Sociedade

Cada vez menos portugueses infetados por VIH e com SIDA em Portugal

Durante os anos 2020 e 2021, foram diagnosticados 415 novos casos de SIDA, 202 casos em 2020 e 213 casos em 2021, todos também em adolescentes ou adultos com idade igual ou superior a 15 anos.

 


Maria Moreira Rato com Filipa Aguiar

Neste Dia Mundial do Combate à SIDA, importa mencionar que o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e a Direção-Geral da Saúde (DGS) divulgaram, na terça-feira, o “Relatório Infeção VIH em Portugal – 2022” – documento sobre a situação da infeção por vírus da imunodeficiência (VIH) e a síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA) em Portugal.

De acordo com os dados recolhidos até 31 de outubro de 2022, foram diagnosticados 1.803 novos casos de infeção por VIH no biénio 2020-2021, dos quais 870 dos novos casos em 2020 e 933 em 2021, sendo a maioria registados em indivíduos com idade superior ou igual a 15 anos. Estes dados revelam uma redução de 44% do número de novos casos de infeção por VIH e de 66% em novos casos de SIDA entre 2012 e 2021.

Ainda que se verifique uma redução dos números, a maioria dos novos casos (71,8%) de infeção em adolescentes e adultos com idade igual ou superior a 15 anos registou-se em homens (apresentando 2,5 casos por cada caso em mulheres) e a mediana de idades à data do diagnóstico foi de 39 anos. A transmissão ocorreu através de relações sexuais, em 91,9% dos casos no biénio 2020-2021, sendo a transmissão heterossexual a mais frequente (51,8%) e 40,2% em homens que têm relações sexuais com homens (HSH). Os casos em utilizadores de drogas injetadas (UDI) corresponderam a 2,3% do total.

No período em análise, foram notificados 4 casos de infeção VIH em crianças, sendo dois deles no ano de 2020 e os outros dois o ano passado. Sabe-se que até 31 de dezembro de 2021, foram diagnosticados e notificados, em Portugal 633 casos de infeção por VIH em crianças com idade inferior a 15 anos. Estes casos distribuem-se equitativamente entre sexos e a maior percentagem dos diagnósticos ocorreu no primeiro ano de vida, sendo a via de transmissão mais frequentemente referida a transmissão mãe-filho. É ainda importante realçar que 92,6% destes casos foram diagnosticados há mais de uma década e que as medidas implementadas em Portugal, para a prevenção da transmissão vertical, resultaram num decréscimo dos novos casos em crianças.

Durante os anos 2020 e 2021, foram diagnosticados 415 novos casos de SIDA, 202 casos em 2020 e 213 casos em 2021, todos também em adolescentes ou adultos com idade igual ou superior a 15 anos. Do total, 291 novos casos registaram-se em homens e os restantes 124 em mulheres. A maioria dos novos casos de SIDA de 2020 e 2021 (58,3%) registou-se em indivíduos nascidos em Portugal, o que se observa em ambos os sexos, e a distribuição dos novos casos de SIDA ocorreu em indivíduos que contraíram a infeção por contacto heterossexual.

Óbitos em doentes infetados por VIH Segundo os dados, foram comunicados 298 óbitos em doentes infetados por VIH ocorridos no biénio 2020-2021, dos quais 139 (46,6%) em fase SIDA. Os óbitos ocorreram maioritariamente em homens (72,1%; 215) e a idade mediana à data de óbito foi de 58 anos. Como tem sido verificado em anos anteriores, os UDI apresentaram a idade mediana mais baixa, 49 anos à data do óbito.

O tempo decorrido entre o diagnóstico de infeção por VIH e a morte foi superior a 20 anos em 24,5% dos óbitos ocorridos entre 2020 e 2021. Por outro lado, 19,8% dos óbitos ocorreram no primeiro ano após o diagnóstico e nestes a estratificação por modo de transmissão revelou que a proporção mais elevada (36,4%) de óbitos no primeiro ano após o diagnóstico se verificou em homens com relações sexuais com homens. Demonstra-se ainda que em 49,3% dos óbitos registados em casos de UDI o diagnóstico tinha acontecido há mais de 20 anos.

Desde 1983 até 31 de dezembro de 2021, foram diagnosticados cumulativamente em Portugal, 64 257 casos de infeção por VIH, dos quais 23 399 atingiram a fase de SIDA e resultaram em 15 555 óbitos.

