Sociedade

PSP atenta a organizações criminosas albanesas

Assaltantes de casas de nacionalidade albanesa cruzam a Europa no inverno e agentes estão preparados para os receber. Também vigiam a costa, apetecível para o tráfico, sobretudo em Viana do Castelo.


Com a chegada do inverno, investigadores preparam-se para receber células criminosas de origem albanesa, que atravessam a Europa para assaltar residências apetecíveis. Este fenómeno parece ter uma frequência sazonal em Portugal, dado os grupos apanhados em território nacional preferirem atacar quando mudamos a hora, anoitecendo mais cedo. Tendo alguns especializado-se em roubar casas de jogadores de futebol, explica ao Nascer do SOL uma fonte na PSP. Mas se assaltos a residências são o sintoma mais visível em Portugal da ascendência do crime organizado albanês, o ‘peixe graúdo’ à escala global dedica-se ao tráfico de droga, trazendo experiência na produção de canábis e revolucionando o tráfico de cocaína, controlando o seu abastecimento e distribuição, da América Latina até à Europa. Havendo suspeitas que a máfia albanesa já se tenha tentado implantar em portos e estaleiros na nossa costa, particularmente em Viana do Castelo. Há sinais, admite fonte na PSP.  «Mas estamos atentos».

Células de assaltantes de residências além-fronteiras e redes de traficantes droga em expansão têm uma origem comum na Albânia, um pequeno país nos Balcãs, com pouco mais de 2,8 milhões de habitantes, devastado pela guerra civil de 1997. Mas os atores são muito diferentes dependendo do negócio, explica Claire Georges, vice-porta-voz da Europol, a agência europeia responsável por combater o crime organizado.

Se as redes de tráfico de droga foram estabelecidas em boa parte pela diáspora, daí que a Europol prefira usar a expressão ‘grupos de crime organizado falantes de albanês’, «normalmente são criminosos oriundos da própria Albânia e dos países vizinhos que cometem crimes contra propriedade», nota Georges, à conversa com o Nascer do SOL.

«Os outros criminosos que têm presença estabelecida no tráfico de droga fazem muito mais dinheiro, não vêm necessidade de se envolver nisso», aponta. Os clãs de traficantes albaneses «tornaram-se peixe graúdo no submundo do crime, ganha-se muito mais com a cocaína do que com assaltos a casas». 

Células saltam fronteiras
Células de assaltantes de casas albaneses podem ser ‘peixe miúdo’, mas não deixam de inspirar terror nas vítimas. Estes criminosos foram responsáveis pelo assalto à mansão de Nicolás Otamendi, um defesa central do Benfica que no inverno passado foi agredido enquanto a família era feita refém, na Herdade da Aroeira, em Almada, tendo sido roubados objetos de valor e centenas de milhares de euros em dinheiro. Dois anos antes, em Gaia, foi assaltada a residência de Otávio, jogador do FC Porto. Só estavam a mulher e filho em casa, não por acaso, dado que o meio-campista jogava contra os holandeses do Feyenoord no momento do crime.

Foram os casos mais badalados na imprensa, mas ainda em março foi detida uma célula de três albaneses, suspeita de onze assaltos a moradias no Minho. Iam saltando a fronteira a partir da sua base em Pontevedra, na Galiza, conseguindo roubar bens no valor de pelo menos meio milhão de euros, sendo identificado ainda o dono de um estabelecimento de venda de ouro que os ajudava a escoar o material furtado.

A PSP já acompanha este fenómeno há mais de cinco anos. «A perceção que temos é que estas células albanesas aproveitam a mudança da hora de inverno», quando anoitece mais cedo, permitindo-lhes agir a coberto da escuridão, realça fonte.

É que «durante a noite as pessoas até ligam os alarmes, se calhar só a partir das 22h, 23h é que se tranca tudo. Durante o dia fica tudo fechado. Ali entre as 19h e as 21h, quando a família está em casa, temos menos cuidados», descreve.
Os assaltantes albaneses aproveitam, têm até o atrevimento de entrar subrepticiamente nas residências com vítimas lá dentro, algo pouco comum em Portugal. Uma das suas práticas é levar as viaturas automóveis que estejam estacionadas na rua, se conseguirem encontrar as chaves.

Até agora, os assaltos por células albanesas registados em Portugal têm decorrido sem recurso a mão armada. «Só se forem localizados é que eles se tornam violentos. Pelo menos é essa a experiência que nós temos, se as vítimas tentarem intervir eles podem recorrer à violência para fugir, por agora sem armas de fogo», aponta fonte da PSP.  Como se viu no caso de Otamendi, agredido e manietado com um cinto. «Noutros países europeus as máfias albanesas até são conhecidas pela violência extrema, em Portugal não».

