Marco Morricone: “O meu pai era uma pessoa normal que fazia um trabalho fora do normal”

O filho mais velho do famoso compositor conta como foi crescer com um pai que vivia totalmente dedicado ao seu trabalho. ‘Podia haver uma guerra mesmo ali ao lado, que ele continuava a escrever’, revela. ‘Nunca vi outra pessoa com uma tal capacidade de concentração’.

«Não sei falar sobre música. Mas sei falar sobre o meu pai», diz-nos Marco Morricone. Nascido em Roma em 1957, Marco tinha quatro anos quando o seu pai, o compositor Ennio Morricone (1928-2020), fez a primeira de mais de 400 bandas sonoras de filmes e séries.

O processo nem sempre foi pacífico. Ennio considerava humilhante criar música para acompanhar imagens, e de início assinou com um pseudónimo. Afinal não havia razões para isso: o seu trabalho viria rapidamente a obter reconhecimento universal, acabando distinguido com dois óscares.

Numa passagem por Lisboa a propósito de Ennio, O Maestro, o emocionante documentário de Giuseppe Tornatore que se estreou ontem nas salas portuguesas, Marco sublinhou a «ética» do pai, «o enorme respeito que tinha por toda a gente». Contou-nos também como havia papéis em cada canto da casa, para o compositor anotar as suas ideias até no escuro. E revela que os filhos podiam fazer todo o barulho que quisessem quando ele estava a trabalhar – mas não ouvir música. «Nem a dele. Era a única coisa que o deixava muito irritado».

Conheceu o seu avô paterno, o trompetista da banda militar, que esteve na origem de o seu pai ser músico?

Sim, ainda o conheci razoavelmente. Tinha 16 anos quando ele morreu.

Fiquei com a impressão de que era um homem bastante austero.

Era muito sério, muito austero. Mas eu conheci-o nos anos finais da vida, portanto já estava – como posso dizer? – um pouquinho ‘suavizado’. Além disso, é preciso ver que os avós nunca são tão austeros com os netos como com os filhos. E, evidentemente, no fim da vida ele também estava mais frágil.

O seu pai falava-vos sobre a infância e a juventude dele? Foram anos difíceis para a Itália, primeiro o fascismo e a II Guerra Mundial, depois a depressão do pós-guerra.

Ele abria-se muito pouco connosco. A única coisa que nos dizia era que na vida nada vem grátis. E por isso temos de sacrificar-nos, de trabalhar e estudar muito. Dizia isto a toda a gente: a mim, aos meus irmãos, aos alunos dele no conservatório de Frosinone [localidade entre Roma e Nápoles]. Era quase uma espécie de religião.

Mas a infância do Marco e dos seus irmãos deve ter sido bastante privilegiada, tendo em conta o enorme sucesso do pai.

Não posso responder pelos meus irmãos, apenas respondo por mim. No que me diz respeito, o sucesso não me influenciou, porque na minha adolescência o papá não era assim tão famoso. O que me influenciou fortemente foi uma coisa que é muito rara no mundo de hoje, que é a sua ética. O enorme respeito que tinha por toda a gente… por cada pessoa.

A sua mãe trabalhava na Democracia Cristã. Os seus pais eram católicos, iam à missa?

A Democracia Cristã era um partido político muito influente – hoje já não existe. Em todo o caso, sim, os meus pais são ambos pessoas profundamente religiosas. A minha mãe continua a ser religiosa e crente. O meu pai, só o descobrimos depois, ia à missa todas as manhãs e todos os domingos. Saía às sete da manhã sem dizer uma palavra, ouvia a missa e voltava para casa. Durante a pandemia, foi-lhe proposto por uma editora italiana fazer um comentário aos salmos. Não aceitou. Mas a minha filha Valentina, que escreve e estuda cinema e teatro, pegou na ideia. Esse livro existe, foi publicado. E depois de o meu pai morrer, descobrimos nas gavetas do escritório dele uma quantidade de orações, pequenos papelinhos escritos com a letra dele. Foi uma surpresa.

O seu pai trabalhava em casa?

Sim. Quer dizer, escrevia a música em casa. Mas obviamente quando chegava a altura de gravar ia para o estúdio. Fosse em Roma ou no estrangeiro.

