A ÚLTIMA PROTEGIDA DE SALAZAR FALA DA VIDA EM S. BENTO


Texto | Felícia Cabrita

Tem quase um século de vida mas é uma mulher desempenada. Filha de camponeses minhotos com um rol de filhos que ultrapassava a dezena, escapou às misérias do campo por um obséquio do acaso. «Sempre vivi em palácios», gosta de repetir, do alto dos seus 94 anos e com a gargalhada solta de quem já não tem de provar nada a ninguém. Aprendeu, talvez com um dos melhores, a prestar uma minuciosa atenção às finanças. E, de cozinheira, passou rapidamente a empresária.


Mavilde Araújo vive hoje, por opção, num lar da ordem franciscana. Vendeu recentemente a moradia que conseguiu através do homem que, durante quatro décadas, manteve o país acorrentado. 

Desfez-se de tudo o que considerou inútil ao cabo de uma vida cheia, com exceção de um amontoado de objetos de existência longínqua, mas dos quais está tão próxima como se tivesse vivido o melhor da sua vida na mesma época. Com as mãos trémulas, escolhe uma moldura que a leva a recuar no tempo.

Tendo como pano de fundo os jardins de São Bento, revisita-se, mais nova, a posar encostada à cadeira onde António de Oliveira Salazar passa agora a maior parte do tempo. O ditador não perdera o ar esfíngico, mas, analisando a sua fisionomia na foto, observa-se algo pouco habitual: o olhar absorto, de quem entrou em abulia.

Já lá vão 50 anos desde que Salazar, sem a heroicidade do mito, tombou de uma cadeira de lona, o que levaria à sua substituição na presidência do Conselho. Batera com a cabeça violentamente no chão de pedra do Forte de Santo António, em São João do Estoril, onde veraneava, mas recusara-se a ir ao hospital. O acidente fora mantido em segredo, como convinha à propaganda que fizera dele uma figura imortal. Só passadas umas semanas, queixando-se permanentemente de cefaleias e desequilíbrios, o homem de Santa Comba foi levado para a Cruz Vermelha, de onde não sairia o mesmo.

DAS PRIMEIRAS A SABER DA QUEDA DE SALAZAR

O país desconhecia a maleita que fazia estremecer o edifício político do Estado Novo. Mas Mavilde, a quem Salazar, a pedido de um amigo, acolhera aos 14 anos, faz parte da corte de privilegiados e é das primeiras a receber a notícia. Tornara-se na protegida e confidente de Maria de Jesus Caetano Freire – a governanta que seguira Salazar desde os tempos de estudante em Coimbra, esmolando sentimentos amorosos que o homem, com o coração sempre ocupado, não lhe podia oferecer. Maria de Jesus acabaria, aliás, por morrer ‘completinha’, ou seja, sem conhecer carnalmente homem. 

Apesar de não ser dada a esbanjamentos afetivos, Maria de Jesus – a ‘governanta de Portugal’ ou ‘ministra’, como o povo a tratava – acolheu Mavilde em S. Bento. A menina, trazida pelo bracarense António Augusto Nogueira Leite, fundador e dono da Casa da Sorte, velho amigo de Salazar, foi-se afeiçoando ao ditador. Que a protegeu até morrer, mesmo depois de ela deixar S. Bento e seguir o seu destino.

MAVILDE VIGIA ‘AMIGOS’ DE SALAZAR

Naquela sexta-feira de setembro de 1968, à noitinha, já nos aposentos que lhe tinham sido disponibilizados na Cruz Vermelha para acompanhar de perto a evolução do estado de Salazar, Maria de Jesus sente-se desamparada como nunca. Os amigos, nascidos da adulação e não da afinidade, tinham-se já retirado – e, enquanto espera pela decisão da intervenção cirúrgica para vazar o sangue que ocupava o rendilhado das células nervosas do homem mais poderoso do país, telefona a Mavilde. Esta recorda: «A senhora disse-me, a chorar: ’Ai, Mavilde, se a emoção matasse, eu já tinha morrido. O senhor doutor está muito mal, só um milagre o pode salvar!’. Sentia-se muito sozinha e pediu-me para ir ter com ela. Acabei por só sair de lá quando o senhor doutor voltou ao palácio».

