Opiniao

O PS em modo laboratório político

O primeiro-ministro não calculava que o relógio de Pedro Nuno Santos contasse o tempo mais depressa que o seu. Costa pretendia afastar-se em 2026, Pedro Nuno Santos não quer esperar até lá e, por isso, aproveitou a oportunidade e saiu.

O PS em modo laboratório político

por Francisco Gonçalves

A década de 1985 a 1995 foi marcada por um domínio político quase total do PSD. Portugal saíra de uma intervenção do FMI liderada pelo PS (o chamado Bloco Central), que permitiu a ascensão de Aníbal Cavaco Silva.

No início dos anos 1990, depois de Cavaco Silva ter ganho a Almeida Santos (1985), Vítor Constâncio (1987) e Jorge Sampaio (1991), a ideia que corria era que o futuro do país passaria mais pela liderança que surgisse no partido que vinha governando (PSD), do que pelo partido que deveria ser alternativa (PS).

Não obstante, as fações do PSD de então, lideradas por Fernando Nogueira e Dias Loureiro, não se atreviam a constituir-se enquanto oposição ao chefe.

Foi com o famoso ‘tabu’ de Cavaco Silva, e com a perceção de que este não seria candidato a primeiro-ministro nas legislativas de 1995, que os grupos passaram a agir mais livremente.

Porque se começa um artigo sobre o PS falando do PSD? Simples: perceba as diferenças.

António Costa ‘leu’ bem as lições de Cavaco Silva, e já deu sinais do seu desagrado com a atividade dos grupos internos. Em maio de 2018, avisou que «não meteu os papéis da reforma» e disse, recentemente, em entrevista ao Expresso, «não excluir a hipótese de concorrer a um novo mandato», em 2026.

Não é suposto questionar-se um líder político que não é apenas líder partidário, mas também primeiro-ministro. Quem, internamente, se opõe a António Costa questiona as políticas ou a pessoa? O que está em causa? O país ou o cargo? E, que cargo? O do partido ou o do Governo de Portugal?

Quando António Costa colocou no Governo os putativos sucessores, a medida não era desacertada: preparava o futuro do partido e, indiretamente, do país. Contava com a sua capacidade de liderança para equilibrar o poder entre os possíveis herdeiros, e os seus grupos.

Todavia, certamente que o primeiro-ministro não calculava que o relógio de Pedro Nuno Santos contasse o tempo mais depressa que o seu. Costa pretendia afastar-se em 2026, Pedro Nuno Santos não quer esperar até lá e, por isso, aproveitou a oportunidade e saiu.

Fernando Medina tem uma estratégia de afirmação política a partir do exercício do cargo, isto é, a partir do Governo, e por isso está alinhado com António Costa – e dele dependente para o seu futuro político. Pedro Nuno Santos, ao contrário, tem uma estratégia de afirmação que passa pelo controlo do partido (que já vem de há alguns anos, basta ver as nomeações para alguns lugares no Estado) e, por isso, afasta-se de António Costa, do Governo e da governação.

O primeiro-ministro que será, provavelmente, a melhor tático político que Portugal conheceu, nos anos mais recentes, mantém no governo pessoas próximas de Pedro Nuno Santos, como Duarte Cordeiro, e promove a ministros João Galamba e Marina Gonçalves, alimentando a ambição pessoal de cada um e procurando criar brechas no grupo.

O que não é tão claro no laboratório de poder do partido socialista é saber como fica o país. O partido tem maioria absoluta no Parlamento. Ainda terá? Não estará prestes a nascer um subgrupo parlamentar, cuja lealdade é maior ao chefe da fação do que ao chefe do partido?

O poder tende a apodrecer por dentro, o que é ainda mais verdade nas maiorias absolutas. Cabe ao líder criar as condições de gestão dos equilíbrios. A má gestão dos equilíbrios é sempre, e em todas as circunstâncias, responsabilidade do líder. É duro? É, mas o poder é um exercício solitário. As impertinências, quando sucessivamente toleradas, potenciam ambições descontroladas.

 

Cavaco Silva nunca permitiu impertinências, pelo que nunca foi, efetivamente, questionado. António Costa tolerou-as, agora viverá com quem não apenas lhe quer suceder, mas que também o pode querer apear.

Como se governa um país em modo laboratório de poder? Ninguém sabe, mas dificilmente terá bom resultado.

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