Posfácio

Por que razão ouvimos os 'velhos do Restelo'?

Portugal foi governado, durante décadas, por uma ditadura controlada por ‘velhos do Restelo’, fora do tempo e da História, que mantinham Portugal orgulhosamente só.

Por que razão ouvimos os 'velhos do Restelo'?

Por Francisco Gonçalves

Há poucos dias, o ministro da Economia e do Mar respondeu à deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, na Assembleia da República, dizendo que a sua posição sobre a economia da inovação é «obsoleta» e «retrógrada», e que a deputada é «obcecada com coisas erradas», pedindo também que esta «não fosse totalitária» e o deixasse falar. 

Quem já está habituado às posições obsoletas, retrógradas e erradas dos bloquistas, não se espanta de ver o ministro sair do seu registo habitualmente tranquilo. É que aquelas posições são mesmo de bradar aos céus.

Quando Portugal fazia a sua impressionante epopeia dos ‘descobrimentos’, surge retratada n’Os Lusíadas uma personagem que perdura na sociedade portuguesa, o ‘velho do Restelo’. Mesmo quando os ‘velhos do Restelo’ estão mascarados de uma certa sofisticação e contemporaneidade, na cabeça são o que são.

Portugal foi governado, durante décadas, por uma ditadura controlada por ‘velhos do Restelo’, fora do tempo e da História, que mantinham Portugal orgulhosamente só. O Povo vivia na pobreza e no analfabetismo, mas, de acordo com os padrões do regime, estava tudo bem.

Curiosamente, talvez porque sejamos um país no qual ainda se tenda a pensar pouco pela própria cabeça, continuamos alegremente a embarcar em facilitismos intelectuais.

Portugal tem uma pequena economia, com dificuldades de competitividade, por razões que são conhecidas de todos: baixa produtividade, problemas de organização burocrática e administrativa e um sistema judicial administrativo e fiscal moroso. 

Podemos também discutir a rigidez laboral e os impostos elevados, mas essas são questões secundárias quando o mesmo trabalhador português produz menos, por hora trabalhada, do que um checo, eslovaco, croata, húngaro, estoniano ou lituano. Os exemplos escolhidos têm uma razão de ser: em 2000, todos estes países tinham produtividade, por hora trabalhada, inferior a Portugal. 

Perdemos competitividade e continuamos a querer ter as mesmas discussões obsoletas, nas quais discutimos os salários sem antes tratarmos de melhorar a produtividade que os pode fazer crescer. A melhor forma de aumentar a produtividade é exatamente através da formação e da inovação.

Oeiras, o Concelho português com maior peso da economia da inovação e do conhecimento, tem a segunda faturação de empresas não financeiras do país (cerca de 27 mil milhões de euros), logo a seguir a Lisboa. Um pequeno território de 48Km2 fatura mais do que o Porto e Vila Nova de Gaia juntos e seis vezes mais do que Cascais. Porque razão isso acontece? Pela economia de inovação e do conhecimento. Oeiras não produz automóveis, roupa ou calçado. Produz tecnologia e produtos farmacêuticos, isto é, produtos de elevado valor acrescentado. A consequência natural é a dos seus ordenados serem, em média, os mais elevados do país.

Seria normal que, perante estes factos, se considerasse estarmos perante um modelo de desenvolvimento adequado, necessitando dos seus ajustes, até porque não há modelos perfeitos, mas que, na base, se considerava terem sido realizadas as apostas corretas. E, no entanto, não é assim. Os ‘retrógrados’, os ‘velhos do Restelo’, nunca estão satisfeitos, mesmo porque, quando há desenvolvimento e bem-estar, quando há cultura e conhecimento, não há quem os oiça (ou poucos ouvem). A ignorância é o seu grande aliado.

Há um virar de página que urge fazer em Portugal. Os ‘velhos do Restelo’, mesmo parecendo atuais, são figuras do passado, do Portugal que se fez pequeno, mais do que em território, em ambição. 

A economia do século XXI não se compadece com os atavismos do ‘Portugal dos poucochinhos’.  

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