A memória daquele dia atravessa o cérebro da minhota com a força de um vendaval. O seu corpo agita-se como se estivesse no centro de uma tempestade. E recupera esse período histórico como uma espetadora ingénua que vacila entre a submissão aos seus escapulários, a gratidão, e uma certa malícia popular.

Depois de trocar o retrato de Salazar pelo de Maria de Jesus, regressa de pinote ao passado: «Vou contar-lhe umas que ainda ninguém sabe!». De olhinhos pequenos, muito vivos, ergue um pedaço de história. Salazar fora operado ao hematoma provocado pela queda. A Emissora Nacional apenas no dia seguinte divulga o primeiro boletim clínico sobre o seu estado de saúde, omitindo as razões que desencadearam a intervenção cirúrgica. O país, incrédulo, tem conhecimento de que, à semelhança de qualquer vulgar cidadão, a vida do ditador estava nas mãos dos médicos.

SENHORAS DO REGIME ROUBAM SACO DAS ESMOLAS

Em Benfica, na capela da Casa de Saúde da Cruz Vermelha, todos os dias se celebra missa pelas melhoras do estadista. Mavilde, que já não trabalhava no palácio e estava a começar a montar uma fábrica de aglomerado de cabedal para a indústria de calçado – alvará que só conseguira com o empenho de Salazar – é quem, junto da multidão que se aglomera entre as escadas e o local de culto, recolhe as oferendas (que revertem para o hospital). 

No final de cada cerimónia religiosa, a mulher desloca-se à sacristia, onde deposita o saco das esmolas. Um dia, tendo-se esquecido de um objeto pessoal junto do local onde deixara o saco, regressa e surpreende duas figuras femininas da alta burguesia afeta ao regime em conversas pouco católicas.

Tratava-se de Cecília Supico Pinto, figura emblemática do Movimento Nacional Feminino, mulher de Luís Supico Pinto, antigo ministro da Economia de Salazar, e Amélia Pitta e Cunha, casada com Paulo Cunha, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, figura tutelar da secção feminina da Cruz Vermelha. A mulher, educada a não tocar no alheio, nem se revela às senhoras: «Estavam a tirar dinheiro do saco e uma dizia para a outra: ‘Hoje já temos dinheiro para a canastra’. Eu nem sabia o que aquilo era. Só depois é que me disseram que era um jogo para as senhoras de alta-roda!».

Logo Mavilde viu naquela ação um duplo sacrilégio: o insulto às coisas da Igreja e de Deus, e um desrespeito pelo homem mais temido do país, agora preso a uma cama de hospital: «Fui logo contar à senhora. A D. Maria, como passava o dia ocupada com o senhor doutor, dizia-me para andar atenta e contar-lhe tudo o que se passava no hospital. Ficou muito apoquentada, mas, numa situação daquelas, com o senhor doutor naquele estado, o que é que ela podia fazer?».

MARIA COZINHA PARA SALAZAR NA CASA DE SAÚDE

As visitas são permanentes. No corredor que dá acesso ao quarto 68, no sexto piso da Casa de Saúde da Cruz Vermelha, anda um corrupio de gente. O Presidente da República, ministros, e outras altas figuras do Estado, que Mavilde conhecia bem, não deixavam de marcar presença. Mas quem lhe mantinha acesa a fé na salvação do chefe do Governo, como se estivesse em corrente diálogo com o divino, era o Cardeal Patriarca, D. Manuel Gonçalves Cerejeira. Enquanto ela e Maria rezavam novenas na capela, na antecâmara, Cerejeira desfiava orações em latim.

