Longo ‘sprint’ a pensar na vitória

Filipe Albuquerque parte à conquista da América como piloto oficial da Acura. Nas famosas 24 Horas Daytona ficou a escassos quatro segundos da vitória. A desforra está guardada para Sebring.

por João Sena

As corridas de resistência estão a ganhar projeção internacional, e o futuro promete ser espetacular com os novos Hypercars da Porsche, Ferrari, BMW, Lamborghini, Toyota, Acura, Peugeot, Cadillac e Alpine. Há quem fale no regresso às décadas de 80 e 90 – a época de ouro desta disciplina. Filipe Albuquerque vai correr no International Motor Sports Association (IMSA) e no World Endurance Championship (WEC), os dois campeonatos mais importantes, sempre a pensar na vitória. Nos Estados Unidos, está integrado na equipa oficial da Acura – a marca de luxo da Honda – e no WEC vai participar em algumas provas com a United Autosports, nomeadamente nas 24 Horas Le Mans, com o objetivo de ganhar a categoria LMP2.

Os organizadores norte-americanos e a Federação Internacional do Automóvel (FIA) puseram-se, finalmente, de acordo e criaram a nova categoria LMDh, que trouxe mais construtores às corridas de Endurance. Os protótipos mais evoluídos apostam na tecnologia híbrida para chegar aos 670 cv (500 kW) e utilizam a energia cinética obtida na travagem para carregar as baterias. «O novo regulamento técnico foi feito para que as marcas possam participar com o mesmo carro nas duas maiores corridas do mundo que são Daytona e Le Mans», explicou Filipe Albuquerque, um dos candidatos à vitória no campeonato americano.

O piloto tem provas dadas na Endurance – foi campeão do mundo na categoria LMP2 em 2020 – e está determinado a fazer uma grande época. «A fasquia está muito alta e sempre que estiver em pista vou dar o máximo para vencer», afirmou. O facto de disputar duas competições distintas acaba por ser uma vantagem, como nos explicou: «Torna-me um piloto mais completo e capaz de explorar ao máximo qualquer carro». Aliás, a qualidade dos pilotos portugueses é reconhecida no paddock. «Tanto eu como o António Félix da Costa temos ganho credibilidade e estamos bem cotados. Corremos para as melhores equipas e o conceituado jornal inglês Autosport colocou-nos no Top 50 dos melhores pilotos do mundo de todas as categorias do desporto automóvel», disse com natural orgulho.

 

Ganhar corridas e títulos

Num ano em que tudo é novo, Filipe Albuquerque vai disputar o IMSA com o objetivo de «ganhar um dos campeonatos de resistência mais importantes do mundo», disse de forma convicta. O Acura ARX-06 nasceu de uma parceria franco-japonesa – «o chassis foi feito pela Oreca e o motor preparado pela Honda, nos Estados Unidos. O desenvolvimento do carro em pista foi feito por mim e pelo meu colega Ricky Taylor, isso deixou-me bastante satisfeito», sublinhou o piloto. A prioridade de Flilipe Albuquerque é o campeonato americano, até porque está integrado numa equipa oficial. «Correr para ganhar à geral é mais motivador do que correr para vencer a classe como acontece na categoria LMP2», frisou.

O campeonato tem particularidades que agradam ao piloto de Coimbra. «Há cinco anos que faço corridas nos EUA e gosto bastante. Tem provas inacreditáveis, é tudo diferente. Como há muitos carros e as pistas são mais pequenas e estreitas há muitas bandeiras amarelas, isso faz com que os pilotos estejam sempre próximos e a discutir posições. As corridas são mais emocionantes para os pilotos e para o público. A única desvantagem é o nome IMSA, pouca gente sabe o que significa e é difícil de comunicar», admitiu o piloto da Acura.

Os novos protótipos da categoria LMDh são completamente diferentes, mas isso não é problema. «Faz parte do meu trabalho adaptar-me rapidamente e levar o carro ao limite. Tem de ser assim, porque o campeonato é muito competitivo», afirmou Filipe Albuquerque, que reconheceu: «as equipas estão muito fortes e há pilotos extremamente rápidos. Para mim, são todos favoritos. Ganhar corridas vai ser mais difícil este ano».

Em relação ao WEC, o piloto considera que o campeonato vai recuperar o prestígio de outros tempos com a participação de grandes construtores. «As pessoas vão querer ver os novos protótipos, que são verdadeiramente espetaculares, e as corridas vão ser muito disputadas, ninguém que ficar para trás. Há também uma nova geração de pilotos extremamente rápidos e aguerridos. Antes, a Endurance era para pilotos em fim de carreira, muitos vinham da Fórmula 1 sem grande motivação, mas isso acabou. Hoje em dia, há pilotos jovens, com muito talento, que optam por fazer carreira nos protótipos e as marcas estão a aproveitá-los. Ainda há pilotos antigos e mais conhecidos, que servem para vender o projeto», afirmou.

Filipe Albuquerque tem contrato de dois anos com a marca japonesa. «A Acura só pretende correr nos Estados Unidos. Há a intenção de disputar as 24 Horas Le Mans no próximo ano, mas não deverá disputar o campeonato do mundo na totalidade, a menos que apareça uma equipa que compre um carro para correr no WEC», adiantou. A Honda Performance Development mantém em aberto a possibilidade de participar no Mundial de Endurance, mas, nesse caso, seria com o badge Honda respeitando a estratégia de marketing seguida pelos japoneses para o desporto automóvel.

 

Entre os primeiros

Na primeira corrida do ano, Filipe Albuquerque foi sempre muito rápido, mas o resultado foi ingrato. Na tri-oval de Daytona, o piloto ficou em segundo a 4,3 s do vencedor… após uma corrida de 24 horas. Filipe Albuquerque largou da terceira posição, chegou a liderar a corrida, mas viria a perder três voltas devido a problemas mecânicos. Quando voltou à pista fez um turno de condução impressionante, mas a instabilidade do carro não permitiu andar mais depressa e ultrapassar o outro Acura. «Estou triste por não ter ganho. Faltou muito pouco, é frustrante depois de um esforço desmedido. Mereciamos mais, mas foi uma prova com muitos altos e baixos. Estou contente com o que fiz em pista porque dei tudo o que tinha. A duas horas do final estava em quarto, consegui recuperar duas posições e terminar a poucos segundos do primeiro, isso deu-me um sentimento de dever cumprido. Mais do que isto era impossível, o vencedor estava com um carro perfeito e o nosso não tinha o equilíbrio ideal», explicou Filipe Albuquerque.

A estreia dos novos carros deixou uma impressão favorável, e abre boas perspetivas para o resto do campeonato. «Os Acura foram sempre mais rápidos e ficaram nos dois primeiros lugares, o que é um sinal muito positivo. Há muito campeonato pela frente, acredito que vamos estar na discussão das vitórias em todas as provas. Agora é tempo de analisar a informação recolhida e começar a pensar na próxima corrida», concluiu Albuquerque, que volta à competição nas 12 Horas Sebring, dia 18 de março.

A corrida realiza-se numa das pistas mais antigas da América – a primeira edição teve lugar em 1950 – e ainda hoje é considerada um duro teste para pilotos e máquinas. No dia anterior serão disputados as 1000 Milhas de Sebring, prova de abertura do WEC, onde Filipe Albuquerque vai correr com o Oreca da categoria LPM2.