FILOMENA CAUTELA

“NÃO QUERIA SER APRESENTADORA”

Uma das melhores coisas da vida são as conversas. Dirá Filomena Cautela no final desta, de regresso à Altice Arena, dez dias depois de fechada a grande epopeia eurovisiva, e acidentalmente no dia em que a Expo ‘98 - com o Gil e os vulcões de água - completava 20 anos

             TEXTO | Cláudia Sobral
FOTOGRAFIA | Mafalda Gomes


Ainda de gravador desligado, enquanto se faziam as fotografias, viriam desse tempo uma data de histórias, mais outra sobre como não foi fácil descobrir qual era o seu melhor lado. «Já estás aí a escrever que foi a Catarina Furtado que me ensinou qual era o meu melhor lado?» Que conversar é das melhores coisas na vida para a atriz feita apresentadora «por absoluto acidente» já suspeitávamos, e não nos enganámos. Invertamos os papéis então: a entrevistadora ao lugar de entrevistada para a conclusão de que isso de lado melhor e lado pior é coisa que não existe para Filomena Cautela. 

Num destes dias dizias numa entrevista que normalmente as pessoas ou gostam muito de ti ou não gostam nada. E que desta vez, na Eurovisão, tinhas pela primeira vez sido aparentemente consensual. Mas ontem partilhaste no Instagram a Pequena Sereia vestida de noiva a fazer um pirete.

[Risos] Não teve nada a ver com isso, estava só a ter um dia mais complicado e achei que a imagem tinha graça. Queres que te fale da Eurovisão?
Sim.

Foi um dos eventos mais importantes que fiz, e não só a nível da dimensão do evento. Mesmo a nível pessoal, de superação e de sobrevivência foi muito fixe, por isso mesmo.

O registo era um bocadinho diferente do que fazes habitualmente.
Acho que até era parecido. Era entrevistar pessoas num direto e tinha a ver com música, que como já trabalhei na MTV já conheço mais ou menos. Os músicos têm uma forma especial de estar, então, apesar de tudo, foi trabalhar sobre material em que já estava habituada a mexer. Foi diferente de tudo pela preparação e também porque fizemos quase 12 cerimónias numa semana. Para as semifinais a preparação foi mais fácil, mas depois foi mais complicado, porque só depois é que íamos saber quem passava à final e quem é que ia estar na greenroom em que altura da cerimónia. Esse trabalho foi feito quase numa noite e depois de um mês de trabalho tão intenso... foi uma prova de superação física e profissional grande. O balanço para mim foi... muitos calos nos pés, ainda hoje estou a tentar trabalhar isso. Mas foi muito fixe saber que as pessoas gostaram do que viram e que lá fora foi bem aceite. A melhor coisa que a Eurovisão me trouxe foi fazer parte - pode parecer um lugar comum, mas quero lá saber - de uma equipa da RTP que às vezes é tão criticada mas que teve menos meios do que qualquer outra equipa da Eurovisão nos últimos anos e que conseguiu fazer uma cerimónia tão boa ou melhor. Essa foi a melhor parte, ver as pessoas orgulhosas do nosso trabalho e ter um país inteiro que olhou e disse «parabéns, RTP».

Trabalhas muito sobre o improviso. Lembro-me de uma vez teres dito que não houve um único programa em que tenhas simplesmente feito o que estava no teleponto.

Gostava. Mas não, não houve nenhum. Acho que as coisas têm que ser muito bem preparadas para que depois o improviso possa ter lugar. A preparação tem que estar bem feita e ser exigente para depois chegares lá e poderes dizer [respira fundo]: «Bora curtir». Esse «bora curtir» exige-me muito trabalho. No 5 Para a Meia Noite temos uma equipa de conteúdos que também é pequena, mas são pessoas que gostam genuinamente do que estão a fazer, e isso vale tudo, não é? Na RTP tenho essa ressalva e na Eurovisão tivemos uma equipa de guionistas - o Pedro Ribeiro, a Lucy Pepper e o Nuno Galopim - e tivemos os nossos momentos tumultuosos, pela pressão, e também sou um bocadinho difícil...

Difícil?

Quando tenho uma ideia que acho que vai resultar tenho muita dificuldade em largá-la, em desistir, acho sempre que se não lutar por aquela ideia mais ninguém vai. Aconteceu um bocado isso [na Eurovisão].

Quantas vezes tinhas gozado com a Eurovisão antes de se saber que este ano ia ser em Portugal e teres sido escolhida para a fazer?

