PSD só desfaz o tabu do Chega antes de eleições

A direção social-democrata continua a fazer contas para daqui a três anos e meio. Mas faz questão de dizer que ‘não vai esconder o jogo como o PS’ sobre coligações ou acordos.

Empatados. É assim que PSD e PS ficariam se fossem hoje a eleições. Pelo menos foi para esse resultado que apontou a mais recente sondagem do ICS-ISCTE para o Expresso e que mostra uma queda acentuadíssima dos socialistas e o Chega a crescer de forma mais significativa que os sociais-democratas.

Hugo Soares, secretário-geral do PSD, desvaloriza: «Esta direção tem oito meses e há um ano o PS teve maioria absoluta nas eleições. Estas sondagens colocam agora o PSD empatado com o PS».

Esta aproximação resulta de um PS em derrapagem, que cai dos 41% dos votos que conseguira há pouco mais de um ano para a fasquia dos 30, e de um crescimento tímido do PSD, que sobe apenas um ponto percentual relativamente à ultima sondagem do ICS-ISCTE de há três meses.

O que desanima não são os magros ganhos dos sociais-democratas, mas sim o facto de o desencanto com o PS não se traduzir num entusiasmo pelo principal partido da oposição. Quem vai conquistando terreno é o Chega que sobe para 13%, quase duplicando a percentagem de votos conquistada nas legislativas de 2022 (7,2%).

A direção do PSD não desacredita os estudos de opinião, mas também não reage com «grande entusiasmo», optando antes por valorizar aquilo que é de valorizar.

«Não há nenhum estudo de opinião em que o PSD não venha a subir nas sondagens, o que demonstra que o trabalho que sempre anunciamos de ganhar a confiança do eleitorado é um trabalho que tem vindo a ser feito e tem vindo a ser conseguido», argumenta Hugo Soares em declarações ao Nascer do SOL.

O PSD vai teimando no facto de que, desde que a atual direção entrou em funções, o partido «tem vindo a subir sustentadamente em todos os estudos de opinião». «De tal forma que um ano após as eleições legislativas que tinham dado uma maioria absoluta ao PS, o PSD está empatado com o PS», insiste o braço-direito de Luís Montenegro.

Sustentada ou não, a subida parece durar mais do que seria de desejar, sobretudo, comparativamente ao Chega. Contudo, isso não é motivo de inquietação para as hostes sociais-democratas.

«O PSD não está nada preocupado com o crescimento do Chega. O PSD tem na casa dos 30%, coisa que em resultados de legislativas já não tem há muito tempo», refere o secretário-geral.

Nas últimas legislativas, o partido laranja saiu derrotado com 27,67% dos votos e, em 2019, a situação não foi muito melhor (27,76%).

Ainda assim os 30% estão longe de ser um resultado satisfatório e «este não é o resultado que o PSD quer». A expectativa da atual direção de Luís Montenegro é que o partido continue a subir de forma consistente até às próximas eleições legislativas. A grande dúvida é se o calendário se vai cumprir, isto porque os sociais-democratas vão fazendo contas para 2026, apesar de pairar no ar a ameaça de a legislatura não chegar até ao fim.

«O PSD quer ter um projeto maioritário, quer conquistar todos os eleitores, mas a verdade é que não há eleições amanhã. As eleições são quando terminar a legislatura e ainda faltam quatro ano para a legislatura terminar», conjetura Hugo Soares.

Questionado sobre a eventualidade de eleições antecipadas e o que fará o PSD, uma vez que ainda está longe de um resultado maioritário, refere apenas que «quando se coloca esse cenário em cima da mesa é apenas demonstrativo de uma erosão do Governo sem par».

«Se houver eleições amanhã o PSD está preparadíssimo para ter um projeto maioritário, com a maioria dos votos dos portugueses. Mas estamos a três anos e meio de eleições legislativas e o trabalho que o PSD está a fazer de ganhar a confiança do eleitorado visa ter um projeto maioritário de governação e um projeto de transformação que possa acolher o apoio maioritário dos portugueses. É nisso que estamos apostados e é isso que queremos», reforça.

Apesar de o PSD continuar a protelar uma demarcação categórica do Chega, tal como o Nascer do SOL noticiou na semana passada, o líder dos sociais-democratas terá assumido durante a cimeira do Partido Popular Europeu (PPE) que antecipou o Conselho Europeu de há duas semanas, em Bruxelas, que não vai haver qualquer acordo ou aliança para a sustentação de uma alternativa governativa com o Chega.

No entanto, sobre questões de coligações eleitorais ou acordos parlamentares pós-eleições, a direção social-democrata ainda não destapa o véu e vai insistindo que «este ainda não é o momento» de o partido falar sobre isso, «porque não há eleições».

«O PSD a seu tempo deixará isso claro e não vamos fazer como o PS, não vamos esconder o jogo. Os portugueses quando forem a eleições vão saber o que o PSD quer fazer», garante Hugo Soares, referindo-se ao primeiro Governo de António Costa, que foi viabilizado em 2015 graças a um acordo parlamentar escrito com o Bloco de Esquerda e a CDU.

Caso o calendário eleitoral se cumpra, como espera o PSD, as próximas legislativas só serão daqui a três anos e meio. Pelo caminho, Luís Montenegro ainda terá pela frente dois embates eleitorais. Primeiro, as regionais da Madeira, este outono, que a direção social-democrata já traçou como objetivo de ganhar com maioria absoluta. Depois as europeias, em maio do próximo ano.

O líder do PSD também deu no final da semana passada um importante sinal de que as europeias serão decisivas para a atual direção. Em Genebra, na Suíça, no último dia de um périplo de quase uma semana pelas comunidades portuguesas em vários países europeus, no âmbito da iniciativa Sentir Portugal, Montenegro assumiu como meta eleitoral querer ser o partido mais votado nas europeias de 2024.

«Queremos ter mais votos do que qualquer outro partido e, em função disso, queremos reforçar a nossa representação no Parlamento Europeu», afirmou. Mas não se ficou por aqui e assumiu pela primeira vez, ainda que implicitamente, que não será recandidato à liderança do partido caso os resultados do partido nas europeias fiquem aquém.

Questionado se retirará consequências políticas, respondeu: «Se forem resultados que abram a esperança de o PSD ganhar eleições legislativas – que é para isso que aqui estou e para ser primeiro-ministro – eu prossigo. Se isso não acontecer, nessa altura os portugueses não precisarão – e muito menos os militantes do PSD – de me dizer o que devo fazer, porque sei muitíssimo bem o que devo fazer».

 Eleito para um mandato de dois anos, Luís Montenegro terá de ir novamente a eleições internas em ano de europeias, mas com estas declarações na Suíça arrumou qualquer possibilidade de se recandidatar a um segundo mandato se não for capaz de corresponder aos resultados a que se propôs.

«Nunca estarei nos sítios onde as pessoas não desejam que eu esteja, eu não sou daqueles que perde e quer ainda assim governar à força, esse tipo de postura política não é para mim», assegurou.