Opiniao

E depois do adeus... ao futebol

Ouso pedir ao senhor ministro que com o mesmo propósito de divulgação dos problemas que afetam a aviação civil, nos diga qual a razão porque o aeroporto de Beja, não foi sequer escolhido para estudo de eventual hipótese de aproveitamento como complemento ao de Lisboa.

E depois do adeus... ao futebol

Por António Maria Coelho, OCA reformado

 

Algo se passou de apavorante para o Governo da Nação... Sem o entretenimento mor do futebol, António Costa e os seus ministros devem ter tido conhecimento de factos que, escapando por enquanto ao conhecimento da arraia miúda, os devem ter alertado para a necessidade de distrair a malta. 

Só assim a minha imaginação consegue justificar a mui longa e esclarecedora entrevista que o primeiro-ministro deu à Visão, a sua diatribe com o presidente da Câmara de Lisboa por causa das cheias e as notícias alarmantes dos erros do controle de tráfego aéreo, na primeira página do Expresso e divulgadas pela RTP1, RTP3 e diversas agências, erros que já foram cientificamente criticados pelo ministro das infraestruturas e especialista em assuntos aeronáuticos, Pedro Nunes Santos. 

Permitam-me um esclarecimento. Eu fui controlador de tráfego aéreo, nos anos 50/60 do século passado. Oficialmente, não nos chamavam ‘controladores’, mas Oficiais de Circulação Aérea (OCA...) É natural, por isso, que hoje escreva sobre estes ‘horríveis incidentes’. 

Comecei a ler as gordas do Expresso, amargurado, relembrando, alguns ‘sustos’ que vivi, próprios da profissão, e aumentados naquela altura porque, mesmo em Lisboa, não tínhamos ainda radares. 

 

No Expresso, primeira página letras garrafais e a vermelho, Relatório secreto revela falhas graves no controlo aéreo. 

Na pág. 6, na coluna Altos e Baixos, o presidente do Sindicato dos Controladores: «São graves as conclusões de uma investigação sobre o trabalho desempenhado pelos controladores de tráfego aéreo que operam nos principais aeroportos portugueses...». 

Na pág. 20, Torres de descontrolo, uma página inteira, nomeadamente a última coluna, dedicada às falhas de segurança.

 

Na RTP 1 - Uma pretensa e parva transcrição do diálogo entre uma Torre de Controlo e o Jeep que tem a missão de verificar se as pistas estão desobstruídas.

Na RTP 3 - Pedro Nuno Santos adianta que já foi demitido um chefe de Torre de Controlo, instaurado um processo disciplinar a um supervisor e, ainda, que foram feitas alterações no controlo de assiduidade. Assume que houve «falhas graves» no controlo de tráfego aéreo e garante que a NAV (a empresa que gere estas operações) já tomou medidas para corrigir os problemas detetados pelo gabinete que investiga estes incidentes, (o GPIAAF), problemas que foram tornados públicos através da divulgação de partes de um relatório preliminar pelo semanário Expresso do dia 16 de dezembro. A versão preliminar do relatório deu conta de vários problemas no controlo de tráfego aéreo nacional, tais como presenças fictícias ao serviço e duas situações em que esteve iminente a colisão de uma aeronave com o carro de serviço na pista.

 

À medida que me ia inteirando das ‘fantásticas’ notícias, ia ficando cada vez mais indignado, à boa maneira do que Mário Soares aconselhava no seu prefácio ao livrinho Indignai-vos. Não só quem escrevia ou falava demonstrava uma confrangedora ignorância do que é o controle de tráfego aéreo, como ia ficando claro que havia um objetivo obscuro quando se acusava grave e cobardemente toda uma classe de trabalhadores, sem que eles se pudessem justificar e defender em tempo útil. Divulgavam-se documentos que ao mesmo tempo se diziam ‘secretos’ com o à-vontade de quem se sente protegido. Quem encomendou o ‘escândalo’ ao Expresso e à RTP? Com que finalidade? Em que se baseou o ministro Pedro Nunes Santos para demitir, ou mandar demitir o controlador da torre? De qual torre? Não sei se os controladores são agora funcionários públicos. Pelo que foi divulgado, nada parece justificar a demissão. Creio que os controladores ao serviço têm direito à rápida publicação de todo o processo, para poderem livrar-se do purgatório para onde o Governo os atirou. Os controladores que já não trabalham mas que sempre procuraram dignificar a profissão têm, pelo menos, o direito a não serem gozados. 

 

Puxando dos galões de ser, provavelmente o mais velho dos controladores vivos, ouso pedir ao senhor ministro que com o mesmo propósito de divulgação dos problemas que afetam a aviação civil, nos diga qual a razão porque o aeroporto de Beja, não foi sequer escolhido para estudo de eventual hipótese de aproveitamento como complemento ao de Lisboa. Lembro-me de o PS ter sido o responsável pela sua transformação em aeroporto civil, de ter investido nele milhões de euros, de ter previsto uma utilização, em 2020, por cerca de 2 milhões de passageiros. Sem qualquer explicação, o PS esqueceu-se dele. Porquê?

Os comentários estão desactivados.