A seguir à operação, Salazar registara melhoras. Maria de Jesus, com a desconfiança dos pobres que treparam na vida sem arranjar explicação terrena para o sortilégio, faz sentir que é insubstituível. O sexto piso tinha sido todo remodelado para receber o presidente do Conselho, e a governanta instalara-se num quarto desafogado. Em frente, noutra divisão, mandara colocar um fogão e era ela quem continuava a cozinhar para Salazar: «Nos tachinhos do senhor doutor só eu e ela tocávamos», recorda Mavilde.

Investida do poder que a proximidade com o ditador lhe conferia, Maria de Jesus volta a dispor da vida de Salazar – o que deixa irritados alguns médicos. De São Bento manda vir a poltrona onde o chefe do Governo gostava de trabalhar, e passa a selecionar as visitas. 

SALAZAR ADMITE QUE ESTADO NÃO LHE PAGUE O FUNERAL

Terá sido por aqueles dias, enquanto o raciocínio ainda não lhe falhava, que o homem ponderou todas as suas possibilidades e teve com ela a última atenção. Maria de Jesus, para precaver o futuro, comprara recentemente um apartamento ainda em obras perto da casa de Mavilde, em Benfica. E Salazar, como se de repente lhe esfriasse o espírito da confiança que sempre o acompanhara, diz à governanta: «Se eu morrer e o Estado não pagar o meu funeral, tenho um envelope com dinheiro no meu guarda-fato que servirá para essas despesas. Se o Estado pagar, fique com ele. Já é uma ajuda para mobilar a casa».

Com o velho ditador diminuído, Maria de Jesus pressente conspirações por todo o lado. Fervilha a intriga política, jogam-se interesses e a governanta teme que lhe ocupem o lugar. Sem muita margem de manobra, delega em Mavilde a função de espiar as visitas que cirandam nos corredores: «Disse-me: ‘Vai lá e vê se ouves tudo muito bem!’. E olhe que ouvi muita coisa, aquilo era um ninho de víboras. Rei morto, rei posto!». Mas Mavilde sempre a conhecera assim: «A senhora, já em S. Bento, tinha uma salinha no vestíbulo onde ficava a espiar quem entrava e o que diziam. Estava sempre atenta a tudo para protegê-lo. Mas nunca gostou dele como homem, ao contrário do que diziam as más-línguas».

Salazar na varanda de S. Bento. À direita, Maria de Jesus

 

‘O SENHOR DOUTOR NUNCA ME NEGOU NADA’

Mavilde sabe hoje que, à sua medida, teve uma história empolgante. Não só foi capaz de agarrar as oportunidades que lhe surgiram, como fez por criá-las. Decidira nunca perder as vantagens que alcançara com a proximidade ao ditador. No quarto, entre as peças que decidiu guardar como lampiões do passado, um antigo aparador cardência e espelho leva-a a cálculos que ostenta, divertida: «As pessoas que sabiam que eu trabalhava em S. Bento pediam-me coisas que eu transmitia à senhora. Ao senhor doutor, não tinha coragem – mas nunca me negou nada, era um santo. Juntei 14 quilos em pratas, só em prendas».

Por baixo do aparador, uma chapeleira antiga, forrada num papel aveludado, chama a atenção: «Isso trouxe o Franco quando cá veio para oferecer ao senhor doutor. Eu também fui esperá-lo ao Terreiro do Paço, com a Maria». À medida que a narrativa avança, o rosto suavizado pelo espírito do êxito ganha uma súbita energia. 

A têmpera que ainda conserva talvez se deva à força que desenvolveu quando a mãe lhe negou o peito, ainda muito pequena. Caseira de quintas de famílias de renome do Minho, a progenitora tivera os filhos de enfiada. Mavilde ainda não completara três anos quando nasce outro irmão. Entre ela e o recém-nascido trava-se uma luta feroz. Criada com o leite materno, a menina não suporta ver-se afastada do peito da mãe – e bate ao bebé, impedindo-o de mamar tranquilamente. Elvira Cardoso, a proprietária das terras, uma solteirona que vivia com uma descendente da condessa da Torre numa casa apalaçada em Braga, ao ver o drama da caseira, ofereceu-se para criar a menina – o que a mulher aceitou de boa vontade.

