FERNANDO TORDO

DE CADA VEZ QUE UM PASSOS COELHO MANDAR NO PAÍS, EU VOU-ME EMBORA!

                          TEXTO | Afonso de Melo
FOTOGRAFIAS | Miguel Silva


Há pessoas que tornam entrevistas impossíveis. Isto é, a gente leva umas perguntas engatilhadas e, de repente, no decorrer da conversa elas perdem o sentido e vamos por outro caminho completamente imprevisto. Depois há, também, essa coisa da empatia. Que permite, aqui e ali, uma determinada ligeireza mesmo nos momentos mais pesados. Fernando Tordo é um homem muito rico por dentro. E essa riqueza não necessita de ser questionada. É mais para ser escutada. Com atenção.

Ary dos Santos. Pode ser o primeiro tema?

Claro! E com ele aconteceu algo de muito interessante. Aquilo que se chama, poeticamente, a alma-gémea. Fez parte do início da minha carreira como compositor. Quem nos apresentou foi o Nuno Nazareth Fernandes, na Rua do Almada, onde a Valentim de Carvalho tinha um escritório. E eu tive a suprema sorte de ter como orquestrador das minhas primeiras canções um mestre como Joaquim Luís Gomes, o príncipe dos orquestradores portugueses. Fui logo colocado numa situação de privilégio Mas só comecei a trabalhar com o Ary de forma continuada a partir de 1970. A primeira canção que fizemos foi Cavalo à Solta, aqui bem perto de onde estamos, na Rua do Alecrim.

Tens pelo menos umas dez canções célebres, daquelas que toda a gente sabe, pelo menos, uns nacos de cor...

É uma felicidade, claro. Agora se olhasse para isso em termos estritamente económicos... Olha, com uma canção como Cavalo à Solta nos Estados Unidos não estávamos aqui a jantar porque eu era um arquimilionário a viver no Dubai.

Vá lá, estávamos aqui a jantar mas pagavas tu. É verdade que o Ary te tratava por Pequeno Mozart?

Sim. Bem, quer dizer... De repente começámos ambos a trabalhar juntos de forma muito intensa. Porque eu assumi essa profissão. E o Nuno Nazareth Fernandes era engenheiro. Fazia umas músicas, mas tinha o seu trabalho. Por isso, eu e o Ary tornámo-nos muito próximos. Ele gostava de criar uma espécie de personagens. Dar nomes às pessoas...

E ligava-te às tantas da manhã para ires ter com ele, segundo o que corre por aí.

Não. O que acontecia era o seguinte: a gente acabar uma canção e chamarmos logo o intérprete, fosse a que horas fosse. Sucedeu com o Carlos do Carmo, em 1976, quando ele cantou sozinho no festival. 

Cantou as músicas todas. Uma certa forma de Democracia...

Sim. E até certo ponto, não acho mal. Foi um festival muito marcado pela política e pela clivagem entre PS e PC. Tornou-se num pretexto para medir a mobilização partidária. As músicas eram escolhidas através de cupões que se recortavam dos jornais. Toda a gente cortou cupões. O PS era campeão a cortar cupões. Mas nós também. E até as multinacionais mandavam cortar cupões. Agora, o único festival que surge num ano de grande abertura é aquele em que canto A Tourada.

1973. Quando cantaste A Tourada tinhas noção de que estavas a cantar uma canção política?

Para já tinha a noção do impossível. Nós já tínhamos feito três canções naquela noite - Minha Senhora das Dores, Carta de Longe e Apenas o Meu Povo - e quando acabámos A Tourada, comentámos que era uma canção que ia lixar as outras três. Porque a censura iria cortá-las todas. Mas nós nisso éramos muito iguais, muito retorcidos - vale a pena só para chatear o júri! Vale a pena mandar esta mesmo sob o risco de queimar as outras três só para chatear os gajos. Nisso éramos muito idênticos. Queríamos vê-los a estrebuchar. Enfim, a censura apurou a canção. E eu cantei duas nesse festival. Com a certeza de que, ao cantar duas canções, iria dividir o júri. E tornava impossível uma vitória de qualquer delas. Não é verdade que se trata somente de um festival de cantigas: a pessoa que está a cantar conta muito. Mas, para mim, conseguir cantar A Tourada na televisão já era algo de extraordinário. Só que as coisas estavam mais densas do que pensávamos. E A Tourada ganhou o festival. Se quiseres pensar que o júri de Leiria, que sempre foi uma zona muito marcada pela Direita, também votou em nós...