Nenhuma. Não era uma fã acérrima, mas a Eurovisão para mim é um palco de liberdade. Isto é: não fazia ideia do mundo que era. Só quem viu aquela plateia todos os dias como vimos - nós fazíamos dois espetáculos por dia, sempre com público - sabe. Malta que vinha de todos os cantos do mundo para ver aquilo. Foi aí que comecei a perceber que a Eurovisão, que às vezes as pessoas associam muito ao mundo LGBT, é muito mais do que isso. É o único palco do mundo em que podes ter géneros de música completamente diferentes - o Caetano Veloso, cantou uma cantora de ópera, tocaram nordifolk, pimbalhadas, pop interventino, heavy metal... Heavy metal! E tens uma plateia a assistir àquele espetáculo que consegue ter elasticidade, tolerância e aceitação para com todos os géneros de música. Isso é incrível e passa também para os artistas. Artistas de todos os cantos do mundo, de países que estão em guerra, todos com uma boa onda e com uma solidariedade entre eles, a abraçarem-se e a curtirem as músicas uns dos outros. Isto é muito raro.

SE QUEREMOS REALMENTE FALAR SOBRE O QUE SE PASSA NO PANORAMA GEOPOLÍTICO, QUE É GRAVÍSSIMO, NÃO É À EUROVISÃO QUE DEVEMOS ATRIBUIR CULPAS

Só isso permite de facto que no contexto atual tenha vencido Israel.

Muito polémico, não é? Queres que fale sobre isso?

Queres falar?

Acho que se queremos realmente falar sobre o que se passa no panorama geopolítico, que é gravíssimo, não é à Eurovisão que devemos atribuir culpas. Nem à Netta [Barzilai] que ganhou com uma música que, goste-se ou não, quero lá saber. Sei que quando ela cantava estava tudo de pé, tudo a cantar, porque, again, a alegria ali é completamente despreconceituosa em relação a tudo. Virem dizer que a Eurovisão não pode ser feita lá ou que a Netta tem culpa porque falou de Jerusalém, acho absurdo. Peguem nessa energia e metam-na onde ela é eficaz: a pressionar os líderes do nosso país, pressionar o nosso Governo, pressionar os partidos para tomarem posições efetivas que possam de facto mudar alguma coisa. Estarem a falar de um festival de música para atribuir responsabilidades políticas para mim isso é treta, sinceramente.

Encerrando o assunto Eurovisão, publicaste uma fotografia com a Catarina Furtado e a Sílvia Alberto, em que falavas da tua mãe.

Quando soube que ia fazer, primeiro ri-me. Quando me disseram que era a sério, fiquei muito emocionada por causa disso. Porque estavam a colocar-me entre um leque de apresentadoras que sempre foram uma referência para mim e para o país. A Catarina Furtado foi sempre a Catarina Furtado, a Sílvia foi sempre a Sílvia, mesmo a Dani [Daniela Ruah] é uma referência internacional.

De repente disseram-te que podias estar entre elas e ainda não tinhas percebido?

Sim... Mas foi uma honra e um privilégio enorme trabalhar com elas todos os dias e perceber que a Catarina Furtado é a Catarina Furtado por alguma razão. Não é só porque é muito bonita. É porque tem uma forma de estar e de trabalhar muito admirável. Temos um grupo chamado Eurobabes e é o que a Catarina diz: temos todas uma tatuagem invisível a dizer Eurobabes e temos mesmo. O que aconteceu ali nunca vamos esquecer.

Não foi parecido quando o 5 Para a Meia Noite regressou num novo formato, semanal, e te escolheram para o apresentar? Sobretudo porque não há muitas mulheres a apresentarem programas do género.

É, ficas sempre a pensar se não é porque és mais barata que os outros [risos]. Podes escrever isso, não me importo.

Ficaste?

É possível. Acho que mais importante do que dizer-te o que senti com isso são as consequências disso. Isto só demonstra que ainda existem pessoas em televisão que pensam fora da norma que dá audiências. Percebes o que quero dizer? As audiências em Portugal não são uma ciência aeronáutica, percebes mais ou menos o que dá audiências. A bola, a novela, mais não sei quê. E de facto, disseste isso no início da entrevista, não acho que as pessoas me adorem ou me odeiam, mas de facto nunca fui muito consensual, também porque no início da minha carreira dava muitas opiniões políticas, era mais publicamente interventiva. E foi fixe perceber que ainda existem pessoas a mandar na televisão que acreditam no risco. Para mim isso é importantíssimo, principalmente num serviço público de televisão. Se formos todos seguir a regra das audiências vamos acabar com um país... de papo seco. Carcaça com queijo, percebes? Acho que este é o caminho e só posso estar super agradecida a todas as pessoas que me colocaram ali e que continuam a acreditar em mim. Só posso agradecer, agradecer e agradecer. É aquela coisa parola da gratidão, mas é verdade.  
Eras muito nova quando chegaste ao 5 Para a Meia Noite, há nove anos, e nunca tinhas apresentado um programa de televisão.

