Opiniao

A culpa é sua, professor Cavaco Silva

Professor Cavaco Silva, nos últimos vinte anos a boa moeda expulsou a má. Abstenha-se, portanto, de voltar a criar ilusões materialistas aos portugueses.

A culpa é sua, professor Cavaco Silva

Os portugueses andam desanimados. Não acreditam no seu país, nos políticos e talvez nem em si próprios. Perderam a esperança de melhorar a sua vida. E a culpa é sua, Professor Cavaco Silva.

Depois de anos de instabilidade política, crise económica e duas bancarrotas, o senhor chega ao poder em 1985. E, entre 1986 e 1991, dá-se o período de maior crescimento económico e desenvolvimento do país desde o início da democracia. Portugal aproxima-se da Europa e os portugueses começam a sonhar que irão ter o mesmo nível de vida dos cidadãos dos países ricos. Seria uma questão de tempo até lá chegarem. Um futuro radiante esperava-os.

O senhor, Professor Cavaco Silva, é por isso culpado de ter criado ilusões de riqueza e prosperidade aos portugueses. Estavam tão bem habituados aos tempos de vacas magras – nome pré-histórico da austeridade –, às vindas do FMI, ao vestuário da Maconde e a passar férias em casa, e, de repente, desata a cair um maná do céu. As pessoas enlouqueceram e começaram a viver como europeus julgando que seria assim para sempre. Mas não era. E nos últimos vinte anos descobriram que tudo não passou de um logro. A carruagem voltou a ser abóbora. E a abóbora apodreceu.

Felizmente, os governos socialistas acabaram com as ilusões e devolveram os portugueses à realidade. E agora está tudo bem porque aprendemos a viver com os pés na terra, de acordo com as nossas possibilidades e limites. Como dizia o outro, «a viver habitualmente». Dantes, sonhávamos aproximarmo-nos do nível de vida da Alemanha e da França. Agora, se não formos ultrapassados pela Albânia, já é uma vitória. E, se formos, não há problema. Podemos ainda celebrar por estarmos à frente do Butão, do Burkina Faso e da Micronésia.

Parafraseando Fernando Pessoa:

«Ai que prazer ter um país para desenvolver e não o fazer.

Mas o melhor do mundo são as crianças pobres».

Agora, ficamos felizes quando os alunos têm uma aula por mês; quando um hospital tem dois médicos e uma enfermeira ao serviço; quando um tribunal profere uma sentença de dez em dez anos; quando passam dois dias sem nenhum autarca ser detido ou governante se demitir. Agora, é preciso trabalhar para se ser pobre – um privilégio face aos indigentes. Agora, os meninos quando acordam com a pilinha para o lado direito decidem ser meninos; quando acordam com a pilinha para o lado esquerdo decidem ser meninas; e quando fazem chichi na cama são mijões traumatizados pelo patriarcado.

Dantes sonhávamos  com o futuro, agora destruímos o passado.

Agora, já não é preciso saber ler e escrever a língua portuguesa. Tão-pouco dominar a Matemática. Agora, é preciso ser inclusivo, frequentar quartos de banho mistos e odiar a História de Portugal. Agora, é preciso ir a uma manifestação contra o sistema capitalista com as última sapatilhas da moda e o novo modelo de telemóvel. Agora, é preciso acreditar que capitalismo, colonialismo, masculinidade tóxica e Pokémons é tudo a mesma coisa. Agora, não é preciso admirar as obras de arte. É preciso vandalizá-las. Agora, é preciso descobrir se há preconceitos contra os transexuais e os não-binários n’ Os Maias e  n’Os Lusíadas. Agora, é preciso apurar se Damião de Góis contou alguma piada homofóbica; se Dona Urraca instigou a islamofobia; se Dom Afonso Henriques respeitou as Convenções de Genebra no tratamento dos cativos árabes; e se Dom Fuas Roupinho organizou alguma tourada. Todavia, é preciso também louvar o padre Bartolomeu de Gusmão por não ter chamado Passarolo à Passarola Voadora.

Agora é preciso ter valores civilizacionais.

Nada  disto acontecia no seu tempo, Professor Cavaco Silva. Em vez de valores civilizacionais, havia consumismo e a descoberta das praias do Algarve. Havia novo-riquismo. Sapatos pretos e meias brancas. Parolice. E havia ainda o engenheiro Dias Loureiro.

Pobres alunos desse tempo que tinham de estudar a Farsa de Inês Pereira sem cuidar se alguma minoria estaria a ser ofendida; estudar Matemática sem lobrigar intenções racistas nas equações segundo grau; e branquear o passado esclavagista do Padre António Vieira.

Como vê, Professor Cavaco Silva, nos últimos vinte anos a boa moeda expulsou a má. Abstenha-se, portanto, de voltar a criar ilusões materialistas aos portugueses. Porque, finalmente, os portugueses começam a habituar-se que o seu estado natural é ser pobre, mas civilizado.

 

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