E não exigia silêncio quando estava a trabalhar?

Não. O barulho não o incomodava. A única coisa que o deixava muito irritado era quando ouvíamos música – música em geral. Não podíamos ouvir música. Nem a dele.

Curioso.

De resto, podíamos fazer todo o barulho que quiséssemos. Nunca vi outra pessoa com esta capacidade de concentração. Podia haver uma guerra mesmo ali ao lado, que ele continuava a escrever. Mas música é que não podia ser. Toda a gente tem um cantor na sua vida ou uma canção com um significado especial. Nós – infelizmente – nunca pudemos ter isso.

Mas ele ouvia música, ou não?

Não… Vou contar uma história. Como vivemos no mesmo prédio, ao domingo almoçávamos quase sempre juntos. Num desses domingos, estávamos em casa a almoçar e eu perguntei-lhe: ‘Viu que morreu o David Bowie?’. E ele: ‘Quem?’. Não o disse por snobismo, mas porque estava completamente absorvido pela sua determinação em escrever música. Os únicos que conhecia eram os Beatles. Considerava-os um caso único na história, por serem rapazes de enorme talento sem nunca terem estudado. Dizia a toda a gente: ‘Estuda, estuda, estuda’. A minha filha tocava piano, e ele perguntava-lhe: ‘Estudas doze horas por dia? Se não, deixa estar’ [como quem diz: ‘não vale a pena’].

E como se relacionava com os clássicos?

As suas grandes referências eram Frescobaldi, Bach e Monteverdi. E, nos contemporâneos, o seu mestre, Goffredo Petrassi, que lhe ensinou a técnica do famoso contraponto. Como diz no filme um antigo colaborador dele, o pianista Enrico Pieranunzi: ‘Ninguém no mundo conhece o contraponto como Morricone’. Isto é um orgulho.

No documentário várias pessoas descrevem o seu pai como uma pessoa calada e séria. Ele próprio reconhecia que não falava muito porque tinha a cabeça cheia de sons. Isso criava alguma…

Dificuldade?

Sim, alguma dificuldade aos filhos para comunicarem com ele?

Acontece com todos. Se o pai sai de casa de manhã, passa o dia no escritório e só volta à noite, cansado, também há dificuldade de comunicação com os filhos. Numa sociedade tão ocupada, todos temos dificuldades dessas. O meu pai dedicou a sua vida ao trabalho – o trabalho era a sua razão de existência. E nós fomos ensinados pela nossa mãe a apoiá-lo. Não era melhor nem pior do que o que se passava nas outras famílias. No meu caso, quando eu era pequeno, até jogávamos ténis juntos. Depois deixou de jogar comigo. Mas, tudo somado, o que é importante é que ele era uma pessoa normal que fazia um trabalho fora do normal.

Viveram sempre em Roma?

Não. Houve um período em que vivemos fora de Roma para o papá estar mais perto do estúdio da RCA, onde trabalhava. Depois regressámos a Roma, aí por volta de 1974.

Havia um piano em vossa casa?

Sim.

E o seu pai compunha ao piano?

Não, só escrevia na pauta. Escrevia as suas partituras sempre com caneta. O lápis pode-se apagar, a caneta não. Isto significa que tinha de saber exatamente o que queria.

E nunca tocava piano para a família?

De vez em quando. A última composição, que foi uma encomenda feita pela região da Ligúria para a reconstrução da Ponte Morandi, em Génova, não a chegou a gravar porque morreu 15 ou 20 dias antes – foi o meu irmão Andrea que dirigiu a orquestra na estreia. Mas ainda a tocou para nós ao piano – para mim, para a minha mãe e para os meus filhos.

Ele mostrava-vos o que estava a fazer, por exemplo, se estava a compor música para um filme?

Não mostrava. Muitas vezes nem sabíamos no que estava a trabalhar. Eu fiz os meus estudos e segui a minha vida, como gestor numa empresa, e por isso estava mais afastado. Mas depois fui trabalhar com ele, a gerir a sua carreira, e tive absolutamente de estruturar e adaptar a minha personalidade. Sem isso, não teria conseguido colaborar com ele no seu ambiente. Trabalhámos juntos nos últimos 30 anos.

