzileiros reconheceram certamente a situação ou receberam ordens para isso e a meio da ponte sobre o Tejo desistiram.

Vitorioso o contragolpe, houve unidade de vistas no Grupo dos Nove sobre o caminho a seguir ou havia várias correntes? 

Havia uma só corrente. Foi nomeado o CEME, publicou a legislação adequada (lei 17/75) que repôs a situação institucional do papel das Forças Armadas numa sociedade democrática.

Há mais algum facto importante a referir?

Já vai extensa lista dos acontecimentos, mas muito mais haveria a dizer. Pode salientar-se que corremos o risco de Guerra Civil mas a situação foi normalizada e o 25 de Novembro de 1975 completou um dos programas do MFA: Democratizar e criou condições para prosseguir os seguintes. O processo Revolucionário terminaria e entrou-se numa época de acalmia e paz que permitiu ao poder politico prosseguir os caminhos corretos para o bem-estar do povo Português. Podemos dizer que o 25 de Novembro de 1975 é parte integrante do 25 de Abril de 1974 e quem assim o não entender aconselho a ler a história.

Como vê esta ideia do 25 de Novembro como o dia 'em que se cumpriu o 25 de Abril'?

Diria que se cumpriu parte dos objetivos do 25 de Abril, criar ambiente de segurança e confiança para o poder politico cumprir as suas responsabilidades.

Deve ou não o Estado celebrar a data como se celebra o 25 de Abril? Ou a data perdeu relevância?

Já temos muitas comemorações e muitos heróis, considero que os acontecimentos que se sucederam levam a incluir e não a excluir.

Porque continua a ser difícil explicar às gerações mais novas o 25 de Novembro?

É apenas um problema de informação e relatar a verdade nas escolas e na imprensa. Há gerações de jovens que continuam generosas e conscientes do que querem, demos-lhes a verdade e eles escolherão com saber e ambição para contribuírem para a melhoria deste povo respeitando a sua identidade.

 

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