Opiniao

O exemplo de Bento XVI

Na defesa de um diálogo ecuménico, Bento XVI destacou sempre a construção de uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos


Por Manuela Ramalho Eanes

Quando tomou posse, o Papa Bento XVI era conhecido, sobretudo, pela sua enorme capacidade intelectual, oferecendo respostas para uma melhor compreensão de determinadas questões doutrinárias e teológicas.

Herdando um pontificado num mundo marcado pela pluralidade e pelas aceleradas mutações, soube enfrentar, com coragem, os desafios do mundo moderno, sem nunca ter medo de dizer a verdade de Deus, com humildade e sabedoria, porque a grande questão que o Papa Bento XVI colocava a si mesmo, à Igreja e à humanidade inteira era a questão da Verdade.

Quando renunciou, Bento XVI surpreendeu o mundo. A sua idade avançada e alguns problemas de saúde não terão sido o motivo fundamental, mas antes um profundo sofrimento de alma, várias vezes manifestado, nomeadamente em a Luz do Mundo: a desregulação da ética, a ganância, o capitalismo selvagem, a desvalorização da vida e da família, e a pedofilia, em que teve a coragem de dizer (tal como agora o Papa Francisco) que as denúncias verdadeiras são bem-vindas – a verdade, conjugada com o amor, é o valor primordial.

Da sua intervenção de renúncia, ficaram duas importantes mensagens: a primeira é continuar a servir a Igreja, o bem comum e os direitos humanos (e, portanto, o repúdio dos que só pensam em servir-se) e a segunda é a força da oração, num mundo tão carente de espiritualidade.

Ora, o homem que, ao tomar posse, era sobretudo conhecido pela sua intelectualidade, pela sua cultura e pela sua especial referência como grande teólogo, no momento da renúncia era já conhecido pelo seu humanismo e pela bondade do seu olhar para os outros.

Momento especialmente tocante na sua visita a Portugal, em 2010, e que muito o sensibilizou, foi a serenata que um grupo de jovens lhe fez, junto da Nunciatura, e que o deixou especialmente feliz.

Na defesa de um diálogo ecuménico, Bento XVI destacou sempre a construção de uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos, com o dever de as pessoas não só aceitarem a existência de outras culturas, como também se enriquecerem com a cultura dos outros. 

No encontro que teve no Centro Cultural de Belém com pessoas ligadas à cultura, aquando da sua visita ao nosso País, deixou mensagens importantes: há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, abrindo horizontes novos de futuro, numa missão ao serviço da verdade. E é este grande teólogo e homem da cultura, que deixou Portugal de coração e sorriso aberto com um especial pedido: «Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza». E, acrescentaria eu, de fraternidade, de solidariedade e de paz. 

Na hora da partida de Bento XVI, importa reter o que, ao longo do seu pontificado, pediu a cada um de nós: que ajudemos a construir a ‘civilização do amor’ e nos empenhemos, com esperança ativa, para que as injustiças sociais nunca venham a ter a última palavra sobre as pessoas e as relações humanas.

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