Politica

Liberais às turras avançam com auditoria às eleições internas

O clima de desconfiança interna é tal que a Iniciativa Liberal torna-se o primeiro partido a ter eleições para os seus órgãos diretivos auditados por uma empresa externa: a Ernst & Young. A votação será online.


A consultora E&Y foi contratada para validar as votações que serão feitas de forma eletrónica no Iniciativa Liberal, este fim-de-semana, para encontrar o sucessor de João Cotrim de Figueiredo na liderança do partido. Em cima da mesa estão três candidaturas: Rui Rocha e Carla Castro, atuais membros da direção, e o conselheiro nacional José Cardoso.

Esta será a primeira disputa interna em que o vencedor não é conhecido, uma vez que foi apresentada mais do que uma lista à comissão executiva, algo que nunca tinha acontecido na história dos liberais. João Cotrim de Figueiredo, então como independente, foi o primeiro deputado da IL na Assembleia da República, naquela que foi a estreia do partido em legislativas, em outubro de 2019.

Pouco mais de dois anos depois, e na sequência das eleições antecipadas de janeiro de 2022, os liberais saltaram da sua condição de deputado único para um grupo parlamentar com oito deputados, posicionando-se como a quarta força política no Parlamento.

 

Conflito interno

Estas eleições surgem numa altura de grande instabilidade interna. Tal como o Nascer do SOL_avançou, o membro da Comissão Executiva e atual líder parlamentar da Iniciativa Liberal contratou a sua mulher, Mónica Coelho, através de uma empresa que terá sido criada para este efeito. Em causa está a empresa Proposta Emergente Unipessoal Lda. e, apesar de não ser detentor de capital, Rodrigo Saraiva declarou à Assembleia da República ter interesse nesta sociedade. A Proposta Emergente Unipessoal Lda. foi fundada assim que o partido teve financiamento público, a partir de 6 de janeiro de 2020, e tem prestado serviços ao partido desde essa data até 2022, altura em que foi liquidada.

A empresa foi criada para prestar serviços de consultoria e de assessoria de comunicação, relações públicas e gestão e formação. Este pelouro de imagem e comunicação foi da responsabilidade de Mónica Coelho na vice-presidência da comissão executiva de João Cotrim de Figueiredo para o mandato de 2019 a 2021.

Confrontada com estes factos, a direção do partido esclareceu que «Mónica Coelho trabalhou desde 2017 a 2019 na Iniciativa Liberal como voluntária, a custo zero, passou a ser remunerada em outubro de 2019, através de prestação de serviços, tendo passado a trabalhar a tempo inteiro na Iniciativa Liberal em 2022, após a eleição dos 8 deputados». Na altura destes factos, Rodrigo Saraiva era o chefe de gabinete do então deputado único.

Uma notícia que caiu que ‘nem uma bomba’ junto da direção do partido, que enviou uma nota interna a elogiar o seu trabalho. «Mónica Coelho foi uma das pessoas essenciais ao crescimento do partido. Foi contratada a tempo inteiro pela Iniciativa Liberal com contrato a termo até ao final do mandato da atual Comissão Executiva», revela o documento a que o nosso jornal teve acesso.

 

A ferro e fogo

A presença de Carlos Guimarães Pinto como diretor não executivo no Mais Liberdade também foi questionada pela assessora da Iniciativa Liberal e candidata a vogal da Comissão Executiva pela lista de Rui Rocha, Ana Martins, perante centenas de pessoas, num evento público, a 12 e outubro, no Parque das Nações. Questionado pelo Nascer do SOL, o presidente do movimento disse apenas que «foram questionados os planos de desenvolvimento do instituto para continuar a garantir a sua independência e o posicionamento da entidade».

No entanto, ao que o nosso jornal apurou, as questões colocadas não foram «inocentes», refere um dos participantes, já que Ana Martins trabalha com Guimarães Pinto no Parlamento. «Se havia alguma questão poderiam ter falado naquele espaço com mais privacidade», revelou outro participante.