ÉRAMOS UNS TIPOS RETORCIDOS. RESOLVEMOS MANDAR ‘A TOURADA’ PARA O FESTIVAL SÓ PARA CHATEAR O JÚRI

Muito de Direita desde O Crime do Padre Amaro...

...é interessante ver como A Tourada satisfazia uma faixa etária jovem. Mas não havia a ideia de que era uma canção partidária. Até ao 25 de Abril só o Partido Comunista é que era organizado. O resto não existia. Ficávamos apenas com as imagens fantásticas do desvio do avião ou do assalto ao Banco da Figueira. Era de um lirismo puro. 

Foste encantado pelo Partido Comunista?

Não. Eu fui um militante convicto. Mas deixa-me dizer que durante o tempo em que fiz parte do partido nunca ninguém me aliciou fosse para o que fosse. Jamais! Mas, Afonso, naquela altura, se a gente queria algo organizado de forma a suster todo o impacto que veio do 25 de Abril, não havia outro como o Partido Comunista.

Uma espécie de única saída?

Para um determinado setor, digamos que talvez mais esclarecido, os perigos foram sucessivos. Há o 11 de Março, o 28 de Setembro... E a organização do Partido Comunista atraiu-me porque era ali que eu encontrava uma estrutura. Agora, claro, o tempo passou e comecei a ver que havia coisas que não faziam sentido. Depois há um acumular de disparates em relação às doutrinas.

Quando é que percebeste isso?

Quando os dois partidos que tinham a obrigação de estruturar um país se transformaram em dois partidos que se desentenderam durante 40 anos. O PS e o PCP são altamente responsáveis pela demora do avanço de Portugal. Eu saí do Partido Comunista em 1991. Sabes porquê?

Diz-me.

Porque naquela estrutura as amizades não existem. Existem outros valores. E aquele que é o nosso maior valor, sejas judaico-cristão ou sejas o que fores, assenta nos afetos, na amizade, na solidariedade. Não encontrei capacidade de perdoar. Encontrei uma frieza assustadora. Pelo menos para um gajo como eu. E falei francamente sobre esse assunto com o Álvaro Cunhal.

E ele?

Ele disse-me o que pensava e eu disse-lhe o que pensava. Ou melhor: disse-lhe que não estava de acordo com ele. Mas eu sou um. O número 139039 dos arquivos.

Sentiste que ele te ouviu?

Ouviu sempre. Falei várias vezes com ele e tinha grande consideração pela pessoa. A vertente artística de Álvaro Cunhal é algo de assombroso. A gente olha para um desenho dele e percebe que, apesar de todos os arquétipos que tinha naquela cabeça, é um homem das artes.

Um artista preso?

Preso! Sim. Mas satisfeitíssimo consigo próprio. E era uma pessoa que em termos intelectuais não tinha comparação com qualquer dos seus pares na política. Nenhum teve o seu nível. Esteve acima deles todos. E quando digo acima, não quero dizer diferente. Quero dizer acima!

Foi a figura política que mais te impressionou?

Tinha o problema de não perceber que os outros não tinham a preparação dele. Olha, eu conheci o Mário Soares com 36 anos, fui aluno dele, e apesar de não ter a solidez do Álvaro Cunhal tinha aquela coisa que a gente chama de coração. Foram duas figuras marcantes.

Tiveste uma relação de amizade com os dois?

Com o Mário Soares, sim. Com o Álvaro Cunhal, não. Nem era possível. Havia algo inultrapassável. Não retira um milímetro da admiração que tenho por ele. Mas o afeto dele resumia-se a dizer-me: «tens feito coisas bonitas». 
Por que é...

Espera. Agora recordei-me do dia em que caiu o muro de Berlim. Houve um alto quadro do Partido Comunista, cujo nome não vou mencionar, que veio de Berlim nessa tarde. Chegou à Soeiro Pereira Gomes e perguntaram-lhe: como vai aquilo por lá? Respondeu: fantástico! E o outro: mas o muro está a cair! E ele: hã? Isto para explicar como era assustadora aquela forma fechada de todos viverem.

Por que é que te zangaste com Portugal? 

