Opiniao

As festas e o bem-estar animal

A sociedade continua a ter desequilíbrios no acesso aos direitos e na perceção cívica dos deveres, havendo uma tentação de afirmar o cumprimento dos primeiros sem a ponderação dos segundos. São precisos novos equilíbrios cívicos nos direitos e deveres, sem perder o essencial e o interesse comum, com prioridades para as pessoas e os territórios, integrando o bem-estar animal nas preocupações e nas ações, sem radicalismos ou alegadas modernidades.

As festas e o bem-estar animal

Por Marcelo Guerreiro, Presidente da RESIALENTEJO

O Portugal de Abril, democrático, dos direitos e deveres, que se quer inclusivo e abrangente nas dinâmicas e no respeito pela diversidade de perspetivas, deve integrar o bem-estar animal nas suas preocupações, sem querer impor vontades radicais sem nexo com as realidades concretas das comunidades ou distorcer as prioridades do interesse geral. O foco em primeira instância, tem de estar colocando no muito que ainda falta fazer para que muitos dos direitos dos seres humanos conquistados com a liberdade sejam uma realidade, em todo o território nacional, sem as dicotomias entre o rural e o urbano ou o litoral e o interior. Há mínimos básicos que estão por cumprir, apesar de quase meio século de democracia e do muito que já foi conquistado, projetando-nos para um patamar de civilização e desenvolvimento que não tínhamos antes de Abril e da integração europeia.

A sociedade continua a ter desequilíbrios no acesso aos direitos e na perceção cívica dos deveres, havendo uma tentação de afirmar o cumprimento dos primeiros sem a ponderação dos segundos. São precisos novos equilíbrios cívicos nos direitos e deveres, sem perder o essencial e o interesse comum, com prioridades para as pessoas e os territórios, integrando o bem-estar animal nas preocupações e nas ações, sem radicalismos ou alegadas modernidades.

O meio rural sempre conviveu bem com a natureza, nas suas diversas expressões, de fauna e flora, mesmo quando não havia a atenção política que hoje existe em relação às realidades concretas de comunidades confrontadas com os desafios estruturais e com as novas exigências, da pandemia às alterações climáticas.

O meio rural não precisa de mais condicionalismos a régua e esquadro ou de legislação que coloca a carroça à frente dos bois. Precisamos de respeito pela nossa identidade, pois sempre soubemos e saberemos afirmar um desenvolvimento harmonioso entre as comunidades e o meio ambiente. É essa a nossa história, quando vivemos entregues quase a nós próprios, num quadro de sobrevivência. É esse o nosso quotidiano de novas dinâmicas positivas, ainda aquém do necessário.

As festas, onde se inclui o Natal e o Ano Novo, como as férias podem ser momentos em que as limitações à mobilidade da existência de animais domésticos podem levar a exercícios cívicos negativos, com abandono de cães e gatos. Sendo um momento em que muitos seres animais chegam às famílias são também momentos de risco. Precisamos de uma maior consciência e compromisso cívico com o bem-estar animal quando se adotam novos membros para os agregados familiares, ponderando bem os prós e os contras, além dos impulsos emocionais de ocasião. 

Não o fazer ou achar que a realidade se transforma apenas por via das proclamações retóricas é acrescentar problemas às nossas vivências individuais e comunitárias.

Pela importância de uma maior consciência cívica e de um esforço integrado de promoção do bem-estar animal, o CAGIA - Canil/Gatil da RESIALENTEJO, que integra os municípios de Aljustrel, Almodôvar, Alvito, Barrancos, Beja, Castro Verde, Moura, Mourão, Ourique, Reguengos de Monsaraz, Serpa e Vidigueira, investiu mais de 400 mil euros na expansão das suas instalações para acolher mais animais a precisarem acolhimento após abandono, gerando melhores condições para o seu tratamento e possível adoção responsável. A RESIALENTEJO como entidade pública gerou melhores condições para o trabalho dos profissionais do CAGIA e para os neterinários municipais na expetativa de que os cidadãos possam dar o seu contributo na afirmação de uma outra cultura de responsabilidade.

Não há nenhum egoísmo estrutural ou de circunstância que justifique o abandono, os maus-tratos ou outras expressões negativas inaceitáveis em relação a seres vivos.

Sem perder de vista o foco nas pessoas e nos territórios que as acolhem é possível fazer caminhos de integração de novas preocupações que somam às tradições de uma interação de séculos com o meio rural, com a natureza e com o potencial existente, de forma sustentável. O CAGIA da RESIALENTEJO, em Beja, no Baixo Alentejo, está a cumprir o seu papel com mais e melhores instalações para os cães e gatos abandonados, mas contamos com uma consciência cívica sem falhas. As festas não podem ser tempo de abandono das tradições, das pessoas ou dos animais. É preciso falar e fazer. É o que fizemos.

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