Recorde-se que o Mais Liberdade é um think tank criado por Carlos Guimarães Pinto, após ter abandonado a presidência da Iniciativa Liberal. O agora deputado criou este organismo em 2021 e manteve-se na sua coordenação até ter anunciado a sua candidatura às eleições de janeiro de 2022, afastando-se da direção executiva daquele organismo.

Ao que o Nascer do SOL apurou, quando se começou a discutir o terceiro ponto da ordem de trabalhos naquele encontro público no Parque das Nações – a proposta do conselho de curadores para a composição da direção até ao final do mandato em curso, que  contemplava o nome de Carlos Guimarães Pinto como diretor não executivo deste organismo, a par de Cecília Meireles (CDS) e Fernando Alexandre (PSD) –, Ana Martins questionou por duas vezes a presença de Carlos Guimarães Pinto na direção, pedindo-lhe para explicar o conflito de interesses na representação de um partido político e de um think tank liberal.

 

Bases e listas da discórdia

O primeiro presidente da IL eleito foi, na convenção fundadora de 26 de novembro de 2017, no Porto, Miguel Ferreira da Silva, sucedendo-lhe quase um ano depois, em outubro de 2018, Carlos Guimarães Pinto.

A liderança de Carlos Guimarães também durou pouco mais de um ano, uma vez que, em 30 de outubro de 2019, anunciou que iria abandonar o cargo no «dia histórico» em que a IL se estreou com uma intervenção no Parlamento, considerando então que a sua missão estava cumprida com a eleição de um deputado nas primeiras legislativas a que concorreram.

Foi o deputado único João Cotrim de Figueiredo que assumiu a presidência em dezembro de 2019, passando a ser a partir de então a principal figura da IL, numa convenção em Pombal em que voltou a não ter concorrente e a sua lista da Comissão Executiva foi a  única a ir a votos.

Em outubro do ano passado chegou o anúncio de que as eleições para a comissão executiva seriam antecipadas cerca de um ano e de que Cotrim de Figueiredo não se recandidataria ao cargo por entender não ser a pessoa ideal para presidir ao partido, que precisaria «de uma postura distinta» para continuar a crescer.

Mas, tal como noticiou o Nascer do_SOL, o risco de perder o controlo sobre a atividade partidária foi uma das razões que levou João Cotrim de Figueiredo a precipitar a saída da liderança do partido. A decisão foi revelada em outubro com a justificação assumida de que iria dar oportunidade «a uma nova liderança de estar em funções com suficiente antecedência em relação aos próximos atos eleitorais, que terão lugar já a partir do segundo semestre de 2023» – mas, ao que o Nascer do SOL apurou, o ainda líder da IL preferiu abandonar o partido a perder as suas rédeas.

Aliás, este  receio acaba por estar visível nas cinco listas que avançaram para o conselho nacional do partido. E a explicação é simples: o comportamento tático de cada núcleo passa por colocar os membros em cada lista de forma a garantir representação, mas, com o método de Hondt, o núcleo duro de João Cotrim de Figueiredo iria perder o controlo da máquina partidária.

Esta corrida estará relacionada com o facto de haver um grande descontentamento nas estruturas partidárias com a direção do partido. Uma questão que ganha maior revelo quando o Conselho Nacional controla essencialmente três áreas: contas, listas de candidatos às diferentes eleições e atividade política.

Os problemas, aliás, não são de agora. A aprovação das listas nas últimas eleições foi e é vista por vários militantes como o momento em que Cotrim de Figueiredo perdeu o partido por ter optado por candidatos a deputados sem experiência profissional com o objetivo de ter uma equipa mais leal. O nosso jornal sabe que um desses nomes é Patrícia Gilvaz, que motivou forte contestação nos núcleos do Norte – e aos dias de hoje ainda não está completamente resolvida. Era número dois da lista, logo a seguir a Carlos Guimarães Pinto, e por isso mesmo facilmente elegível. Atualmente deputada, é também coordenadora de um núcleo local  – o equivalente a uma concelhia nos outros partidos –  e membro do Conselho Nacional por inerência. Foi também candidata à União das freguesias de Perafita, Lavra e Santa Cruz do Bispo. Uma situação que causa mal-estar por ocupar várias posições de destaque em todos níveis de autoridade do partido.

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