O Mundo em Calções

O homem que sonhou com um Café…

Recusou cem mil coroas e regressou a Antuérpia e ao seu Beerschot

O homem que sonhou com um Café…

Durante muitos anos Ray­mond Ernest alimentou o sonho de ter um Café. Ora, ter um café não parece nada de muito grave, mas a verdade é que quando Raymond abriu finalmente o seu estabelecimento a vida começou a andar-lhe para trás. Quero dizer, pensava ele. Na verdade até começou a andar para a frente e de que maneira.

Raymond nasceu em Antuérpia no dia 28 de abril de 1907. Desde menino que ele e o seu irmão Pierre chutavam bolas feitas com bexiga de porco no baldio que ficava perto de casa dos pais. Depois, já adolescentes, quiseram jogar futebol a sério e procuraram o clube mais próximo, que era o Beerschot. Ficaram. Toda a gente gostava dos irmãos Braine. E toda a gente via neles futuros avançados de muita qualidade. Os anos de cumplicidade entre ambos com a bexiga de porco pelo meio ofereceram-lhes uma série de combinações bonitas de ver. O público adorou. Só que, com o tempo, Raymond esticou, transformou-se num fulano bem desenvolvido, rápido e agressivo, enquanto Pierre se manteve um finguelinhas com tendência até para o raquítico. Foi aí que a dupla se separou. Curiosamente, parece que não sentiram falta um do outro. De alguma forma foi como se um fardo tivesse sido tirado das costas do Braine mais velho. Aliviado, alegre, aos 18 anos já era a personagem mais carismática do Beerschot. Quanto a Pierre, não tenho notícias.

Raymond começou mal a sua aventura na equipa principal: derrota sem espinhas frente ao Daring Club de Bruxelas e nem um remate à baliza. Não se deixou abater: nesse final de época de 1923 participou em mais quatro jogos e marcou quatro golos. E vestiu a camisola da Bélgica contra os embirrentos vizinhos holandeses. O seu sorriso ia de orelha a orelha e ainda nem sequer lhe passava pela cabeça que poderia vir a ser um dos maiores jogadores belgas de todos os tempos como, de facto, foi. Nos cinco anos seguintes comandou o ataque do Beerschot com uma perícia que nunca se tinha visto na vida do clube. Quatro campeonatos ganhos! Toda a Bélgica murmurava com respeito o nome de Raymond Ernest Michel Braine.

Os belgas podem ser meio ariscos, mas não são nenhuns saloios, como os franceses gostam de nos fazer crer. Há uma expressão desprezadora que usam quando algo lhes faz confusão: «Mon Dieu, ça me semble un film belge!». Para compensar, os belgas encolhem os ombros e referem-se à França como aquele país grande a sul da Bélgica. Pois, não é só com os holandeses que existem embirrações. Enfim, patacoadas de vizinhos, eles que se entendam, temos os nossos que já nos dão água pela barba. Isto para dizer que, quando finalmente ganhou umas coroas e pôde investi-las no seu Café, Raymond viu-se atascado até aos joelhos no complicadíssimo argumento de um filme belga.

Em 1928, os Jogos Olímpicos tiveram lugar em Amesterdão. A Bélgica foi eliminada pela Argentina, perdendo nos quartos-de-final por 3-6 (Raymond marcou um dos golos) e abriu-se uma grande discussão sobre se o profissionalismo deveria ser abraçado ou cuspido. Os dirigentes da federação belga decidiram cuspi-lo. Ou mesmo escarrá-lo, tal a forma como o fizeram. Foi aí que entrou a história do Café. Braine não era o único jogador da seleção que tinha sonhado com um Café e conseguira pô-lo a funcionar. No mundo de amadorismo em que viviam, os tascos compunham-lhes o final do mês. Vai daí, os burocratas federativos proibiram-nos de ter Cafés. Exatamente assim. Para poderem jogar por qualquer das principais equipas do país, os jogadores não podiam ter Cafés a menos que já estivessem em posse da família há cinco anos, no mínimo. Sim, é uma regra que só pode ter saído da cabeça de uma besta de cento e vinte e oito patas, mas foi posta em prática e Raymond viu-se na contingência de ter de vender o Café que inaugurara há muito pouco tempo. Chateou-se. Era dono de um Café, sonhara com isso, e gostava de o ser. E, assim, esteve-se nas tintas para os pategos da federação e emigrou.

Praga era uma cidade onde todos adoravam futebol e alimentavam a rivalidade entre o Slávia e o Sparta. Raymond assinou um contrato com o Sparta e tornou-se no primeiro jogador profissional da história do futebol belga. Os adeptos deram-lhe a alcunha de Brain, o cérebro. Nas ruas, tratavam-no tu cá tu lá, com palmadas nas costas e chamavam-lhe carinhosamente Brainova. Ele pagou toda essa simpatia com golos, mais de cem ao longo de seis épocas. E com o serviço de qualidade fornecido pelo seu Café Congolais que tinha uma esplanada virada para o rio Vltava e com vista para a Ponte Carlos. Em 1936, recebeu um convite para se naturalizar checo. Os dirigentes da federação da Checoslováquia não eram como as azémolas dos seus confrades belgas. Prometeram a Raymond cem mil coroas. Ele recusou. Tinha saudades de casa. Regressou a Antuérpia e ao Beerschot. Mas dessa vez não houve quem o proibisse de ter um Café.

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