Após a verificação dos primeiros casos por VIH no país, ocorridos em 1983, o maior valor anual de novos diagnósticos foi atingido em 1999, com 3 351. Desde aí que se observou um decréscimo sustentado no número anual de novos casos, que se apurou ser de 43% entre os diagnósticos ocorridos nos anos 2000 e 2011 e de 48% quando comparados aos anos 2012 e 2021. É ainda observado, no ano passado, um número superior de diagnósticos relativamente aos notificados para 2020, podendo esta situação estar associada ao impacto da pandemia COVID-19, não sendo ainda claro se a redução se deve a restrições no acesso ao diagnóstico para a infeção por VIH, a alterações de comportamentos ou outros fatores ainda não identificados.

O relatório anual, divulgou também que em 2021 o número de pessoas com acesso à terapia antirretroviral aumentou, subindo 5,22% e chegando a 28,7 milhões de pessoas tratadas. Por região, a África Oriental e África Austral responde por quase metade do total de casos de SIDA no mundo: 20,6 milhões dos quais têm acesso ao tratamento antirretroviral. Este tratamento é menos comum no norte do continente africano e na Ásia Central, onde apenas metade da população afetada tem as terapias necessárias.

É de referir que a pandemia deixou Portugal sem dados. No início do ano, sabia-se que, há três anos, haviam sido diagnosticados 778 novos casos de infeção por VIH em Portugal, o que equivalia a uma taxa de 7,6 casos/100 mil habitantes, “não ajustada para o atraso da notificação”, alertava o INSA no seu site oficial. Tinham sido notificados 172 novos casos de SIDA e 197 óbitos ocorridos em 2019 em casos de infeção por VIH ou SIDA.

“Encontram-se registados cumulativamente 61.433 casos de infeção por VIH, dos quais 22.835 casos em estádio SIDA, em que o diagnóstico aconteceu entre 1983 e final de 2019. No mesmo período, foram notificados 15.213 óbitos em casos de infeção por VIH”, era conhecido, números que, agora, são ligeiramente distintos, como é possível verificar acima.

Recorde-se que, em fevereiro deste ano, uma norte-americana seropositiva terá sido supostamente curada do vírus da imunodeficiência humana (VIH) através da transfusão de sangue do cordão umbilical de um bebé, parcialmente compatível, com resistência genética ao vírus. Neste caso, os médicos não recorreram ao habitual transplante de medula óssea de um dador de etnia semelhante. Tendo em conta que a maior parte dos dadores é de origem caucasiana, este tratamento abre janelas de oportunidade a muitos mais portadores do vírus.

Em 2008 curou-se o primeiro paciente com VIH, que viveu livre do vírus durante 12 anos, até morrer com cancro há dois anos: Timothy Ray Brown – “Paciente de Berlim” –, que tinha VIH e leucemia. Em 2019, Adam Castillejo – “Paciente de Londres” – foi curado, sendo que os dois receberam células estaminais de dadores compatíveis tal como a mulher – “Paciente de Nova Iorque” – que sofre de VIH e leucemia mielóide aguda. Os médicos Koen van Besien, Jingmei Hsu e Marshall Glesby, do New York-Presbyterian Weill Cornell Medical Center, foram responsáveis pelo tratamento desta doente.

Aproximadamente 650 mil pessoas morreram de SIDA no ano passado e um milhão e meio de pessoas foram infetadas pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) nesse mesmo ano, anunciou esta terça-feira o relatório anual do Programa das Nações Unidas de Combate ao VIH/Sida (ONUSIDA). 

O número total de novas infeções no ano passado foi semelhante ao registado em 2020, aponta o relatório, enquanto as mortes caíram 5,79%. Ainda assim, a taxa de mortalidade foi observada especialmente alarmante entre as crianças: os dados do ONUSIDA contabilizaram ainda que 15% de todas as mortes no ano passado ocorreram entre crianças com menos de 14 anos, apesar de representarem menos de 15% das pessoas a viver com o VIH no mundo. 

Segundo as estatísticas, existem 38,4 milhões de pessoas a viverem com VIH – 1,5% a maior do quem em 2020, quando a doença afetava cerca de 37,8 milhões de pessoas. Apesar disso, as novas infeções caíram mais de metade (54%) desde o pico da doença, em 1996, enquanto as mortes desceram 32% desde 2004 – ano em que dois milhões de pessoas perderam a vida devido à SIDA. 

No documento da ONU é ainda salientado o problema da desigualdade de género na luta contra a SIDA em diferentes regiões do mundo, nomeadamente o seu impacto nas mulheres que vivem na África subsaariana, onde as adolescentes com idades compreendidas entre os 15 e 19 anos têm duas vezes mais probabilidade de serem infetadas do que os homens que se situam na mesma faixa etária. Cerca de 63% das novas infeções por VIH na região eram mulheres, um aumento de quase 10% do que nas estatísticas globais. 

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