Cultura

Nélida Piñon. A escritora que era tudo o que podia ser ao mesmo tempo

Nélida Pinõn foi a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras. Morreu no sábado, aos 85 anos.


Quando era pequena e por pertencer a uma família de imigrantes - originária da Galiza, mas radicada no Brasil há décadas -, acreditava que a cultura que desenvolvia em casa “era a que lhe abria as portas de todas as civilizações”. Por isso, desde cedo, achou que tinha dupla cultura: era brasileira, galega e “tudo o mais que podia ser ao mesmo tempo”: “Era aquilo que abraçava no mundo. Foi extraordinário. Fui sempre uma apaixonada pela História, não havia limite para mim: se houvesse, estaria a limitar a minha imaginação. E esta empurrou-me ainda mais a conhecer o mundo. E quis a vida que eu tivesse recursos que facilitaram esse transbordo, essa aventura humana”, revelava numa entrevista ao Nascer do SOL, no ano passado. E começou cedo. Ainda em pequena escrevia pequenas histórias e vendia-as ao seu pai e a outros familiares. “Queria ser escritora. Não sei como nem porquê, só sabia que amava as histórias. Sobretudo, as narrativas impossíveis e quem sabe até sem lógica. Porque a ausência da lógica dava mais força à história. E eu achava que aquelas histórias nasciam de uma experiência vivida e não inventada. Então, queria ser narradora para poder desfrutar das histórias que lia. Depois, dei-me conta de que não era assim: a história nascia de uma invenção daquele que a contava”, explicava.

A escritora brasileira, Nélida Pinõn - autora de mais de 20 livros, entre novelas, contos, literatura infantojuvenil, ensaios e memórias -, morreu em Lisboa, no sábado passado, aos 85 anos, informou a Academia Brasileira de Letras (ABL). A causa da morte ainda não foi confirmada.

Um percurso invejável A escritora foi a primeira mulher, em 100 anos, a tornar-se presidente da ABL, entre 1996 e 1997 e a primeira à frente de uma academia literária no mundo. À data da sua morte, a autora ocupava a cadeira número 30 entre os chamados “imortais” (nome dado aos escritores com assento na instituição fundada, por Machado de Assis e outros, em 1897).

Ruy Castro, outro dos imortais da ABL, confirmou a morte de Nélida ao Jornal GNews, da GloboNews. “Viveu em função da literatura, viveu para a literatura, ela foi uma das primeiras mulheres a integrarem a academia e abriu portas para outras (mulheres)”, afirmou. “A delicadeza, a gentileza é uma marca dela e ainda transparece na sua obra”, acrescentou Castro.

Descendente de galegos, Piñon nasceu no Rio de Janeiro em 1937 e formou-se em jornalismo na Pontifícia Universidade Católica da capital. Estreou na literatura com o romance Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, lançado em 1961. O seu segundo livro Madeira Feito Cruz saiu dois anos depois, em 1963.

Em 1984, lançou uma das suas obras mais marcantes: A República dos Sonhos. A Academia Brasileira de Letras destaca precisamente este romance no seu percurso, uma obra sobre uma família de imigrantes galegos no Brasil, em que “faz reflexões sobre a Galiza, a Espanha e o Brasil”.

Pinõn foi traduzida em inúmeros países e recebeu mais de 40 prémios ao longo de mais de 35 anos de atividade literária, entre eles o Prémio Jabuti, o mais tradicional reconhecimento literário do Brasil, e o espanhol Prémio Príncipe de Astúrias das Letras, em 2005. A sua mais recente obra, Um Dia Chegarei a Sagres, lançada em 2020, ganhou o Pen Clube de Literatura.

“Eu não sinto a literatura em mim como um desabafo. Podia ser assim uma carência, uma manifestação de ausência de coisas essenciais que não tive... Mas não. Sinto que procuro tudo, a minha curiosidade é infindável, mas não tem esse sentido de encontrar Deus, entender x ou y pessoa... É como se, de repente, seguisse as pegadas no mundo com uma certa “mínima” naturalidade porque me cabe isso como ser humano”, revelou ainda ao Nascer do SOL, em 2021.

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