LATA 65

A RUA EM QUE O GÉNIO 
NÃO TEM IDADES

Texto | Mariana Madrinha
Fotografias | Mafalda Gomes


Desde sexta-feira que o LX Factory, em Lisboa, tem mais um ponto de interesse – a Genius: Picasso Street, uma parede grafitada por mãos muito especiais. O b,i. acompanhou os novos artistas e conta-lhe como é ter lata a partir dos 65 anos. 

Reza a lenda que, na noite anterior à sua morte em Notre Dame de Vie – a mansão de 35 quartos na Riviera francesa em que viveu nos últimos anos da sua vida –, Picasso terá dito à sua mulher, Jacqueline Rocque, e a uns amigos com quem confraternizavam: «Bebam à minha saúde. Vocês sabem, não posso beber mais». Brinde findo, seguiu para o atelier onde pintou mais umas horas e morreu na manhã seguinte. Historieta ou facto, a verdade é que as palavras ficaram conhecidas como sendo as últimas do pintor que morreu aos 91 anos, a 8 de abril de 1973, e que serviriam depois de inspiração literal para uma canção de Paul McCartney, Picasso’s Last Words, lançada ainda nesse ano. 

Se o dito tomou proporção de lenda, as biografias de um dos pintores mais importantes da História são unânimes em afirmar que Pablo Picasso tinha, efetivamente, a superstição de que só o trabalho o manteria vivo, um dos motivos pelos quais teimou em pintar enquanto teve forças para segurar um pincel – o que se veio a verificar até ao fim.

A produtividade atípica do espanhol foi a ‘desculpa’ escolhida pela National Geographic, em conjunto com a associação Lata 65, para juntar um grupo de 25 pessoas com mais de 65 anos na passada sexta-feira num workshop que pôs os mais velhos de lata na mão a pintar uma das paredes do Lx Factory e que agora se chama Genius: Picasso Street. Lá iremos ao resultado final – é que tantos anos acumulados entre estas pessoas que, pela primeira vez, pegaram numa lata de graffiti, tem muito que se lhe diga.

Um projeto já com muita(s) lata(s)

São quase três da tarde quando chegamos ao quarto andar do co-work do LX factory onde espalhados por quatro mesas os nossos 25 novos grafiters – a média de idades é de 77 anos – estão entretidos a recortar moldes em papel a partir de desenhos que os próprios fizeram, o chamado stencil. No dia anterior, houve uma aula sobre a história do graffiti que pôs os alunos a olhar para a arte urbana com novos olhos e, também nesse dia, cada um dos alunos teve que escolher a sua tag, ou seja, o nome com que querem ficar conhecidos no mundo dos graffitis.

«Até na pré-História já desenhavam nas paredes», conta-nos o senhor Sá Lemos, de 90 anos, que diz nunca ter pensado sobre estes assuntos que nada tinham a ver com a sua profissão – passou a vida toda a «abrir caminhos de ferro em África». «Foi por isso que desenhei um comboio», acrescenta enquanto continua a recortar de forma surpreendentemente ágil mais um molde de papel – os professores da Lata 65 já nos tinham avisado de que estávamos perante uma «verdadeira máquina». 

Na mesa ao lado o senhor Nuno, de 83, antigo delegado de informação médica, já não é tão rápido a manusear o x-ato, mas escolheu uma tag que chama a atenção: Basquiat, um dos rostos da arte urbana nova-iorquina, morto precocemente aos 27 anos.
O gap geracional intriga-nos mas o senhor Nuno – talvez o nosso novo Basquiat seja mais apropriado – desfaz-nos de imediato a curiosidade: «Soube quem era o Basquiat num filme. Já o vi duas vezes». Estaremos, então, perante um fã de graffiti? «Se forem de qualidade estou absolutamente de acordo», afirma, sublinhando que, no seu caso, esta iniciativa não é a melhor. «Para mim que não sou bom desenhador não é o melhor, que lá por ser graffiti não tem que ser mal feito!».


Mobirise
E é com afinco também que uma mesa composta só por senhoras – vindas da já famosa associação ‘A Avó Veio Trabalhar’, um projeto que se dedica a reintegrar os seniores através de iniciativas fora da caixa – se aplica nos desenhos enquanto vão desfiando, entre gargalhadas, histórias de casamentos, de divórcios e até de roubos de bicicletas. Estão acompanhadas por Lara Seixo Rodrigues, a criadora do projeto Lata 65 que, desde 2012, já envolveu cerca de 480 idosos nos seus workshops. 