Sempre que o Passos Coelho, ou outro qualquer igual a ele, tomarem o controlo do país eu vou-me embora. Sempre que houver aquele tipo de ameaça para o meu país, eu vou-me embora! Não tenho outra forma de lutar.

E sobrevives?

Como sobrevivi.

Que fazias no Brasil? Basicamente, para nós, desapareceste.

Não foi a primeira vez, como sabes. Em 82 já tinha ido para os Açores.

Há um programa interessante sobre o teu regresso aos Açores uns anos depois.

Sim. Volto a casa. Volto ao hotel onde tocava. Programa feito por uma mulher maravilhosa, a Maria João Gama.

Voltemos ao Brasil.

Fui para lá prestar uma assessoria cultural para um empreendimento de dois amigos meus portugueses.

Foste, portanto, com um trabalho, um salário, condições. Não foi à toa.

Não! De maneira nenhuma. Não te esqueças que já tinha 65 anos. E aproveitei para trabalhar muito na área da composição. Felizmente. Um dos discos que gravei ganhou o prémio Pedro Osório, chama-se Outro Canto. Agora, eu fiquei tempo demais no Brasil.

Sentiste isso?

Sim. Objetivamente podia ter regressado no dia em que o Governo caiu. Mas eu sou de uma geração chata. Eu, cidadãozinho, dei tudo o que podia antes do 25 de Abril e depois. E não quero aquela gente a governar. Parece que digo isto com raiva, mas não. Agora, senti o alarido em meu redor quando num programa do Fernando Correia disse: se calhar vou-me embora. Que falta é que eu faço? Isto não é fazer a rábula da humildade. Sou uma figura pública há uma data de anos. Faço, quanto muito, parte do mobiliário. Mas as coisas agora estão a equilibrar-se.

Fizeste as pazes?

Mas não com o nosso país, repara. Fiz as pazes com a situação. A Democracia existe. Eu não sou capaz de dizer que fizeste mal em votar neste, naquele ou naqueloutro. Só digo: este tipo de gente, não quero! Porque é gente que recebe ordens do exterior. Foi fácil de perceber.

Como correu o teu trabalho lá no Brasil?

Gravei este disco que mereceu um prémio da SPE. Depois outro, que ainda não saiu, no qual músico grandes poetas brasileiros, coisa que no Brasil já pouco se faz.

Drummond?

Drummond de Andrade, Mário Quinta, Castro Alves. Dediquei-me muito à composição. E o trabalho de compositor é um trabalho fascinante. Só atinges o patamar de necessitar de ajuda alheia quando decides: e agora vou entregar este trabalho nas mãos de um orquestrador.
Quando compões está a pensar em ti como intérprete ou noutra pessoa?

Tudo o que componho pode ser cantado por mim ou por outro.

Bem, A Tourada não pode ser cantada por mais ninguém...

Há coisas que são muito pessoais, é verdade. Mas olha, ainda hoje estive a gravar com a Raquel Tavares para este disco de duetos no qual acabo por encontrar vozes que encaixam nas minhas composições. Imagina o divertido que é cantar O Café com o Tim dos Xutos e Pontapés.

Por isso a pergunta: não compões a pensar na tua voz?

Não. A menos que seja algo de muito pessoal, como disse. Quando fiz o Adeus Tristeza estava a pensar em mim. Claro. Aquilo é a minha roupa. Mas ia dar-te o exemplo do Tim, que é muito engraçado, porque é uma canção que fala da agitação dos cafés nos anos-60 e 70, e especificamente do Vavá. Dois estilos. «Chegam uns meninos de mota/Com a china na bota e o papá na algibeira./São pescada marmota que não vende na lota/Que apodrece no tempo e não cheira/Porque o tempo/É a derrota.»
Em seguida o Tim, com a sua voz: «Chegam uns meninos de mota/Com a china na bota...» Enquanto eu digo «Porque o tempo/É a derrota...», ele diz «Porque o TEMPO É a derrota...» Claro que isto é difícil de explicar a quem não é da música, mas para mim é uma experiência do caneco. Hoje a Raquel Tavares esteve a gravar o fado mais famoso da vida da Beatriz da Conceição. Chama-se Meu Corpo. Fui eu que o fiz com o Ary. Foi em 74, a Tonicha tinha adoecido e estávamos a preparar uma revista para o Teatro ABC: Uma no Cravo e Outra na Ditadura. Ficámos com 48 horas para substituir a Tonicha e tivemos de compor um fado para a Beatriz da Conceição. Ela aparece lá no teatro, com o Sérgio de Azevedo.