Na prática, tratam-se de pequenos grupos com alta mobilidade, que ficam brevemente em território nacional, apenas duas ou três semanas, de forma semelhante ao que se vê com células georgianas, romenas ou servo-croatas. Quando partem, deixam sempre cá alguém que estude o terreno, à procura da próxima oportunidade.

É aí que entra a cooperação internacional. «Sempre que identificamos um grupo desses trabalhamos a inteligência, seja obtida através de telemóveis ou comunicações encriptadas, e emitimos um early warning notification», explica a vice-porta-voz da Europol. «A dizer: ‘Cuidado, este grupo opera aqui e temos bons motivos para crer que se pode mudar para ali. Estejam em alto alerta’». 

Viana do Castelo na mira 
Quanto ao ‘peixe graúdo’ albanês, também já fez soar alarmes em Portugal. Temendo-se que quisessem utilizar a nossa costa para descarregar a cocaína que compram na América do Sul.

«Temos trabalho de campo que indica que de alguma forma eles pretenderam – não temos a certeza que tenham conseguido – tomar conta de estaleiros em território nacional», revela fonte na PSP. Referindo-se aos estaleiros de Viana do Castelo, muito próxima da Galiza. Esta província espanhola sempre foi um paraíso para contrabandistas, mas desde a quebra do setor pesqueiro, nos anos 1980, viu a sua extensa costa, recortada por baías e enseadas, tornar-se das principais portas de entrada de cocaína no continente europeu.

E em Viana do Castelo, lá ao lado, investigadores começaram a reparar numa presença desproporcional de cidadãos albaneses a trabalhar nos estaleiros. «A comunidade albanesa em Portugal é relativamente pequena, achámos estranho haver um foco em Viana do Castelo», avalia fonte na PSP. «São sinais».

Para a Europol, o sinal mais inequívoco da entrada do crime organizado albanês num território seria corrupção. Viram-no em tempo real quando conseguiram aceder às aplicações EncroChat e SkyECC, que funcionavam como uma espécie de WhatsApp do crime, permitindo trocar mensagens e organizar negócios, numa operação que resultou em mais de 800 detenções por todo o mundo.

Quando leram as mensagens da máfia albanesa, espantaram-se com o nível de corrupção na Europa. «Não eram só dirigentes de portos a serem corrompidos, mas infelizmente também agentes das forças de segurança e alfandegas. Eram pagos para fechar os olhos quando um abastecimento chegava», relata Claire Georges. Essa foi uma das chaves para o sucesso dos albaneses, que conseguiram controlar mercados tão lucrativos como Londres ou as rotas de tráfico a partir de Holanda.

Mas «seria errado dizer que os portos são controlados por um só grupo. Quando olhamos para Roterdão ou Antuérpia, vemos muitos grupos diferentes lá a operar», ressalva a vice-porta-voz da Europol. «Claro que há tensões entre eles, na Holanda nota-se muito isso entre falantes de albanês e marroquinos, com confrontos violentos para tentar ganhar dominância».

Cá em Portugal, o crime organizado albanês teria de conviver com a influência do Primeiro Comando da Capital (PCC), um cartel nascido dentro das prisões brasileiras, que controla o porto de Santos, o maior da América Latina, em São Paulo. Bem como os italianos da Camorra e ‘Ndrangheta, que vão aparecendo por cá, enquanto os galegos são velhos conhecidos. Isso não quer dizer que a entrada do crime organizado albanês resulte necessariamente em violência, apesar da reputação sanguinária destes grupos.

Essa fama é um legado dos anos 90. À época, o crime albanês era dominado por ex-agentes secretos comunistas, desempregados após a queda do regime, ou senhores da guerra que aproveitaram quando os arsenais acumulados por Enver Hoxha foram abertos ao público. Estes criminosos, organizados em clãs que se envolviam em guerras sangrentas fratricidas, dedicam-se providenciar serviços a outros grupos, sobretudo a máfia italiana, fazendo os trabalhos mais sujos.

«Eles costumavam ser extremamente violentos quando apareceram em cena, não o escondiam das forças de segurança», explica Georges. «Imagino que tenham trazido a experiência da guerra para o mundo do crime a pensar que seria a mesma coisa, que se operava da mesma maneira».

«Mas eles compreenderam que se queriam crescer tinham que amadurecer, passar por baixo do radar», aponta, notando uma mudança geracional. «Vemos perfis mais jovens, não são necessariamente as mesmas pessoas que víamos nos anos 90». Além dos albaneses terem seguido a estratégia pioneira de controlar a cadeia de tráfico de cocaína inteira.

«Dantes a máfia italiana contratava criminosos albaneses para garantir a distribuição de droga na Europa, mas também trabalhava com carteis colombianos para ter acesso a cocaína. O que os albaneses fizeram foi colocar as suas pessoas ao longo de toda a cadeia de abastecimento», explica a vice-porta-voz da Europol. «Têm gente na América do Sul a organizar abastecimentos diretamente. Depois eles próprios recebem-nos e distribuem-nos».

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