Cultura

Ruy, a História Devida. O cidadão por trás do artista no Taguspark

No dia 18 de janeiro, um dos maiores nomes do Teatro em Portugal, Ruy de Carvalho, estreia o seu mais recente espetáculo – ‘Ruy, a História Devida’ – no auditório do Taguspark, em Oeiras, que inicia assim a sua programação teatral e performativa.


Aos 95 anos de idade e 80 de carreira é o trabalho que o continua a “alimentar”. “É aquilo de que eu mais gosto. Já viu a sorte de se fazer uma coisa que se gosta durante tanto tempo?”, interrogava numa entrevista à revista LUZ, em abril de 2022. Na altura, admitia também ver-se como um amador profissional. “Esse é o meu ideal. E gosto sempre de ser um cidadão normalíssimo. Não tenho mais direitos do que os outros por ser um cidadão com algumas qualidades numa especialidade. Tenho muito respeito pelo cidadão Ruy de Carvalho, que, na verdade, se chama Ruy Alberto Rebelo Pires de Carvalho”, afirmou.

E é já no dia 18 de janeiro que o “seu” público terá oportunidade de conhecer o homem por trás da figura máxima do Teatro em Portugal, na estreia do espetáculo Ruy, a História Devida, no auditório do Taguspark, em Oeiras, onde subirá ao palco para “abrir o coração” e contar “histórias inéditas da sua longa e inspiradora carreira”.  “Histórias de amor, histórias de humor e até mesmo histórias para nos emocionar. É Ruy de Carvalho como nunca o vimos e ouvimos! Ao longo de cerca de uma hora, ninguém fica indiferente à sua faceta menos conhecida de contador de histórias”, lê-se na sinopse da produção que adianta ainda que os espetadores serão convidados a fazer perguntas ao ator, “fazendo desta experiência mais do que um espetáculo, mas uma conversa intimista entre amigos”.

“Nós já estávamos a trabalhar com o Ruy desde 2020, na Ratoeira, o que estava a ser uma experiência incrível por termos um ator tão experiente e com uma vontade e uma vida tão ativa”, começou por explicar ao i Carla Matadinho, Diretora da Yellow Star Company, responsável pela produção do espetáculo. Segundo a mesma, um dos atores com quem representava – Luís Pacheco (com quem Ruy contracena também neste novo espetáculo) – sugeriu à companhia realizar um trabalho apenas com o artista que completa 96 anos no princípio do março. “Algo que trouxesse à tona a sua vida... Foi ai que começámos a desenvolver este espetáculo, pensado um bocadinho para homenagear o ‘homem’ que temos em palco, um ser humano incrível, um exemplo para a sociedade, para toda a classe de atores... O senhor do Teatro Português”, lembra a promotora, acrescentando que esta é “a homenagem que lhe faltava em vida”. “As pessoas têm aqui a sua oportunidade de estar com ele. O Luís vai-lhe fazendo várias perguntas e o público tem essa mesma possibilidade. É uma forma de nos aproximarmos dele”, adianta, revelando ainda que o espetáculo foi escrito para “desvendar histórias”, conhecer uma parte que “habitualmente não é contada”. “Normalmente quando o vemos, ele está em cima de palco a interpretar papéis. Aqui não! O Ruy está a fazer de Ruy, partilhando as suas histórias”, rematou Carla Matadinho. 

 

O envelhecimento

Em abril, interrogado sobre a magia da sua profissão, Ruy de Carvalho afirmava que a magia estava dentro dele. “Gostava que toda a gente a tivesse”, admitia. “Essa necessidade tão grande, quase dever, de estar presente, ser espetador. O espetador faz parte do espetáculo. O que vê televisão, o que vê teatro... Mas claro que o que vê teatro sente mais calor humano, há uma proximidade muito grande”, explicava. “Aquilo que um estádio de futebol faz num dia, serve para fazer teatro num ano, ou mais. As 60 mil pessoas que um estádio leva podem ser divididas por muitos teatros. As pessoas deviam ir ao teatro, deviam pensar nisso. Ajudarem-nos”, lamentou numa das salas do Hotel Lawrence, em Sintra, sublinhando que o teatro ajuda-nos e obriga-nos a “trabalhar” dentro de nós. “Torna-nos mais críticos, a ter a nossa própria opinião… Isso é um símbolo de liberdade”, acrescentou. 

Relativamente ao passar do tempo e à morte, o artista acredita que, “enquanto cá estiver, vai sempre a tempo”: “A morte é certa. Medo de quê? Nós não sabemos é quando! É por isso que temos de viver. ‘Ai que eu estou muito mal!’, ‘Ai que me dói aqui’, ‘Ai que ninguém me liga!’. Não vale a pena! A gente tem é de viver!”, frisava na altura sentado confortavelmente num cadeirão.

No que toca à solidão trazida pelo envelhecimento, Ruy de Carvalho falava em “várias”: as que queremos ter e as outras “que nos fazem ter”. “Solidão ou é agradável ou não. Há quem goste de estar só e há os outros que são postos em solidão. Não me sinto sozinho. Gosto pouco de me gabar, mas sou um sortudo! Não tenho já sítio para colocar as coisas em casa… Todas as homenagens que me têm feito. Tenho muita coisa que me honra muito e me faz ter cada vez mais respeito pela minha profissão”, afirmou.

Será com Ruy, a História Devida que a chamada Cidade do Conhecimento, em Oeiras, inicia a programação teatral e performativa que irá ao encontro de um público “exigente” e “diversificado”. “Este espetáculo começa no Taguspark, no centro de espetáculos que a Yellow Star Company está a fazer nascer e é o primeiro de uma grande programação que vai acontecer aqui. Porém, esta produção vai conjugar com digressões. O primeiro local onde estaremos depois de Oeiras é no Convento de São Francisco em Coimbra”, completou Carla Matadinho.

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