Um grande tertuliano do velho Pedro V...

A Beatriz dizia-me: «ó Tordeles, que era como ela me chamava, faz uma coisa gira para a tua amiga». E eu: «vou tentar». Nessa noite fiz o tema musical, liguei para o Ary e disse-lhe: «está pronto!» E ele: «já? Então?»

Por que geralmente tu fazias as músicas primeiro e depois ele a letra por cima.

Era sempre assim. O grande elogio que devo fazer ao Ary! E ele era um aristocrata, um gajo que nunca suportou a ideia de não ter muito dinheiro...

Conseguiu ser comunista sem ser preso...

Ui. Prender uma encomenda daquelas... Era um berreiro. Por isso é que ele ainda faz muita falta. Ele e a Natália.

Ainda a ouvi várias vezes recitar no Botequim.

O Ary dizia, com espalhafato: «Quando a Tia morrer...» A Tia era ele. «Sentada no Alto de São João a ver quem entra e sai...» Ele encarava a morte. Fez todos os possíveis para morrer.

Mas houve um momento em que te distanciaste dele.

Escuta: a minha separação do Ary dos Santos tem que ver com o álcool.

Tu resolveste o teu problema e ele não?

Momentaneamente resolvi. Perdi trinta e tal quilos em seis meses. Mas tornava-se insuportável trabalharmos comigo a beber água e com ele a beber gins tónicos. Fomo-nos afastando. Felizmente, a intensidade do trabalho durante quase catorze anos permite-me dizer que a obra estava feita. Ele perguntava-me muitas vezes: «por que é que tu não escreves os teus próprios textos?» E eu disse-lhe isto, só uma vez: «Zé Carlos, vou continuar sempre a trabalhar contigo porque nós estamos a fazer uma obra na música em Portugal!» Claro que eu sabia que podia escrever textos para mim. A primeira canção que fiz depois disso chama-se Adeus Tristeza. Mesmo que houvesse gente a perguntar: e agora o que vai ser do Tordo sem as letras do Ary? 

Essa foi uma espécie de canção de despedida ao Ary?

Não. Há uma canção que escrevi ainda no tempo em que trabalhávamos juntos que se chama Carta a Um Amigo. Deu um single. Ele ficou muito emocionado. Aquilo que se passou entre nós foi quase dramático. Estávamos a escrever uma comédia musical para mim e para o Henrique Viana com o nome de Sopa de Pedra. Já tínhamos avançado muito, mas dentro do período de maturação e aquela coisa toda, comecei a perceber que íamos deixar de trabalhar. Ele com muitos copos e eu completamente sóbrio... eh pá... Ele vivia no rés do chão da Rua da Saudade, número 23, eu vivia no primeiro andar. E estava a pressioná-lo muito porque faltava terminar uma canção da peça e nunca mais era sábado. Batia-lhe à porta, telefonava-lhe: «Zé Carlos, só falta uma canção, temos de acabar isto!» Então ele resolveu subir as escadas e trabalhar em minha casa, coisa que nunca tinha acontecido.

A MORTE DO ARY DEIXOU FICAR UM BURACO QUE NINGUÉM FOI CAPAZ DE PREENCHER NA HISTÓRIA DA MÚSICA PORTUGUESA

Recebeste a Tia...

Isso. Eu tinha um móvel que se abria e ficava transformado numa mesa branca, linda. Ele estava com muitos copos, muitos. Mas isso, nele...

Nem se notava.