De filha de gente com pouco mais que nada, Mavilde passa a ser o centro das atenções numa casa onde as mulheres imperam: «Ela disse à minha mãe que me ia dar maneiras para um dia me poder sentar à mesa de um rei. E não é que acabou por acontecer?!». É tratada como filha, fazem-lhe um enxoval e recebe educação num colégio de freiras. Entre os amigos íntimos da casa está António Nogueira Leite – que todas as semanas janta em Lisboa com Salazar. E foi isso que lhe valeu quando Elvira Cardoso morre. Não voltaria mais para a casa dos pais.

DONO DA CASA DA SORTE LEVA-A ATÉ SALAZAR

Com a chapeleira de Francisco Franco a rodopiar nas mãos pequenas, a anciã faz um longo trajeto ao passado. Estava com 14 anos quando chegou a S. Bento pelas mãos do dono da Casa da Sorte. Caminhava para o seu termo o ano de 1939. A Guerra Civil de Espanha chegara ao fim, mas ainda se faz sentir o efeito psicológico da bomba destinada a estoirar com Salazar, dois anos antes, por um grupo de anarquistas que não lhe perdoavam o apoio a Franco. O ambiente que espera Mavilde é de alguma tensão. Até aí, a mística triunfalista criada em torno do estadista não fazia prever perigos.

A rapariga surge quando, para evitar más surpresas, Oliveira Salazar se muda do apartamento da rua Bernardo Lima para o palacete da família Sottomayor, que o Estado compra para dele fazer residência oficial do chefe do Governo. 


Com a vantagem de se localizar nas traseiras do Palácio de S. Bento, a nova habitação permite-lhe ir à Assembleia da República sem pôr o pé na rua, atravessando os jardins que separam os dois edifícios. Mas a bomba nunca mais lhe sairá da memória. Sem intenção, Mavilde belisca-lhe a aura: «Eu percebi, sobretudo durante a II Guerra Mundial, que ele era medroso. E, quando eu cheguei, a PIDE mandou saber informações da minha família até à quarta geração».

A minhota chegava educada e distingue-se do resto da criadagem. Em dois tempos, cai nas boas graças de Maria de Jesus, mulher de uma disciplina feroz: «O senhor doutor disse-lhe para me ensinar tudo o que sabia, para um dia me poder governar em qualquer parte do mundo. Não foi preciso».

Salazar em Santa Comba Dão

SÓ DOIS AGENTES DA PIDE FAZEM SEGURANÇA A SALAZAR

A ideia do ‘homem providencial’, que a nação em peso reclamava, saíra reforçada do atentado anarquista. Falara-se de ‘milagre’. Mavilde foi testemunha, na década de 40, de mais dois atentados falhados contra Salazar, que o regime conseguiu abafar. A rapariga e Maria de Jesus acompanharam-no numas férias em Santa Comba. Apesar da recente intentona, a segurança de Salazar estava à altura do país, que era visto pela Europa como uma aldeola de que só se falava pelas más razões. Mantendo o amadorismo, apenas dois agentes da polícia política, Gomes e Valadares, formam o seu ‘exército’.

Um dia, estava quase a roçar a noite, quando o telefone quebra a paz bucólica. Salazar recebe a informação de que um carro apinhado de conspiradores segue em sua direção. A ordem é para partir de imediato. Mavilde fica aterrorizada: «Saímos à pressa. A PIDE decidiu mudar o itinerário. Costumávamos ir por Coimbra e dessa vez tivemos de dar a volta pela Guarda. Acho que o carro com os malfeitores foi apanhado na Mealhada, mas não sei quem eram, nem o que lhes aconteceu».

