Opiniao

O novo ano que depende de nós

Este novo ano só depende de nós, da nossa habilidade num mundo desigual, mal distribuído no que respeita à riqueza e às oportunidades. A noção de solidariedade, de cooperação mútua e de responsabilidade social têm de deixar de ser conceitos vazios e desprovidos de conteúdo, passando a integrar cada um dos dias, preenchidos por iniciativas concretas, por mais simples que sejam, junto de quem nos é mais próximo. Assim se fará a diferença, humana e despida de egoísmos.

O novo ano que depende de nós

Alexandre Faria 

Escritor, advogado e presidente do Estoril Praia

Anunciado como o pior ano das últimas décadas, 2023 surge envolto numa névoa assustadora, trazendo consigo uma carga negativa para o ser humano e para o planeta, desprovido de esperança e ameaçador de uma diminuição acentuada da qualidade de vida e da felicidade em geral.

Nos últimos meses e de um modo sucessivo, desde as instituições mundiais às europeias e nacionais, quem deveria ser responsável por transmitir uma mensagem positiva, capaz de gerar expectativas e sentidos de compromisso, optou, ao invés, por amedrontar, criando uma sensação transversal de pessimismo nunca vista. Nos mais diversos níveis de decisão política, escolheu-se apresentar um novo ano carregado de infortúnio, sem a apresentação de soluções como os seus cargos exigem, desresponsabilizando-se das funções para as quais foram eleitos.

 

É neste novo ciclo que entramos, desprovidos de confiança e da tenacidade necessária à superação de uma crise mundial, baixando os braços quando se pede precisamente o contrário, preferindo esquecer-se o grau de exigência natural indispensável aos líderes a quem cabe o dever de ultrapassar tempos mais difíceis.

Apesar de estarmos envolvidos numa séria falta de fiabilidade em organizações consumidas pela desconfiança e por vários escândalos, a descrença não pode vencer. Como tantas vezes se observou no passado, face à carência de orientações empenhadas, terá de ser o cidadão comum a dar o exemplo e a criar as suas próprias condições para um ano melhor, lançando desde as bases as respostas aos desafios que se apresentam pela frente. É dessa fibra que a humanidade, em conjunto, tem enfrentado os mais adversos fatores externos e desequilibradores, sobretudo quando tem de se substituir a uma cúpula hesitante e desnorteada.

Esta passagem de calendário exorta a cada um de nós uma inteligência emocional apurada e uma sagacidade a toda a prova, requer uma capacidade inigualável para suprir o medo, assim como uma imprescindível revolta perante o estado de conformismo ao qual nos habituaram. 2023 reclama por um foco no bem geral em vez de agendas interesseiras, por uma aposta na Educação e na Cultura para salvaguardar as próximas gerações, por pessoas que leiam mais e se instruam para compreenderem a verdade, e pela consagração dos valores básicos humanitários, culturais e sociais. Sem esquecer o importante escrutínio dos decisores políticos, seremos chamados a decidir as nossas próprias vidas através de uma gestão solidária em comunidade, determinados em construir um futuro mais sustentável sem suplicar migalhas de mão estendida.

Este novo ano só depende de nós, da nossa habilidade num mundo desigual, mal distribuído no que respeita à riqueza e às oportunidades. A noção de solidariedade, de cooperação mútua e de responsabilidade social têm de deixar de ser conceitos vazios e desprovidos de conteúdo, passando a integrar cada um dos dias, preenchidos por iniciativas concretas, por mais simples que sejam, junto de quem nos é mais próximo. Assim se fará a diferença, humana e despida de egoísmos.

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