Desporto

Qatar-Falcões : A arte do peregrino da morte

A falcoaria é uma arte muito antiga, nascida na Pérsia há mais de cinco mil anos. No Qatar é um desporto muito apreciado e o negócio de compra e venda de falcões, cujo centro é o Souq Wakif, bem aqui ao lado de minha casa, tem um ritual tranquilo mas que não transige muito com o preço dos bichinhos – entre 100 mil e 300 mil Rials – cada Rial é cerca de um quarto de euro.

Qatar-Falcões : A arte do peregrino da morte

DOHA – Confesso que não sei se Portugal tem algum animal considerado nacional. Se o tiver, calculo que seja ou o bacalhau ou a sardinha, vendida em louça por tudo o que é loja de nepaleses. Sei, isso sei, que o Qatar tem um animal nacional e que esse bicho é o falcão. E o falcão nas suas mais diversas versões, que por aqui existem o falcão-amur, o falcão-lanceiro, o falcão-peregrino, o falcão-bárbaro, o falcão-matraz e o falcão-cinzento. Um ror de falcões, portanto. Doha não é uma cidade simpática para pássaros. Raros são os que podemos ver neste céu pontiagudo de prédios gigantescos desenhados por arquitectos que parecem ter tido liberdade total para inventar as formas que bem entendessem. Talvez as suas superfícies espelhadas que, de tempos a tempos, nos cegam com reflexos de sol, afastem as aves mais curiosas. Não há pardais. Podem observar-se gaivotas e gavinas junto às águas do Golfo Pérsico, rondando os pedaços de areia e os barcos típicos da região que se chamam dhows. Mas pelas ruas, pelos baldios, na vizinhança dos edifícios, apenas rolas beges, cinzentas, quase descoloridas.
Perto do sítio onde vivo durante este mês, um quarto grande com casa de banho num apartamento onde divido a cozinha (que não uso) com mais três fulanos, um dos quais filho do meu velho amigo Daffrallah Mouadhen, que conheci na Tunísia aquando de uma Taça de África e recrutei, na altura, para correspondente de A Bola no Golfo Pérsico, fica o Souq Wakif, local privilegiado para quem quer ver falcões. E comprá-los. Souq quer dizer mercado. O Souq Wakif é antigo, muito antigo, existe há mais de cem anos. Foi um centro de comércio frequentados pelas tribos beduínas da região, entrou em decadência mas, em 2004, renasceu graças à vontade dos governadores da cidade de Doha que sentiram (e bem!) que poderiam transformá-lo num espaço moderno, agradável para se percorrer com vagar, observando tudo o que se encontra à venda (e este tudo é mesmo praticamente tudo), ou para nos sentarmos numa esplanada pedindo um café turco ou um cachimbo de água e gozar momentos de descanso enquanto, em redor, as pessoas se atarefam nos seus inevitáveis regateios.
Imaginemos, por momentos, que o que aqui nos traz é uma vontade irreprimível de comprar um falcão, tal como há duas semanas supusemos ter uma vontade irresistível de comprar um camelo, lembram-se? Pois, se calhar não. Pouco importa. Querem camelos vão a Al-Shahanyia, mais para o lado do deserto. Querem falcões venham ao Souq Wakif, percorram os seus labirintos, dirijam-se à zona em que se erguem as tendas dos vendedores de animais e perguntem os preços. O negócio é conduzido com uma lentidão cuidadosa e educada. A tenda é climatizada, é servido um chá enjoativo misturado com leite, conversa-se sobre as mais diversas matérias, os falcões estão ali, expostos num quadrado de areia, de capuzes a tapar-lhes as cabeças. É muito natural que tenham uma surpresa. E se a vontade é assim tão difícil de contrariar, a surpresa pode vir a ser pouco agradável. Os mais baratuchos poderão ficar por cerca de 100 mil Rials (um Rial vale cerca de um quarto de euro); os bons, candidatos a serem expostos no palácio de algum sheik, vão por aí fora até aos 300 ou 350 mil Rials. Ou seja, os falcões mais caros equivalem-se aos camelos em saldo. 
A arte da falcoaria