SACERDORTES FALSOS ENTRAM EM S. BENTO

O mais espantoso estava ainda para vir. A realidade de então era terrível. O país acorda e adormece ao toque do medo, e há quem não desista de se tentar livrar do criador de Estado Novo. Aos domingos de manhã havia missa no oratório montado em frente ao quarto de Salazar, e nem Mavilde nem Maria de Jesus falhavam à prédica. Um dia, estavam as duas na cozinha a adiantar o almoço, quando de repente o alvoroço se espalha pela residência. Três homens envergando batina apresentam-se na entrada da vivenda. Fazendo-se passar por sacerdotes amigos de Alberto Carneiro Mesquita – o secretário do Cardeal Cerejeira no Patriarcado e que dizia a missa em S. Bento – preparavam-se para tentar espetar mais um par de bandarilhas no regime.
 
As caras dos falsos sacerdotes agradaram aos agentes da PIDE que vigiavam o acesso à residência, e estes deixaram-nos passar. Tocam à campainha do palacete e entram calmamente no piso onde Salazar tem o gabinete oficial. Quem dá pela tramoia é Henriqueta, a criada de serviço à porta. Mavilde puxa pelo rosário das recordações e ainda hoje se enerva com o amadorismo da polícia do Estado: «Não sei como os deixaram passar! A sorte é que ficaram empancados no vestíbulo e a Henriqueta, muito esperta, ao perceber que eles não conheciam o caminho para a capela, que ficava no piso de cima, foi alertar a senhora e ela telefonou de imediato para os polícias. Depois, veio uma carrinha que os levou dali».

NADA SE DESPERDIÇA EM CASA DE SALAZAR

Rebentara a II Guerra Mundial, a Europa caminha sobre cinzas. Salazar, nas costas dos aliados, dava uma mãozinha a Hitler com volfrâmio, o aço que temperava a guerra, e rações alimentares. Enquanto isso, em Portugal, o povo habituara-se a uma vida de miséria sem fim nem descanso e passa por maior penúria. Em S. Bento, o chefe do Governo dá o exemplo. Dividia-se entre a minuciosa atenção às finanças do país e os cortes às despesas domésticas. Mavilde, que atribui à aprendizagem nessa época o êxito do seu futuro, repete uma das principais premissas económicas do seu protetor: «Meninas, produzir e poupar manda o Dr. Oliveira Salazar».

E na residência, ao batuque de Maria de Jesus, vivia-se quase em economia de subsistência. Numa das extremidades do jardim, a mulher, que punha e dispunha, mandara erguer uma espécie de réplica da vida camponesa. Antes de se mudarem, mandara construir um galinheiro, que chegou a ter centenas de animais, uma coelheira e até uma horta, por onde cirandavam patos e perus. A quantidade de ovos era tal que a governanta ainda fazia negócio, cujo lucro revertia para aliviar as despesas da casa (começou por vendê-los à Pensão S. Mamede, pertinho da Imprensa Nacional, mas, de tão cobiçados, chegaram a ser servidos no Hotel Aviz).

À saída de uma missa. Salazar em primeiro plano

  

ATÉ O COTÃO DOS TAPETES ERA APROVEITADO

O lado piedoso do antigo seminarista, resultante da sua formação religiosa ou da trajetória da sua origem humilde, leva-o a recolher e cuidar de uma catrefada de crianças sem eira nem beira. Talvez este fosse o único traço genuíno do seu caráter, que a máquina da propaganda soube aproveitar para forjar o líder casto que aparentava ter feito uma espécie de ‘ordenação’ com o país. Para além das duas pupilas – Maria da Conceição, mais conhecida por ‘Micas’, e Maria Antónia, sobrinha de Maria de Jesus –, a guerra e a pobreza que com esta alastrara trazem a S. Bento mais pequenos para alimentar. Mavilde conquistara o seu lugar. E quando a fábrica de açúcar onde o pai trabalhava fica um período largo sem laborar, por escassez de rama, sabendo que a família passa fome, move empenhos para que o chefe aceite em S. Bento três dos irmãos mais novos. Vieram três: António, com 12 anos, Celeste, com 9, e Maria do Patrocínio, com seis.