Sim. Ou capotava, pura e simplesmente, e fechava a loja, ou ficava pela noite fora, tranquilamente, sempre a beber. Bem, eu digo-lhe: «há um livro do Eça de Queiroz que tem uma cena final em que um dos personagens desfia todos os defeitos possíveis, mas conclui - é Portugal!» Enquanto lhe digo isto vou tocando a música. E ele começou: »Desde quando nasci/Que o conheço e lhe quero/Como a um irmão meu/Como ao pai que perdi/Como tudo o que espero./É um homem que tem o condão da doçura/No sorriso de água, nos olhos cansados/É metade alegria, é metade ternura/Nas palavras cantadas, nos gestos dançados/Nos silêncios magoados./Tem um rosto moreno/Que o inverno o marcou/E apesar de ser forte/É um homem pequeno/Mas maior do que eu sou.» Sentado à mesa, ia escrevendo nas folhas da sebenta, muito grosso. Isto é uma cena... No meio de um relacionamento que está prestes a acabar no plano profissional, uma última canção para uma peça que era engraçadíssima, e o gajo sai-se com aquela neste clima. O Amigo que Eu Canto é a última canção que fizemos juntos. Canto-a no disco dos duetos com a Marisa Liz. Isto para dizer que o trabalho que fiz com o Zé Carlos podia ter sido uma coisa traumática porque, apesar de tudo, sabíamos que o relacionamento entre ambos devia ser rompido. E a razão é simples: ele chegou aos 42 anos e eu aos 70. Isto tem que ver com um processo de vida e um processo de morte.

O caminho dele era a morte?

Completamente!

Não era um suicida, mas um suicidário?

Era um suicidário. Uma das últimas coisas que me terá dito é que o médico lhe telefonara para lhe dizer que tinha de ser internado. Já não bebia há um tempo, mas estava todo rebentado. E, segundo me contam, exatamente antes de morrer, exclamou: «Hospital, não!» E morreu. O suicídio não era novidade na vida dele. O irmão tinha-se suicidado. Foi pouco antes de conhecer o Ary. Um caso de amor. E o Zé Carlos foi, aos poucos, preparando a sua morte, mais gin tónico, mais cigarros, mais gin tónico. Estava eu nos Açores quando alguém me disse que ele estava muito doente. Peguei no telefone e liguei-lhe. Ele ficou muito surpreendido: «Oh, mano!» Perguntei-lhe como estava e respondeu-me: «tive aqui um problema mas já estou bom». A morte do Ary deixou ficar um buraco que ninguém foi capaz de preencher na história da música portuguesa. Ele conseguia criticar a mulher do dr. Zenha que se queixava do preço do peixe - «Quem se queixa é a mulher do dr. Zenha e as espinhas é o povo que as apanha» - e escrever uma hora depois - «Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia/Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia/Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria».

No disco dos duetos cantas com quem A Estrela da Tarde?

Com a Carminho.

Uma música com uma história.

Sim. Um dia dedilhei-lhe uma passagem e disse: «Não sei porquê mas há aqui a palavra tarde». E ele, escrevendo, escrevendo: «Mano. Muitas palavras. Muitas palavras». Depois quando comecei a ver aquela cadência: «Era a tarde mais longa de todas as TARDES/Que me acontecia/Eu esperava por ti, tu não vinhas/TARDAvas e eu enTARDEcia/Era TARDE, tão TARDE, que a boca/TARDAndo-lhe o beijo, mordia». A passagem do Ary pela canção é um momento cultural do nosso país. Eu tive a sorte de estar ali, à frente dele. Era uma coisa metronómica. E ele não conseguia cantar duas notas de seguida.

Vamos para o fim. O que foi mais importante na tua vida: o álcool ou a falta do álcool?

Vou-te responder e ser muito sincero. Depois de ter muito álcool na minha vida, muitos e muitos anos, a tal ponto de já nem me fazer efeito, de nem ficar bêbado e ficar apenas mal-disposto, o momento mais importante é quando vou cantar à ilha Graciosa. Depois do espetáculo, num jantar, comecei a embirrar com um tipo com um ar antipático como o caraças...

Sem motivo nenhum?

Claro. O único motivo eram os copos a mais. Eu sabia disso. No regresso a Lisboa, o tipo vinha no nosso voo e fui pedir-lhe desculpa. Muito envergonhado, muito acabrunhado. Ele estava mais à rasca do que eu. Uns dias mais tarde, um amigo meu que tinha feito a viagem comigo, ligou-me: «Ó Fernando, não queres ir a uma sessão dos Alcoólicos Anónimos?» E eu respondi: «Se soubesses há quanto tempo estou á espera deste telefonema...» O que estava em causa era o seguinte: tinha gasto milhares de contos, tinha uma vontade enorme de deixar de beber e não conseguia. Medicamentos, terapias, muito dinheiro fora. E a solução foi essa: Alcoólicos Anónimos! Salvaram a minha vida!