Há sempre uma pergunta que devemos colocar a nós próprios na hora de adquirir um falcão: «O que vou eu fazer com este bicho?». É que a falcoaria é uma arte e não propriamente para todos. Assim ao correr da pena, certa vez, no mercado de animais de Djodjakarta, na Ilha de Jva, na Indonésia, um vendedor teimoso insistiu comigo durante toda a hora e meia em que calcorreei o espaço para que lhe comprasse um pangolim. O animalzinho até era simpático, sossegado, um tudo-nada escamoso, mas enfim, não se pode comparar um pangolim a um gato persa. Mas que diabo ia eu fazer com um pangolim? Que não e que não e que não. O homem aceitou o não de bom grado, a determinada altura desapareceu-me da vista, pensei que teria impingido o pangolim a outro desgraçado que não eu, qual foi a minha surpresa quando, na manhã seguinte, encontrei os dois mamíferos, o humano e o pangolim, à porta do meu hotel, ambos sorridentes e fresquinhos, isto se um pangolim é capaz de sorrir, geralmente são bicharocos bastante metidos com eles próprios. Está claro que apesar da insistência da carraça com duas pernas não comprei pangolim nenhum, nem que mo oferecessem, acabei por ganhar alguma ternura ao animalzinho porque, acreditem ou não, voltei a vê-lo mais o seu chatíssimo comerciante nos dias que se seguiram.
Pois desta vez também não fiz tensões de comprar um falcão, nem mesmo os mais procurados, como são os casos do falcão-lanceiro, um dos maiores de toda a família falconidae, ou falcão-peregrino, esse género de Fórmula 1 dos falcões que, vejam bem, atinge uma velocidade máxima de 389 quilómetros por hora. Não admira que ratos, coelhos, cobras e lagartos, vivam apavorados de cada vez que resolvem sair das suas luras e espreitar o sol do deserto que rodeia a cidade de Doha e todas as suas vizinhas, para norte e para sul, basicamente juntas numa urbe que deixou de ter fronteiras ou lugares onde se perceba quando saímos de umas para entrarmos nas outras.
O falcão não é, para nós, portugueses, um animal estranho como os camelos e dromedários, apesar de Portugal ser um dos países com maior número de camelos por quilómetros quadrado, embora a sua grande maioria disfarce as bossas através de um fato e gravata. Não é tão majestoso como a águia (será melhor dizer águias porque há espécies a dar com um pau), mas o seu voo equilibrado, o seu pairar nas correntes do vento e as suas súbitas descidas em busca de algo que valha uma refeição, por pequena que seja, devam ser admirados como uma das maravilhas mais elegantes que a natureza nos proporciona. No Qatar, a arte da falcoaria é antiga como a noite das trevas, ou pelo menos tão antiga desde que aqui se instalaram as primeiras tribos nómadas com vontade de se tornarem sedentárias. Tal como acontece com os camelos e com os dromedários, a época das competições tem início em Outubro e estamos, portanto, no meio dela. E, digo-vos já, é uma verdadeira obsessão para os qataris. Mais ainda: é uma verdadeira obsessão em todo o Médio Oriente de há séculos a esta parte. E observada com tanta atenção por parte do resto do mundo que a falcoaria entrou na lista da UNESCO como Património Imaterial da Humanidade.  
Um mundo à parte
Quem caminha por Souq Wakif em busca do quarteirão dos falcões entra num mundo à parte. Ao contrário do que acontece lá para os limites do deserto, e, Al-Shahanyia, com as competições de camelos, aqui não há escarcéus, nem tã-tãs, nem gritos de incentivo. Mas há apostas. Esta gente não vive sem apostas.
Mas vamos dar, primeiro, o seu a seu dono, como gosta de dizer o nosso povinho, de Santa Cruz do Bispo a Avelãs de Caminho: a falcoaria surgiu há cerca de 5000 anos na Pérsia. Depois, está claro, com aquele vaivém de nunca mais acabar de povos nómadas foi percorrendo as estradas do mundo. Foram os beduínos que trouxeram o vício para o Qatar e ainda há por aqui muita gente reconhecida pela excelência da ideia. Começaram, então, a fazer dos falcões um excelente instrumento de caça. Afinal era um poupar de balas muitíssimo razoável: nem todos os beduínos tinham pontarias eficazes e abater pombos ao longe não era tarefa infalível. Ora, os falcões, com as suas acelerações até aos 300 km por hora chamavam um figo às rolinhas. Não tardaria que alguns mais reinados resolvessem fazer da atividade um desporto. Estava-se mesmo a ver!
Houve tempos em que a falcoaria se espalhou igualmente pelo centro da Europa. Mas durou pouco tempo. Há a teoria – uma teoria com uma larga margem de prática, se querem a minha opinião, enfim, se não querem já cá está – de que o europeu é um ser muito dado a abater bichos, voadores ou não, apenas pelo simples prazer do os ver a estrebuchar e de poder gabar-se disso aos amigos. Mais ligados à natureza, os qataris não são muito adeptos dessa ideia de matar só por matar. Assim sendo, é vê-lo tratar os seus falcões com um requinte e com um carinho notáveis, tapando-lhes as cabeças com aqueles capuzes de couro de forma a garantirem determinadas horas de repouso e de os manterem sossegados ali ao lado, como bichinhos de estimação, enquanto se reúnem nos pátios a fumarem cachimbos de água.