Com tanta boca para alimentar, o lema da poupança era levado a extremos. Mavilde vai enumerando os pormenores. Sabão não se gastava. O criado que ia comprar o pão trazia da padaria um balde com cinza. Uma vez por semana, ao sábado, punha-se ao lume um panelão com água (que precisava de dois homens para ser colocado no fogão), e depois eram metidos na água a ferver, durante um dia sacos de pano cheios de cinza por Maria de Jesus. Passadas 24 horas, a água da fervedura era deitada no tanque de lavar roupa com as peças de Salazar: «Esfregava-se bem até fazer espuma, ficava um dia de molho e outro a corar. O senhor doutor gostava muito de cheirar a roupa antes de se vestir».

Enquanto umas criadas se dedicavam às roupas, outras ocupavam-se da extenuante tarefa de escovar os variados tapetes que davam o toque acolhedor à residência. Nada era desperdiçado. Ao removerem a sujidade, guardavam em sacos o cotão que se ia desprendendo. E era com esse material altamente inflamável que se ateava a caldeira a carvão de coque para aquecer a casa e a água para o rotineiro banho de imersão, com sais de fruto, do homem da casa.

AS PELES DOS COELHOS TAMBÉM SE APROVEITAVAM

Mavilde anda num vaivém entre o passado e o presente. Ágil, levanta-se do sofá, onde se instalara para se tornar narradora de uma parcela de história, e dirige-se para a sua cama, para mostrar uma aconchegante manta de peles: «Vou-lhe mostrar como a senhora governava aquela casa. Como já lhe disse, não se desperdiçava nada». De uma fidelidade quase irracional, sem qualquer assomo ideológico, retoma o fio da novela da sua vida.

Na intimidade, Salazar era um homem de trato fácil e gostos simples. Com peixe frito, açordas e caldo verde passava bem e, em ocasiões especiais, também lambia os beiços com os coelhos engordados no palácio. Mas só quando havia visitas Maria de Jesus os sacrificava, matando aos dez de cada vez. Os animais, antes de acabarem na panela, são esfolados de modo a não deixar mossa na pele: «Depois, a senhora mandava o Sr. Oceano, que tratava dos animais e da horta, levá-las à Casa Martinho, em Benfica, onde eram curtidas. Com elas fazia mantas para a casa e também para oferecer. A mim, ofereceu-me esta».

CARDEAL CEREJEIRA LEVA AO CÉU PITÉUS DE MAVILDE

Entretanto, Mavilde desenvolvia com Maria de Jesus a arte da culinária. Num fim de semana, a governanta adoece e é ela quem fica com a responsabilidade da cozinha. Nesse sábado, Salazar recebia para jantar dois homens com quem tecera cumplicidades desde o tempo de estudante e lente em Coimbra: o médico Fernando Bissaya Barreto, um republicano conservador, e o Cardeal Cerejeira. A rapariga começara a preparar de véspera o jantar preferido do clérigo: linguados à francesa com um acompanhamento bastante patriota: «A bandeira portuguesa foi uma invenção minha. Na véspera, tirava a pele aos linguados e deixava-os a marinar em leite e sal. No outro dia, era só passar por farinha e fritar. Ficavam loirinhos que eram uma maravilha! Depois, fazia o acompanhamento que servia numa bandeja retangular, para poder decorar. O fundo da bandeira, verde e vermelho, era feito com puré de chicória e pimentos marrons, que ficavam um tempo a escaldar para os poder passar por uma máquina, até ficarem em pasta. O centro, onde fica o brasão das armas de Portugal, enchia com puré de batata e com puré de cenoura fazia a esfera à volta. As azeitonas, muito picadinhas, davam cor às quinas. Imagine quantos tachos tinha de pôr ao lume».

