Crítica musical

Eric Clapton - Just One Night

"Wonderful Tonight" é outro dos temas a emergir de "Slowhand". Uma canção de amor inspirada em Pattie Boyd, que ao que parece, demorava uma eternidade a produzir-se para qualquer tipo de evento social, o que levava EC ao desespero.

Eric Clapton - Just One Night

Eric Clapton - Just One Night
Live at Budokan - Dezembro 1979

Eric Clapton - guitarra e vocais
Albert Lee - guitarra
Henry Spinetti - bateria
Chris Stainton - teclas
Dave Markee - guitarra baixo

 

por Telmo Marques

De novo em torno de álbuns ao vivo, este é talvez, e de toda uma discografia de álbuns ao vivo de EC, aquele que mais me toca particularmente.

Gravado ao vivo no templo musical que foi e continua a ser o teatro Budokan, que teve o seu primeiro espectáculo de música pop\rock ao vivo com os Beatles, em meados dos anos '60, este álbum gravita em torno de clássicos imediatamente reconhecidos de EC, bem como de alguns standards bluesianos, que Clapton torna irremediavelmente seus.

Deixando para trás toda a sua anterior entourage de músicos norte americanos, Clapton reaparece aqui com um quarteto de músicos de origem britânica, todos eles prodigiosos, sendo que pelo menos um, acompanha-o até aos dias de hoje, quer em estúdio quer ao vivo, o teclista Chris Stainton, que no seu curriculum conta com passagens como Joe Cocker, The Who e Bryan Ferry.

O álbum abre com uma brilhante versão de "Tulsa Time", que Clapton recria aqui com a ajuda ao piano de Chris Stainton, a tocar um "boogie Woogie" que ajuda e de que maneira a guitarra slide de Clapton a sobressair ainda mais, Um tema uptempo, para abertura de um já clássico álbum, que vendeu milhões por todo o mundo, especialmente em Inglaterra e Estados Unidos.

Segue-se "Early in the Morning" que, não sendo um original de Clapton (como já não era o anterior tema), surge aqui com um arranjo fabuloso do próprio, em que a guitarra slide volta a sobressair, num tema que é dos mais bluesianos de todo o álbum. 

Lay Down Sally é talvez das músicas mais conhecidas de Clapton, lançada no álbum "Slowhand" de '77, e que foi incrivelmente bem sucedido, tendo sido inclusive considerado por muitos críticos musicais, o seu melhor trabalho de estúdio, produzido pelo mestre Glyn Johns.

"Wonderful Tonight" é outro dos temas a emergir de "Slowhand". Uma canção de amor inspirada em Pattie Boyd, que ao que parece, demorava uma eternidade a produzir-se para qualquer tipo de evento social, o que levava EC ao desespero.

Numa dessas ocasiões, e à medida em que ia experimentando toda uma miríade de conjuntos, Clapton pega numa guitarra acústica e, ao que parece, escreve o grosso da música, acrescentando-lhe posteriormente a letra.
Uma balada que se tornou um autêntico fenómeno, tocada em casamentos um pouco por toda a parte, bem como fazendo ainda parte dos setlists de Clapton.

No próximo tema, segue-se o inevitável. Uma canção escrita pelo mestre, o cantautor de todos os cantautores, Bob Dylan.
Uma canção que conta aqui com a preciosa guitarra de Albert Lee, que contrasta perfeitamente com a de Clapton, pois são dois estilos completamente opostos de abordagem à guitarra.
EC mais agressivo, Albert Lee mais melódico, sendo que um provém dos blues, e o outro do rockabilly\country.

"Worried Life Blues" segue na senda dos blues, aqui com um tema de Big Maceo Merriweather, com Clapton a cantar com uma alma que faria inveja ao próprio B.B. King.
Toda a banda em perfeito uníssono, com a guitarra baixo a sobressair com uma subtileza e elegância raramente vistos nos dias de hoje, e com mais um bombástico solo de guitarra de Clapton.
Mais um dos muitos "highlights" do álbum.

"All Our Pastimes" é mais uma balada, cantada aqui em duo com Albert Lee, com os dois a trocarem solos de guitarra fabulosos, bem como cantando de uma forma completamente singular, tornando-a completamente diferente do original, em que EC trocava os vocais com Rick Danko, dos The Band.

"After Midnight" é a versão mais conhecida de Eric Clapton de uma música de J.J. Cale, aqui mais aproximada da versão lançada no seu álbum debutante de 1970, simplesmente chamado Eric Clapton.
A quem ainda não conhece J.J. Cale, deixo-vos desde já aqui o meu vivo conselho para que o pesquisem e oiçam, pois é simplesmente delicioso, abrangendo vários géneros de música, incluindo country, blues, laid back rock, etc... .
Além de fantástico guitarrista, foi igualmente um escritor de canções fabuloso, criando pequenas pérolas, que ainda hoje são autênticos marcos da sua discografia, bem como da de outros artistas, e que foi GRANDE influência para além de Clapton, de Mark Knopfler e Neil Young.

"Double Trouble" é uma canção escrita por Otis Rush, um dos mais famosos bluesman de Chicago, e em que EC transforma esta versão, e mais uma vez, num tema completamente seu.
Deixo abaixo a letra da canção, para verificarem de que se trata 

"Lay awake at night

Oh so low, just so troubled
Can't get a job
Laid off and I'm having double trouble

Hey hey, to make you've got to try
Baby, that's no lie

Some of this generation is millionaires
I can't even keep decent clothes to wear

Laugh at me walking
And I have no place to go
Bad luck and trouble's taken me
I have no money to show

Hey hey, to make you've got to try
Baby, that's no lie

Some of this generation is millionaires
I can't even keep decent clothes to wear"

"Setting Me Up" é um tema dos então emergentes Dire Straits, que ambos Clapton e Lee eram fãs incondicionais, sendo que nesta versão os papéis invertem-se, sendo cantada por Albert Lee, com Clapton juntando-se apenas no "chorus".

"Blues Power" é escrita em parceria com Leon Russell, aqui tocada desenfreadamente, com o pedal "wah wah" da guitarra de Clapton, a produzir autênticas maravilhas sonoras.

Entrando já na recta final do duplo álbum, Clapton presenteia-nos ainda com mais blues, com o medley "Rambling on my Mind" e "Have you Ever Loved a Woman", com a sua banda, bem como o próprio, a funcionarem a todo o gás, alternando entre um tema e outro com uma facilidade tremenda, desfrutando ao máximo de todos os seus talentos.

"Cocaine" é outra versão de J.J. Cale, popularizada por Clapton, e que apesar do que sugere o título, é uma canção anti drogas, e em que Clapton tem mais um solo prodigioso, denotando-se, apenas por ouvir o álbum, o quanto se está a divertir.
Não consigo dizer se é a melhor versão que já ouvi ao vivo desta música, mas está facilmente no meu top três.

Eis-nos então chegados à última música deste prodigioso duplo álbum, em que, manda a etiqueta, toda a banda é apresentada, e começa "Further Up On The Road", um tema da autoria de Don Robey, sendo esta uma música que Clapton vinha já acrescentando ao seu repertório ao vivo desde meados da década, tendo uma versão muito conhecida no álbum dos The Band, The Last Waltz, em que troca solos fulminantes com o então guitarrista dessa banda, Robbie Robertson.

Até para a próxima semana

Telmo Marques

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