Suponhamos, então, que em vez de ter repetido o rotundo não com que me libertei do homem do pangolim, lá em Djodjakarta, agora deixava-me engazopar por um destes vendedores de falcões do Souq Wakif e perdia o amor a 300 mil Rials em troca de um falcão-peregrino. Eis-me proprietário de uma avezita que me promove socialmente. E que é um exemplo de vontade, paciência e perseverança, afinal todos os princípios que os qataris querem ver aos filhos. Se já gastei um balúrdio, preparo-me para gastar o dobro ou o triplo só para contratar um treinador que mo ponha a funcionar devidamente sem me envergonhar perante os meus parceiros proprietários de falcões. Uma das primeiras coisas que o treinador me exigirá é que me afeiçoe ao bicho. E isso só vai acontecer se passar três ou quatro horas por dia com o braço esticado e com ele pousado relaxadamente na parte onde se situa o osso chamado rádio. Tenho portanto que não apenas me dedicar a fazer musculação em toda a zona necessária como preciso de ter um emprego que me permita bastante liberdade de movimentos. Como ser um emir ou um sheik, por exemplo. Dá jeito saber, igualmente, meia-dúzia de coisas sobre ornitologia para levar o meu falcão em direção a zonas onde ele encontrará as suas vítimas preferidas, como é o caso da abetarda, uma ave típica das zonas áridas do norte de África e da Arábia, que desapareceu por completo do continente europeu e que já é tida como um animal em vias de extinção. Ninguém disse que possuir um falcão era isento de chatices e, muito menos, de problemas de consciência zoológica. Por outro lado, não tenho de me preocupar grandemente com a sua saúde do meu falcão: há um hospital só para falcões patrocinado pelo estado e que pode receber mais de dez mil pacientes/dia.
O falcão que teoricamente acabei de comprar é um predador voraz e necessita de muito alimento, por isso façam o favor de acrescentar mais uns Rials à despesa mensal do bicharoco. Depois, e já que estamos numa fase de despesas, não julguem que os príncipes qataris vão assim à toda, de dishdasha, turbantes e chanatos para o meio do deserto com os falcões dependurados do braço como se fossem panos de linho de um empregado do velho Leão Douro, ali à 1º de Dezembro. Nem pensar nisso! São alguns achavascados ou quê?! Fazem-se transportar em jipes gigantescos, que engolem dunas como se fossem tremoços, instrumentos de comunicação do mais moderno que existe, antenas da altura do Empire State Building e uma seita de criados que lhes permite não terem de levar com o incómodo dos grãos de areia pela abertura das sandálias.
Aqui chegados, alerto para uma regra que é obrigatoriamente respeitada neste desporto que é, na verdade, uma caça por interposto animal. As aves ou os pequenos mamíferos que estiverem dentro daquilo que se entende por objetivos da prova de cada falcão têm de ser apresentados ao júri ainda vivos e só depois de estar confirmado que o coração ainda bate podem ser arrumados nas prateleiras dos caçadores à espera da contagem final que decide o grande vencedor. Ora, como o falcão é um bicho que possui um apetite digno de Pantagruel e Gargântua juntos e como precisa de estar em jejum e a salivar para se atirar sobre a sua vítima como um míssil com penas, os seus patrões veem-se obrigados a segui-los de perto, tão de perto que, quando a presa já esteja á mercê das garras e do bico do falcão, ainda disponha de um restinho de vida para ser considerada um troféu. E, desta forma, de cada vez que uma prova tem início, não nos limitamos a ver esses pequenos e elegantes pássaros a cruzar os céus como se quisessem ultrapassar a velocidade do som. Vemos igualmente os seus donos que os perseguem, aos saltos e trambolhões na areia nos seus amalucados veículos, decididos a não permitirem que uma refeição dos bichos venha a pôr em causa algum recorde.
Na verdade, entre futebol, corridas de camelos e falcoaria, há muito entretenimentos aqui no Qatar. São uns pândegos! 

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