Os convivas desse repasto estranharam a ausência de Maria de Jesus, que já fazia parte da caixilharia familiar. Salazar explica que a mulher está doente e Cerejeira, deleitado com a janta, quer saber quem foi a sensível cozinheira. Quando o dono da casa, na despedida dos amigos, os acompanha à porta, pede à criada de mesa que chame Mavilde. E Cerejeira, com a eclesiástica suavidade de modos, abençoa a minhota antes de botar graciosa faladura: «Fique a menina sabendo que o seu paladar vai daqui ao céu». Uma gargalhada irreprimível, de reconhecimento e saudade, sai hoje da boca de Mavilde: «Tem noção do que significa para uma criança ouvir estas palavras do Cardeal Cerejeira?». A acompanhar o momento estava a irmã, Maria do Patrocínio, e ainda agora, quando se juntam, lamentam que não houvesse os meios técnicos que há hoje: «Ai, se na altura houvesse telemóvel, tínhamos feito uma selfie e gravado as palavras do Cardeal Patriarca».

Funeral de Salazar. Maria de Jesus chora sobre o caixão, Mavilde à sua direita

CASAMENTO E SAÍDA DE S. BENTO

Foi no palácio que a vida da minhota deu uma volta de maior amplitude. Aí conhece José Pereira, uma espécie, ao tempo, de agente comercial da histórica empresa de laticínios Martins & Rebelo, que fazia o abastecimento de géneros ao palácio. Ele era um galanteador de bom porte e melhor partido. Filho de um oficial do Exército, quando se soube que ia casar com uma das protegidas de Salazar não escapou ao escrutínio da PIDE. Sem nada a opor, em 1945, o chefe do Governo e Maria de Jesus oferecem os anéis aos noivos e fazem-lhes a boda. Mavilde mantém-se a trabalhar no palácio e, mal nasce o primeiro filho, leva como padrinho o chefe do Governo, de quem o recém-nascido herda o apelido.

Mas José Pereira quer a mulher em exclusivo e não descansa enquanto não a retira de S. Bento. Dedicando-lhe uma verdadeira devoção, dizia-lhe: «Nem que andasse com uma candeia por Portugal inteiro encontrava outra mulher como tu». E Mavilde rompia de vez com o destino: de criada passava a empresária. Sem, contudo, perder a afeição por Maria de Jesus – e muito menos o que aprendera com ela. A gratidão havia de lhe moldar para sempre o pensamento: «Tudo o que fui, e o que deixei para os meus filhos, a eles devo».

O marido começa por lhe montar um instituto de beleza, com o seu nome e fotografia à porta, e ela especializa-se na coloração de cabelos em Paris, nos laboratórios da Wella, a marca da moda. A casa está sempre cheia de senhoras de alta-roda. Até Maria de Jesus, que perdera o ar rude de camponesa e cuidava da aparência, por lá aparece para pintar o cabelo e ganhar, com permanentes, o ondulado que se usa. 

Mesmo assim, Mavilda não quebra o vínculo com Salazar. Nas épocas festivas, ajuda a governanta na doçaria e a rechear o peru. E, na Ajuda, onde abrira o cabeleireiro, as varinas vendem o peixe fresquinho pescado na Costa da Caparica. Escolhe o melhor e é o motorista de Salazar quem se desloca ao bairro popular para recolher o pescado que vai à mesa em S. Bento.

CASA NO BAIRRO DE SANTA CRUZ

Mavilde nascera pobre mas de olho aberto – e com Maria de Jesus aprendera a usar o tato nas negociações. Os filhos iam nascendo e o andar onde ficava o salão, que servia também de habitação, começa a ficar acanhado. A governanta de Salazar tinha-lhe prometido uma casa no bairro social de Santa Cruz de Benfica, o mito do modelo salazarista de convívio entre pobres e ricos, mal ele fosse concluído. Mas o bairro é inaugurado em 1958 e Mavilde sabe da notícia por terceiros. 

Tinha-lhe, entretanto, nascido o segundo filho, e Maria de Jesus estranha a sua atitude: «Ó Mavilde, o senhor doutor está sempre a queixar-se que ainda não levou a menina lá a casa!». E ela não perde a oportunidade: liga para casa e pede à empregada para vestir as crianças a preceito. Salazar está a banhos no Forte de S. António e a minhota vai ao seu encontro.

