Desporto

Pavana para uma infanta defunta

Fechou-se um ciclo. Mais uma vez a seleção nacional viajou para um Mundial envolta em farronca, numa inconsciência da sua verdadeira categoria, e saiu sem a paz do dever cumprido porque lhe exigem o impossível. Alguma vez
será preciso encarar a verdade de que este Portugal é uma mentira demasiadas vezes repetida.


DOHA – São seis minutos apenas. Seis minutos de uma elegância triste com o cambalear de um cisne moribundo. Maurice Ravel, compositor e pianista francês, deixou uma marca profunda de subtileza em todas as suas obras e esta, em especial, dedicou-a à princesa Winnaretta Singer, filha de Isaac Singer, o homem que se tornou milionário por fabricar e vender máquinas de costura. Isaac gostava de Maurice e Maurice gostava de Winnaretta. Isaac convidava Maurice para tocar num espaçoso salão que tinha para poder presentear os amigos com peças musicais e sua filha de defunta não tinha nada, embora Maurice tivesse inventado esse nome (parece que achou graça ao som de “infante défunte”) para lhe dedicar os suaves seis minutos que todos deviam ser obrigados a tirar pelo menos dez minutos da sua vida para os ouvirem. Sim, porque os quatro minutos de silêncio que se seguem também são tão melancolicamente de Ravel.

Melancolia é uma palavra que encaixa bem na esteira de mais uma presença bisonha da seleção nacional num Campeonato do Mundo de futebol e, sim, Infanta Defunta também é alcunha que lhe calha a matar (com todo o respeito) sabendo nós, dos mais euforicamente otimistas aos mais desesperadamente pessimistas, que o dia do regresso estava marcado para cedo e muito poucos seriam, até dentro da própria equipa, os que faziam um esforço desesperado para se convencerem de que os milagres existem. Aliás, se existissem, já os tínhamos gastado todos.

Escrevi aqui, várias vezes, durante os 31 dias passados no Qatar, que não passava cheques em branco a esta seleção por continuar a considerar que está muito longe de possuir a categoria que lhe querem atribuir. Apesar de ter sido crítico do selecionador Fernando Santos em diversas situações, não o vejo, como tantos, único responsável seja por momentos de jogo de fraca qualidade como pelos consecutivos fracassos sofridos nas fases finais em que estivemos presentes desde 2016. A derrota face a Marrocos pode ter sido de certa forma mais dolorosa do que o esperado, mas somente por se tratar de Marrocos (temos também esta inacreditável tendência para menosprezar adversários sem currículo) e porque, convenhamos, tínhamos feito contas a ser despachados pela Espanha, que deveria ter sido nossa adversária em Al Thumama. Não foi assim e, francamente, os quartos-de-final são, por assim dizer, a nossa natural porta de saída, tudo o que for mais do que isso é excecional, basta dar uma olhada às nossas participações em Mundiais – parece que não mas esta foi a terceira melhor em oito, só 1966 (3º lugar) e 2006 (4º) a superaram.

 

Ah! Que distância!

Ainda tenho embebidos nos sentidos os acontecimentos de domingo à noite, em Lusail, a beleza plástica de certos momentos daquela final como terão havido poucas até hoje, a emoção vívida, o espetáculo de dois adversários que lutaram até à exaustão pela posse do troféu que premeia a melhor seleção do mundo. Mas como podemos ter sequer a protérvia de sonhar em estar ali, nós e e o nosso futebol redondinho, fisicamente diminuto, sem jogadores do topo do mundo, agora que Ronaldo está em pré-reforma, resumidos à habilidadezinha, ao toque-e-retoque, às queixas e queixinhas, rapazinhos malandros a tentarem enganar homens? Como temos o descaramento de nos considerarmos candidatos a campeões e depois nos deparamos com aqueles 120 minutos mais grandes penalidades de verdadeiros grandes campeões? Ah! Que diferença! Que distância! Não somos justos com os jogadores de Portugal porque lhes exigimos o impossível; somos responsáveis perante as responsabilidades que lhes atiramos sobre os ombros quando passamos a vida a compará-los aos melhores dos melhores. O título de campeão da Europa deu para esconder muitas coisas nestes anos que se seguiram. Não sou treinador, não faço equipas; não sou selecionador, não escolho jogadores. A minha tarefa é ver e transmitir o que vejo sob o prisma da minha opinião em confronto com a realidade, não fugindo à emoção de querer que a Equipa-de-Todos-Nós, como lhe chamou Ricardo Ornellas nos primórdios, seja capaz de se bater como puder com os melhores dos melhores. Mas depois, o olhar coletivo também revela os segredos das fraquezas: uma defesa débil (com um monstro de 40 anos a disfarçar o que pode) que sofre golos inaceitáveis; um meio-campo lento, de pouco físico, com gente absolutamente banal; o fantasma de Ronaldo lutando desesperadamente contra Cronos, o deus do tempo; os nossos artistas supremos sem força, sem dimensão, tanto carrossel à roda e à roda de si próprio; a inexistência de jogadores que ocupem as faixas, que vão ao fundo do campo, alargando o conjunto, centrando para o sítio onde deveria estar a cabeça de Ronaldo; a falta de pontas-de-lança porque os que temos vivem de momentos raros, de fogachos; a insistência desesperante nos mesmos erros, sempre nos mesmos erros.

Portugal fez o que estava ao seu alcance. Melhor até do que é costume. Não havia razão para regressar a casa no meio do azedume, por entre o ambiente nitidamente podre de quem sabe que algo precisa urgentemente de ser feito para reconstruir um projeto que acaba com a saída do engenheiro. Quem quis fazer desta seleção candidata àquilo que não foi, não é, e se calhar nunca será capaz, que durma à beira dos seus sonhos impossíveis. Pavana é uma dança de movimentos pausados. Como o futebol que jogamos, às vezes bonito, encantador, mas nunca avassalador. Como não passei um cheque em branco a esta equipa, não tenho de fazer-lhe cobranças extraordinárias. Os traços bonitos, agradáveis, bailados, que foi capaz de desenhar em campo cabem dentro da minha total exigência. Faltou voltar a Portugal com a satisfação de um dever cumprido em vez da soturnidade de um enterro como se, à nossa frente, jazesse uma Infanta Defunta.

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