Desporto

Um sonho para quem fica, um desafio para quem vai

Os pilotos pediram e a organização fez-lhes a vontade. O Dakar 2023 começou ontem e vai ser mais longo, duro e difícil. É o regresso ao espírito original desta grande maratona. Só para aventureiros!

Um sonho para quem fica, um desafio para quem vai

Por João Sena

Desde 1979 que o Dakar desperta paixões entre pilotos e amantes do todo o terreno, mas deixa também marcas para a vida. Participar nesta aventura é um exemplo de superação e uma experiência única e arriscada, mas quem por lá andou jamais renega o Dakar. O fascínio pelo deserto, a vontade de levar ao limite o corpo humano e a máquina, as emoções da velocidade e o desafio da navegação são inegociáveis e fizeram do Dakar uma prova épica. Durante muitos anos, no dia 1 de janeiro, centenas de pilotos amadores (as equipas oficiais apareceram mais tarde) de automóveis, motos e camiões saíam de Paris e lançavam-se à estrada para uma longa maratona, que chegou a ter 15 mil quilómetros! O local de partida foi passando por várias cidades até chegar a Lisboa. Porém, a edição de 2008 foi cancelada por questões de segurança na passagem por alguns países africanos, e os concorrentes não saíram dos Jerónimos. Nesse dia, terminou o sonho africano que levou Thierry Sabine a criar esta prova e que, em Portugal, teve um digno representante que foi José Megre. O Dakar seguiu depois para a América do Sul, foi um choque para os verdadeiros amantes do todo o terreno, e está agora na Arábia Saudita, bastante mais consensual para os pilotos. A prova foi evoluindo com mais tecnologia, maior segurança e com o aparecimento de novas categorias, mas o prazer de participar na mais dura e longa corrida do mundo mantém-se. 

Siga a corrida!

Desde que o Dakar saiu do seu habitat natural em África que os pilotos se queixam da facilidade da prova e pediam à organização um percurso mais extenso e exigente, uma corrida à antiga. Os organizadores deram a volta à cabeça até encontrar um percurso que fosse do agrado dos pilotos. A prova organizada pela Amaury Sport Organisation (ASO) tem início amanhã, junto ao Mar Vermelho, passa pela capital Riade e termina dia 15, na costa do Golfo Pérsico. Tem uma distância total de 8549 quilómetros, dos quais 4706 em setores classificativos, distribuídos por 14 etapas e um prólogo. Estão inscritos 455 veículos e 820 participantes. Portugal está representado com 17 concorrentes entre motos, SSV e camiões. A primeira semana terá as etapas mais longas em piso maioritariamente pedregoso, estando a areia e as dunas reservadas para a segunda parte de prova, que inclui as etapas-maratona no temível deserto de Empty Quarter sem possibilidade de assistência. Alberto Gonçalves colabora diretamente com a organização desde 2008 e falou-nos da edição deste ano. «Se entendermos que o Dakar original era a descoberta, a aventura, a solidão e a navegação então estamos mais próximos do conceito original. A aventura e a navegação nunca deixaram de existir, mas a navegação foi evoluindo e, hoje em dia, usa-se os waypoints, que são pontos de passagem obrigatória, com penalização caso o piloto falhe esse ponto, e a aventura nunca deixou de existir». Na opinião de Alberto Gonçalves, os mais puristas vão gostar do percurso «existe um pouco de tudo. Areia, dunas, navegação e trial. Enfim, um cocktail de todo o terreno». Profundo conhecer do Dakar e das suas dificuldades, não teve dúvidas em afirmar que «a organização encontrou um traçado equilibrado que não irá favorecer ninguém. Acredito que a prova se possa decidir nas etapas 10 a 13, no chamado Empty Quarter». É uma zona inóspita, onde não há pessoas, nem camelos, apenas dunas e lagos secos. Entre as novidades para este ano, destaque para o sistema de bonificação por tempo para os pilotos de moto que vençam etapas, e que por abrirem a pista no dia seguinte eram desfavorecidos na navegação, e para o fim do descanso de 20 minutos a meio das etapas para pilotos das categorias T1 e T2 em automóveis, pelo que a exigência física será maior. 

Novas tecnologias 

A Toyota está de volta ao deserto da Arábia Saudita para defender o triunfo do ano passado com três Hilux T1+ Overdrive, com motor biturbo a gasolina de 360 cv, para Henk Lategan, Giniel de Villiers e Nasser Al-Attiyah. Este último está empenhado em repetir o triunfo: «Seria incrível voltar a ganhar. Temos um bom carro e muita experiência nestas pistas. O Toyota está mais rápido e tem vantagem em algumas zonas, mas o Audi é melhor nas dunas. Quem cometer menos erros de navegação vai ganhar», disse o piloto do Qatar, que é o campeão do Mundo de Rally Raid. A Audi saiu derrotada o ano passado e preparou uma evolução do espetacular Audi RS Q e-tron T1+, um protótipo híbrido que vai utilizar combustível renovável de forma a reduzir em 60% as emissões de CO2. Está equipado com um motor térmico 2.0 TSI que serve de gerador aos três motores elétricos que dão uma potência conjunta de 391 cv. Apresenta um line up de pilotos excelente: Stéphane Peterhansel, conhecido pelo senhor Dakar por ter ganho 14 edições entre motos e carros, Mattias Ekström e Carlos Sainz. O piloto espanhol está «otimista e tranquilo. O ano passado tinha algumas dúvidas sobre a complexidade do carro elétrico, fomos cautelosos e o rali correu melhor do que esperava. Este ano temos uma equipa de pilotos capazes de vencer. O nosso carro não é o mais veloz, mas na parte mecânica estamos ao nível dos adversários». A equipa BRX Hunter utiliza os protótipos com motor a gasolina de 400 cv, desenvolvidos pela Prodrive, e tem Sebastien Loeb como piloto de ponta, ou não tivesse sido campeão do Mundo de ralis por nove vezes! A equipa X Raid apresentou o impressionante Mini John Cooper Works Rally+ capaz de brilhar nas dunas e ameaçar a Toyota e Audi. Este impressionante Mini tem motor com 375 cv alimentado com combustível HVO de segunda geração, trata-se de um biodiesel fabricado a partir de gorduras vegetais e garrafas de plástico.

Motos e camiões

Tendo em atenção o que se passou nas cinco edições anteriores, em que houve vencedores diferentes, é de esperar uma luta fantástica entre as equipas oficiais da GasGas, venceu o ano passado com Sam Sunderland, a KTM e a Honda. A Husqvarna está presente mas com poucas possibilidades de vencer. Rui Gonçalves (Sherco) e Joaquim Rodrigues (Hero) estão determinados a terminar entre os 15 primeiros, enquanto António Maio (Yamaha) e Mário Patrão (KTM) têm como objetivo terminar a prova. 

Dezassete vitórias nas últimas 20 edições tornaram a Kamaz quase imbatível no Dakar. Contudo, os colossais camiões russos vão estar ausentes, uma vez que a marca se recusou a assinar a declaração de condenação da invasão russa à Ucrânia requisito fundamental da FIA para poder participar na prova. Esta ausência vai tornar a competição dos camiões mais interessante com os camiões da Iveco a surgirem como grandes favoritos. O canal de desporto Eurosport terá um resumo diário às 20 horas sobre o que aconteceu na etapa do dia.

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