Enquanto Salazar brinca com o afilhado, Maria derrete-se com o bebé e Mavilde aproveita o ambiente familiar para lançar o isco: «Os senhores estão muito contentes com as crianças, mas eu vou fazer obras no instituto e não tenho onde deitá-las!». Com a manha que persegue os sobreviventes, aviva-lhes a memória com uma deixa: «Soube por uma cliente que o Bairro de Santa Cruz já está pronto…». E o chefe do Governo, que nos meios oficiais se apresentava com uma austeridade glaciar, nos círculos íntimos era muito permissiv0o a arranjos e cunhas. Pede a uma das criadas que lhe traga a agenda e toma nota das queixas de Mavilde.

No dia seguinte, estava ela no cabeleireiro, quando lhe liga João Gonçalves de Proença, ministro das Corporações e da Previdência Social: «Queria que eu fosse escolher a casa. Olhe que era uma moradia com dois pisos, mais de 200 metros quadrados, fora o jardim, que era grande que dava gosto. Mas eu fiquei a pagar todos os meses 900 escudos ao fiscal do bairro».

SALAZAR OFERECE FACILIDADES PARA A EMPRESA DE MAVILDE

A vida sorria-lhe. As ligações a São Bento produziam, entre os seus contactos, uma impressão de poder. Quando em 1961, em Angola, movimentos independentistas tentam sacudir o jugo da metrópole, Salazar faz dos jovens portugueses carne para canhão. Mães aflitas tentam a sorte com Mavilde, e esta consegue contornar a máxima patriótica do presidente do Conselho («Para Angola, rapidamente e em força!»). Recorda agora: «Fiz muito bem a muita gente e ele fez por mim coisas que muitos pais não fariam».

A mulher tinha êxito e recolhia proveitos. A amplitude das relações que tecera em S. Bento arrasta novas oportunidades. Em meados dos anos 60, é contactada por dois empresários que querem construir uma fábrica de placas de couro artificial para calçado e, como engodo, lhe propõem parceria. O modelo fora trazido de Espanha, onde as solas dos sapatos, antes feitas de couro, passaram a ser produzidas com material sintético.
 Salazar continua a olhar de esguelha para a industrialização do país, que queria nas mãos dos velhos grupos do regime, mas a sua protegida aprendera a lidar com ele com muito jeito. Quando, para conseguiu obter o alvará, leva ao seu parecer a constituição da sociedade, é o governante quem defende os seus interesses: «A Mavilde não consta da sociedade, está a ser enganada. Se esses senhores querem andar com isso para a frente, que ponham o seu nome em primeiro lugar. Não vou fazer favores a gente que nem conheço».

300 MIL CONTOS CONSEGUIDOS NA PRAIA DA PAREDE

E assim foi. Mas depois de constituir a nova sociedade, surge novo problema. O acesso à confiança do capital não é para todos. Entre o equipamento, o grupo precisa de mandar vir da Alemanha uma máquina semelhante à de fazer papel, mas não tem liquidez. Mavilde entra em grandes paradas negociais. Conhecia os usos e costumes dos ministros do presidente do Conselho. E é na praia da Parede, enquanto António Mota Veiga, ministro de Estado adjunto de Salazar e administrador da Caixa Geral de Depósitos, apanha banhos de sol, que a minhota o aborda: «Disse-me para ir ter com ele ao último andar do banco no dia seguinte». Nestes momentos, Mavilde não consegue apagar a malícia do sorriso: «Acha que é a qualquer pessoa que oferecem trezentos mil contos na praia da Parede?».

Como se tivesse nascido para ser protagonista da sorte, Mavilde recebe a autorização ministerial para a construção da unidade fabril em maio de 1968, três meses antes de Salazar cair da cadeira. A sua memória regressa bruscamente ao passado. E foi por estas e outras que nunca precisou de rever ou alterar a sua opinião sobre o estadista: «Quando o senhor doutor saiu da Cruz vermelha, nunca mais voltou a ser o mesmo. Pouco tempo depois morria e a senhora morreu com ele. Nunca mais lhe vi alegria».