«Tivemos a ideia de pôr os idosos a trabalhar e adorei o resultado. Adorei explicar o que era a arte urbana, como chegou à Europa e a Portugal e depois ensinarmos as técnicas todas. E temos este molde desde o início – os workshops dividem-se em duas tardes de trabalho, primeiro veem exemplos e depois começam a desenhar. E nós estamos cá realmente só para os orientar», explica Lara enquanto recorta um peixe desenhado pela aluna Gracinda Rebolo. «Quando começámos era visto como um projeto muito inovador – e, na verdade, seis anos depois isso continua. Quisemos mostrar que uma atividade de jovens espoleta depois nos idosos uma auto-estima completamente diferente, é recebida com muito interesse e entusiasmo». 

O comportamento das avós que rodeiam a mesa confirma as palavras de Lara. Todas estreantes na arte urbana, admitem que o workshop lhes está a abrir novos horizontes sobre uma temática que nunca tinham pensado e estão ansiosas por pegar nas latas de spray. «Se depois tiver companhia para fugir à polícia ainda me meto nisto», ri Isabel na ponta da mesa, uma das avós mais radicais que até já tatuou a bicicleta com que se desloca diariamente no braço e que, por [ainda] ser abril, se apresenta com pequenos cravos pintados nas unhas.

O sol começa a baixar e a parede fica pronta. Os tutores da Lata 65 dão alguns retoques, mas 95% do trabalho da Genius: Picasso Street veio das latas dos idosos

O workshop é para os idosos mas, acredita Hellington Vieira, diretor criativo da Fox International Channels Portugal, também tem uma mensagem intergeracional. «Há mais de 12 mil idosos que vivem sozinhos, desses quatro mil isolados e então decidimos fazer um projeto ligado a este problema», explica, dizendo que a ideia partiu da nova temporada da série Genius emitida pelo National Geographic, dedicada à vida de Picasso [interpretado por Antonio Banderas] que, ao longo da sua vida, produziu mais de 50 mil obras. «Quando começámos a trabalhar o lançamento do Genius: Picasso uma das coisas que nos chamou a atenção foi o facto de ele ter continuado a pintar após ter chegado aos 90 anos e, como sabemos, o envelhecimento da população é uma questão com alguma dimensão em Portugal», continua. Daí, pensaram em levar os idosos para a rua e, uma vez que Lisboa já se tornou num ponto de paragem obrigatória nos roteiros de arte urbana internacionais, pensaram imediatamente no graffiti. «Fomos buscar o conceito ‘o génio não tem idade’ para dizer que se calhar há projetos que podemos fazer para envolver mais estas pessoas. É uma mensagem também para os mais jovens, queremos lembrar que os mais velhos têm muitas histórias para contar e que essa transmissão pode acontecer de várias formas, como neste caso através do graffiti», explica ao b,i.

Entretanto, os recortes estão prontos e está na hora de descer do quarto andar para uma parede ainda em branco que, dentro de pouco tempo, será a testemunha de que «as mãos não perdem a força».
Já na rua, está finalmente na hora de pôr as mãos na massa, um processo dividido em dois momentos. Primeiro, há que grafitar a parede de forma livre para depois, por cima, fazer o stencil com os desenhos recortados previamente.

«Quero que encham a parede, quanto mais longe for a distância mais fino o traço», explica Adrião, da Lata 75, segurando um spray enquanto mostra como se faz. «Atenção que a lata vai encravar às vezes e se isso acontecer testem sempre na parede e não para cima uns dos outros» – risada geral. «Entendido. Fixe», diz dona Gracinda, a tal que tinha desenhado um peixe. E aos poucos o grupo espalha-se, consoante a mobilidade. Os idosos em cadeiras de rodas grafittam mais por baixo, alguns com mais mobilidade sobem, inclusivamente, para cima de cadeiras, o que provoca algum pânico entre a assistência.

«Vão-se espalhando pela parede, troquem de cor com o vizinho do lado», instrui Adrião enquanto a parede ganha cada vez mais vida. Finda a primeira parte, são aplicados os stencis – há guitarras, pássaros, muitas flores, as mãos recortadas dos idosos, bonequinhas...

Ao lado, Anabela Antunes graffita uma data: 27.4.1947. Fazia 71 anos precisamente neste dia e, diz, não imaginava melhor forma de comemorar. «Vou ter para sempre o meu aniversário nesta parede» comenta visivelmente feliz, enquanto a ‘vizinha’ Esmeralda Serra se mostra preocupada com um parte da parede por pintar. «Os espaços brancos agridem-me», diz, enquanto resolve escrever «obigada» a azul numa dessas zonas e, percebendo que se esqueceu de um ‘r’, se desmancha a rir.

O sol começa a baixar e a parede fica pronta. Os tutores da Lata 65 dão alguns retoques, mas 95% do trabalho da Genius: Picasso Street veio das latas dos idosos.

E Olindina Silva que, prestes a completar 93 anos, participou entusiasticamente na iniciativa que «adorou», também concorda com a produtividade de Picasso. «É bom aprendermos até morrer». Agora, só falta os avós levarem os filhos, netos e bisnetos a visitar a nova rua sem idade do LxFactory.