Opiniao

Mercados financeiros: a geopolítica das cidades-mundo

A geopolítica é um instrumento decisivo de mercados financeiros mundiais mais inclusivos, reais, seguros e garantes de melhor justiça, desenvolvimento e paz

Mercados financeiros: a geopolítica das cidades-mundo

por Virgílio Machado
Professor Adjunto ESGHT/UALG e Autor de Portugal Geopolítico

O sucesso de David Graeber, Debt-The first 5000 years, livro com tradução portuguesa, explica a importância histórica do crédito e da dívida na evolução das sociedades mundiais. Nas pré-malthusianas, em que agricultura era fonte de subsistência, as pragas, epidemias, doenças e recurso à natalidade, como mão de obra, geravam fomes periódicas, dívidas dos camponeses e consequentes servidões. O crédito atenuava sofrimentos presentes criando dependências futuras. Guerras e revoluções eram saneadoras financeiras de dívidas e opressões.

Mercados financeiros têm localização preferencial. Em estreitos ou canais que ligam mares e oceanos ou em pontos estratégicos, ilhas, istmos ou penínsulas equidistantes a distintas proveniências de riqueza. Originaram-se nas cidades de comércio na Europa medieval . Casas de câmbios, títulos de crédito ou depósitos de valores nasceram em núcleos de contacto entre mercadores de diversos mares (Atlântico, Mediterrâneo e Báltico). As diversidades geravam novos riscos e desafios em contextos económicos e culturais de rivalidade e competição. Financiavam-se expedições oceânicas, novas rotas, produtos, serviços e mercados lucrativos consolidados por conquistas militares e/ou tratados comerciais. O crédito alavancava mercados, contrabalançando tributos soberanos e capitais privados exíguos e desorganizados.

Hoje as maiores bolsas mundiais localizam-se em cidades de Estados com vocações de controlo e ordem internacional. Nova Iorque e o NASDAQ, nos Estados Unidos. Xangai, Hong-Kong e Shenzhen, na China, exprimindo a Europa a divisão do Brexit entre Londres e o Euronext. A Índia e Japão, com Bombaim e Tóquio estão nas primeiras dez. Todas funcionam como um contínuo telecomunicacional para além de fronteiras territoriais. Cumprirão estas bolsas objetivos geopolíticos mundiais dos Estados onde se localizam?

A História demonstra-o. Londres foi pioneira nas bolsas de valores mundiais nos séculos XVII e XVIII.A sua importância foi decisiva no apogeu do Império Britânico e no financiamento dos exércitos que derrotaram Napoleão. A localização de Xangai e Nova Iorque junto ao mar com portos favoráveis ao transporte internacional, comércio externo e migrações impulsionou sua capitalização e desenvolvimento nos séculos XIX e XX. Todavia, por questões de segurança e contrapoder, as capitais políticas ficariam no interior em Washington e Pequim.

As bolsas são geopolíticas. Podem ser porta de entrada de capitais aliviando pressões fiscais dos Estados ou enclave favorável em relações internacionais. Hong-Kong canalizou fortunas do Oriente e Ocidente numa China de uma pátria, dois sistemas. Esta industrializou-se, como fábrica do mundo com mão de obra barata, moeda desvalorizada e compra de divida publica norte-americana o que interessou capitais ocidentais. Todavia, o forte crescimento exportador chinês ameaçou a hegemonia americana, gerando-se uma consequente guerra comercial e perda da importância financeira de Hong-Kong e da sua autonomia política.

Existem também causas de guerras baseadas em tentativas políticas de contrariar a ordem mundial financeira. Hitler, face às hegemonias inglesas e norte-americana na fixação do padrão-ouro no valor da moeda, ameaçou a cessação do pagamento de empréstimos internacionais com juros pugnando por taxas de cambio e valor da moeda alemã, baseada na sua produção industrial. Um alerta. No inicio da guerra da Ucrânia, Putin e Xi Jinping reuniam-se em acordo para uma nova ordem mundial de segurança.

Para o crédito, confiança e segurança internacionais, as lições históricas dos mercados financeiros sugerem o cruzamento, a troca, a flexibilidade e a flutuação do valor do dinheiro, do crédito e da dívida em interligação geopolítica permanente. O exemplo de Hong-Kong devia ser reinventado. Este inspirou uma ordem de equilíbrio entre o Ocidente e Oriente, onde realidades produtivas e de financiamento articularam aspirações de milhões de pessoas e de transações de biliões de riqueza. O resultado foi o sucesso no desenvolvimento do Sudeste Asiático, impar a nível mundial. Interesses de economias de extração ou de distribuição foram reconhecidos, assim como de produção ou mediação. Rotação, atenuação de trajetórias de dependência e constante inovação são lições num sistema de informação e inteligência geopolítica com estabilidade para melhoria do sistema financeiro mundial.

Nessa equação, Portugal pode colocar a cultura, o turismo e a diversidade social e económica como país-mundo que foi na História e que continua a fazer parte. A geopolítica é um instrumento decisivo de mercados financeiros mundiais mais inclusivos, reais, seguros e garantes de melhor justiça, desenvolvimento e paz.

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