Roland Joffé, o realizador d’A Missão, conta que quando ouviu pelo telefone o seu pai trautear as primeiras notas, foi como se estivesse a ver o filme à sua frente. O seu pai falava sobre isso, sobre o poder da música para evocar imagens?

Não. É preciso ver que a música evoca imagens porque quando vemos um filme pela primeira vez, vemo-lo acompanhado pela banda sonora. Mas a música tem uma vida própria, totalmente própria. O papá nos anos 70 fez uma experiência extraordinária. Chamou dez colegas e pôs umas imagens, já não sei de quê, a passar. E disse-lhes: ‘Agora cada um de nós vai compor uma peça música que se adapte a estas imagens’. Cada um deles escreveu uma peça diferente. Penso que isto significa que, embora se pudessem fazer dez, cem, mil interpretações diferentes, o papá talvez tivesse um dom. Como diz no filme Alessandro de Rosa, o meu pai olhava para as imagens de um ponto de vista diferente. Era como se conseguisse afastar-se e vê-las a partir de cima. Na minha opinião, o que fica é que a música do meu pai tem vida própria, como demonstram os concertos que fez a partir dos anos 80. Para mim, talvez esta seja a música clássica do século. Mas essa é uma questão para a qual só teremos a resposta daqui a 200 anos. Para saber isso, vamos ter de esperar 200 anos.

Como é que o seu pai lidava com o facto de vivermos nesta era de tanto ruído e agitação?

Vou contar um pequeno episódio. Uma vez o meu pai estava a fazer a banda sonora de um filme português, Afirma Pereira, com Marcello Mastroianni. E não lhe vinha uma única ideia. Nada. Estava sempre preocupado com aquilo, à procura de alguma ideia que pudesse aparecer. E um dia levanta-se, não sei se para ir buscar qualquer coisa para comer, ouve estes tambores de um protesto que estava a passar na praça lá em baixo. E daquele ritmo surgiu-lhe uma ideia. Todas as ideias que teve eram seguramente resultado da sua história e dos seus estudos. Mas sobretudo das suas experiências. Quando começou a fazer arranjos musicais de músicas populares, por exemplo quando lhe ocorreu aquele splash na banheira para o ‘Pinne, Fucile ed Ochialli’ [canção de Edoardo Vianello de 1962], ou a lata a rebolar [‘Il Baratollo’, grande sucesso de  Gianni Meccia, de 1960], tudo isto é fruto da experiência, fruto de um percurso de uso dos instrumentos e até dos ruídos. Uma professora de música, violinista, dizia: ‘O Ennio nunca forçou um instrumento que fosse’. Isto significa que ele tinha um domínio total do instrumento, e sabia como usá-lo para produzir o som que queria sem o violentar. Tinha toda a música na cabeça.

E tinha algum hábito que o ajudasse a encontrar inspiração? Há pessoas que vão correr, outras vão pescar, outras isolam-se, outras leem…

Para ele não havia inspiração. Há uma frase que dizia muitas vezes [consulta o telemóvel para ter a certeza de que cita com rigor]: ‘No amor como na arte, a constância é tudo. Não sei se existe a paixão à primeira vista ou a intuição sobrenatural, só sei que existem a persistência, a coerência, a seriedade e a duração’. Para ele, a inspiração não existia. Até porque a música é, em grande medida, matemática. Eu não sei ler uma partitura. Mas também não tenho a pretensão de dizer que sou músico. A primeira coisa que digo é que de música não percebo nada. Mas uma coisa é certa: ele tinha em cada canto da casa um papel e uma caneta. Se lhe vinha alguma ideia durante a noite, levantava-se e apontava. Escrevia até no escuro! Uma vez foi lá uma equipa da RAI a casa e puseram-lhe uma venda nos olhos. E ele escreveu quatro notas na pauta de olhos vendados. E o entrevistador pergunta-lhe: ‘Que notas escreveu?’. E ele: ‘Escrevi esta, esta, esta e a aquela’. E era mesmo. Até no escuro sabia orientar-se na escrita da música.