Opiniao

O poço da morte…

O Rivoli é o grande motor da afirmação do Presidente Independente Rui Moreira, através da ação política do todo poderoso e sedutor vereador da Cultura, que se apresentou como principal maestro da Nova Cultura na Cidade do Porto.

O poço da morte…

Por Fernando de Matos Rodrigues, antropólogo/investigador CIS.NOVA_UM/LAHB

«Es precisamente el triunfo de la globalización neoliberal en los últimos años lo que contribuyó a la profundización de la crisis ecológica global que, en útima instancia, está conduciendo a la ruptura de los ecosistemas y a la amenaza existencial de los seres humanos».
Kohei Saito, 2022:10

Nestes últimos dois mandatos do independente Rui Moreira à frente dos destinos da cidade do Porto, tudo ficou claro como a água da torneira em termos de governança. O candidato independente passou estes últimos mandatos a implementar na “Invicta” um modelo de cidade tipo “Barcelona”. Aliás, desde cedo, fomos registando as suas contradições; se por um lado, afirmava perante os jornalistas e os media que não queria «fazer do Porto uma Barcelona», por outro, as suas políticas, as suas propostas, as pessoas que o rodeavam davam sinais que gostariam de ir para além do modelo Barcelona. 

Aliás, sobre o dito modelo Barcelona, Manuel Delgado (2007:19-20) professor titular de Antropologia Social na Universidade de Barcelona, uma das vozes mais críticas sobre o modelo de ‘Cidade Super Star’, identificava Barcelona como o paradigma da cidade negócio que se devia evitar e classificava-a mesmo como uma «Ciudad mentirosa», no sentido de que estávamos perante uma «Fraude y miséria del Modelo Barcelona».

O Porto cidade criativa teve como principal mentor o Vereador da Cultura Paulo Cunha e Silva (1962-2015), através de um programa cultural audacioso, centrado na programação do ‘resgatado’ Teatro Municipal Rivoli; estamos perante um conjunto de iniciativas culturais abertas ao mundo cosmopolita de forma a transformar o Rivoli num espaço aberto à arte, à ciência, à dança e ao cinema. O Rivoli é o grande motor da afirmação do Presidente Independente Rui Moreira, através da ação política do todo poderoso e sedutor vereador da Cultura, que se apresentou como principal maestro da Nova Cultura na Cidade do Porto. O Porto entrava na moda, as artes (dança, música, happening, fotografia, literatura, arquitetura, etc.) subiam de novo ao palco do Rivoli. 

A programação cultural foi assim o instrumento ideal para seduzir os artistas, os produtores e criativos da cidade, associando-lhe o ‘Fórum do Futuro’ com temas centrados nas políticas das identidades, temas fraturantes, com convidados ‘Super Star’, oriundos do meio académico globalizado. Mas, sem esquecer o povo, ou o que resta dele, para isso implementou-se um programa em nome da ‘Cidade Líquida’, levando a musica e a arte até aos enclaves dos mais pobres e mais desfavorecidos de capitais culturais, como o Bairro do Cerco e de Ramalde. Foram os ingredientes perfeitos para assimilar e silenciar ‘vanguardas’ e vozes da resistência e do experimentalismo cultural do Norte e da cidade. 

Durante o primeiro mandato, Rui Moreira foi explorando os amplexos psicológicos e os traumas que Rui Rio tinha induzido à cidade durante os seus mandatos de confronto com as instituições culturais e os produtores artísticos, intelectuais, artistas e músicos, um período, em que a programação política esteve ausente da cidade. Era urgente, inverter o ciclo de vazio que Rio deixara na cidade. Assim, era necessário lançar mão a uma política municipal de grandes eventos, grandes inaugurações, lançamento público de grandes projetos, todos eles marcados com grande exibicionismo mediático. 

Estes foram ingredientes necessários para a mobilização das energias urbanas em torno da reabilitação, da regeneração e da gentrificação ‘positiva’ – consubstanciados na apologia sem limites da turistificação e gentrificação da cidade do centro. 

Numa primeira fase – recorrendo aos serviços e aos instrumentos legais da SRU-Porto VIVO; numa segunda, com a expansão desta atividade turística para as freguesias periféricas ao centro histórico implementando uma série de ARU`s e ORU`s (Área de Reabilitação Urbana e Operações de Reabilitação Urbana) ao mesmo tempo que se promovia uma série de iniciativas nacionais e internacionais sobre as qualidades e os atributos de algumas freguesias como Bonfim e Campanhã. 

É a partir destes instrumentos de planeamento e de promoção da cidade como negócio e mercadoria fortemente especulativa que se assiste a uma deportação dos residentes da cidade para outros territórios mais periféricos e metropolitanos, em benefício de uma cidade de Alojamentos Locais, de Hotéis, de Restaurantes Grumet, da instalação de marcas de luxo e de uma vida noturna artificial e dependente das viagens low cost. 

Esta campanha foi possível perante os silêncios cúmplices dos media da cidade, das nossas Escolas e Universidades, de escritores e intelectuais e artistas que muitas vezes alinhados com estas campanhas de renovação da cidade, foram inclusive parceiros e colaboradores na implementação da cidade-negócio, colaborando na renovação urbana a partir dos seus gabinetes de estudo, de planeamento urbano e de arquitetura. Realizaram-se planos e programas, promoveram-se grandes sessões de informação sob a capa da participação. 

Realizaram-se debates no velho Matadouro de Campanhã, promoveram-se projetos para o S. João de Deus, para o Mercado do Bolhão, para o Cinema Batalha, com apresentação de ideias de programas com recurso a uma máquina de propaganda informativa de grande intensidade, fizeram-se exposições onde se celebraram os Blocos Municipais de Habitação como os melhores lugares para se viver; convocaram-se arquitetos, sociólogos, geógrafos, historiadores e cronistas, atribuíram-se medalhas da cidade a personagens e a instituições alinhadas ou que se desejavam alinhadas com este CMI (Capitalismo Mundial Integrado, ver Guattari, 1980), o momento era de sedução e de exaltação coletiva.

Caros amigos portuenses, nada disto é novo, tudo isto já foi aplicado em Londres, em Barcelona, em Paris, em Bruxelas e Lisboa, - faz parte do Modelo de Cidades Criativas que se está a instalar por todo o mundo, em nome de um capitalismo globalizado, com consequências brutais na destruição do ambiente, da economia e da vida das cidades (Smith, 2017). 

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