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Ucrânia: Ministério decapitado

No desastre de helicóptero que matou o ministro do Interior morreu também boa parte da liderança da tutela. Brovary voltou a estar de luto.

Ucrânia: Ministério decapitado

Enquanto ainda celebrava pelo anúncio de que ia receber pela primeira vez tanques modernos vindos da NATO (ver texto ao lado), o Executivo da Ucrânia teve de enfrentar mais uma tragédia. Denys Monastyrsky, o ministro do Interior, de 42 anos, elemento crucial da equipa de Volodymyr Zelensky, morreu quando o seu helicóptero se despenhou sobre um infantário, esta quarta-feira, num subúrbio de Kiev. No incidente pereceram pelo menos 17 pessoas, incluindo quatro crianças.

Ainda não é certo o que terá sucedido. As autoridades ucranianas estão a investigar o desastre, colocando como hipóteses avaria técnica, violação das regras de voo ou sabotagem.

Por agora, o que se sabe é que Monastyrsky quando entrou no helicóptero pretendia fazer aquilo a que se tem dedicado desde fevereiro. Ou seja, quando os invasores lançavam ataques atingindo a população civil, o ministro costumava acorrer pessoalmente ao local, para perceber o que se passava e dirigir as operações de resgate. Na madrugada fatídica, algures por volta das 8h30 (6h30 em Portugal continental), Monastyrsky seguia para um «ponto quente» no leste, descreveu o gabinete presidencial. Como habitual, o helicóptero do ministro voava baixo, rasando a copa das árvores, uma manobra perigosa que servia para evitar ser alvo de fogo antiaéreo inimigo. Testemunhas contaram que quando a sua aeronave caiu em Brovary um denso nevoeiro cobria este subúrbio de Kiev.

A queda da aeronave foi desastrosa, atingindo um infantário mesmo à hora que pais levam os filhos pela mão para a escola. «Comecei a gritar: Onde estão os miúdos?’», descreveu Anna Maiboroda, uma jovem mãe que correu em aterrorizada para o infantário quando ouviu o estrondo. Lá dentro, onde estava a sua filha, já se viam chamas. «Comecei a gritar o apelido da minha filha. Após algum tempo ouvi a professora gritar: ‘Anna, Anna! A tua Vika está connosco’», contou à Reuters.

A horror da perda voltou a assombrar Brovary, que já fora tão martirizado pela guerra. Logo no início da invasão, foi aqui que as colunas de tanques russas foram travadas, quando vinham do Norte e tentavam seguir para Leste de maneira a cercar a capital. Quando avançavam na autoestrada, militares ucranianos abriram fogo com mísseis antitanque forçando os russos a retirar para a floresta e tornando este subúrbio numa autêntica linha da frente, descreveu na altura o Washington Post.

Tropas russas, desesperadas, esconderam-se onde podiam, frequentemente abatendo os civis que encontravam. Uma moradora de Brovary, com a qual o Nascer do SOL se cruzou num campo de refugiados em Varsóvia, contou que foi feita refém por invasores que se abrigaram em sua casa. Mal saíram, vestindo roupas do pai, a jovem pegou na irmã e fugiu do país, ansiando voltar mal fosse possível.

Muitos daqueles que já arriscaram voltar a casa, após os invasores retirarem e dedicarem a tentar tomar o leste, agora voltam a estar de luto, celebrando uma vigília ortodoxa em honra dos mortos no infantário.

«A parte mais difícil foi ouvir as palavras da minha filha de três anos. Quando ela voltou e disse: ‘A minha casa foi queimada. Eles hoje queimaram o meu infantário e queriam queimar-me a mim’», lamentou Maiboroda à agência noticiosa americana. «Esta é uma guerra amaldiçoada».

 

Caos e crise política

Para o Governo de Zelensky, a perda de Monastyrsky pode trazer sérios problemas. Não só se trata do mais importante dirigente ucraniano a morrer desde o início da invasão russa, como o ministro tinha sob a sua tutela organizações cruciais para enfrentar a agressão do Kremlin. Incluindo a guarda nacional, policia, guarda fronteiriça, os serviços de emergência e parte das forças de defesa territorial, que foi particularmente crucial para travar o Kremlin nos primeiros momentos da invasão.

Além de Monastyrsky, seguia a bordo do helicóptero também Yevhen Yenin, seu número dois, bem como outros dirigentes de topo do Ministério do Interior. Boa parte das estruturas sob a sua tutela «trabalhavam autonomamente, com os seus próprios gestores. Mas alguns dos processos eram personalizados, portanto a morte de dirigentes seniores leva à perda de memória institucional», avaliou o Economist. Apontando que isso «terá um efeito imediato no esforço de guerra».

O Governo da Ucrânia reagiu nomeando de imediato o responsável pela polícia nacional, Ihor Klymenko, enquanto ministro interino. Contudo, Zelensky fica perante sérios políticos no que toca a escolher um sucessor definitivo para Monastyrsky. Aliás, se este chegou ao cargo foi para resolver uma crise, causada pelo afastamento do seu influente antecessor, Arsen Avakov.

Avakov, um político veterano que atravessou quatro administrações apesar de ter sido detido por corrupção pela Interpol em 2012, demitiu-se quando surgiam rumores que estava sob pressão de Zelensky. Desde então foi causando problemas ao Presidente nos bastidores, tentando voltar ao poder, mas há dúvidas de que o consiga. «Zelensky vai procurar manter a unidade a todo o custo», assegurou ao jornal britânico o analista ucraniano Volodymyr Fesenko.

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