Tinha apresentado a MTV, por absoluto acidente.
Como?

Fui sair à noite uma vez com uns amigos...

Não...  

É verdade. Queria ser atriz. Ainda sou atriz, agora faço projetos de teatro de que gosto. Mas quando comecei a ser atriz foi quando houve um boom de atrizes mamalhudas.
[Risos]

Sim, das atrizes boazonas. E eu não sou. Na altura era mais, por acaso, mas não sou o estereótipo, o cânone da boazona, não é?

Sim.

Não digas que sim, fica-te mal. E agora dizes: «Não, Mena, não, acredita em ti!» Não, não sou. Nem nunca quis ser. Mas comecei a trabalhar numa altura em que apareceram muitos novos atores. 

Estás a falar dos Morangos Com Açúcar?

Por exemplo. Que acho bem, estava na altura de dar uma refrescada. O que acabou por acontecer foi que trabalhei nos Morangos, depois fiz teatro, voltei à televisão para fazer umas coisas e depois houve uma altura em que não tive trabalho. Fiquei desempregada. O que me fez muito bem. Só que esse período foi maior do que estava à espera e comecei a pensar que não sabia se queria aquilo para a minha vida. Principalmente porque sempre disse que profissionalmente a única coisa que queria era poder sustentar a minha família, que a minha mãe se pudesse reformar e eu pudesse pagar-lhe tudo e mais alguma coisa. Quando comecei a perceber que a profissão de atriz em Portugal envolve uma coragem e uma persistência que pura e simplesmente na altura não tinha, porque o que queria era dar uma vida boa à minha mãe... Tenho uma admiração profunda por todas as atrizes que conheço e que são minhas amigas, que têm vidas precaríssimas, que têm alturas muito boas e têm anos em que têm que contar os tostões para pagar a renda. Quando comecei a perceber que aquele casting da MTV estava a começar a ser mais sério e que era possível ficar, então tive que tomar essa decisão, porque não queria ser apresentadora. Não tinha formação, não era o que queria, mas comecei a pensar que não queria viver naquela precariedade, que não tinha coragem nem persistência suficiente, e que vivia muito mal, muito ansiosa e muito aflita com a dúvida de não saber se tinha trabalho no mês a seguir. E decidi aceitar o desafio. Então o que fiz foi pegar na minha formação de atriz e usá-la para isto. É isso que faço. Tenho uma forma um bocadinho diferente de trabalhar, não tenho uma onda formal a apresentar as coisas por causa disso. Uso a minha formação como atriz para criar uma personagem para ser esta pessoa que está aqui a falar contigo.

E o lugar a que essa decisão lá atrás te trouxe não é um bocadinho assustador agora, quando pensas que o que querias no início era só ser atriz?

É, mas virei o meu ponto de vista em relação a isso. Agora posso dar-me ao luxo de fazer uma coisa que me dá imensa pica, que é apresentar o meu programa, apresentar coisas que acho que são importantes ou pertinentes, ou importantes e pertinentes, e escolher os projetos que faço em teatro e em televisão.

Que projeto de teatro é esse que tens em mãos?

É um projeto que tem muito a ver comigo. Chama-se Limbo, é sobre a crise dos refugiados, tem atores de vários países e vamos fazer uma residência entre este ano ainda e o início do próximo para estrearmos a seguir, na Voz do Operário.

Há pouco dizias que no início da tua carreira como apresentadora expressavas mais opiniões políticas do que agora. O que mudou?

Quando o 5 Para a Meia Noite tinha cinco programas por semana, se as pessoas não gostassem do meu podiam ver o do dia seguinte. Neste momento é um programa semanal que tem um nome e uma marca de nove anos. Não é o programa da Mena, tenho a obrigação de fazer um programa que dignifique os fãs que há nove anos seguem e defendem o programa para ele poder estar no ar. Tenho a obrigação de criar um programa que não seja sobre o que gosto ou o que acho importante, que seja o que acho que é importante mas para o público do programa. É uma preocupação que não tinha e que agora tenho.  

FICAS SEMPRE A PENSAR SE NÃO [TE ESCOLHERAM] PORQUE ÉS MAIS BARATA DO QUE OS OUTROS

Ainda assim, continuas a expressar publicamente as tuas opiniões.

Só não as digo no meu programa de televisão. Atuo mais como cidadã, menos como apresentadora.

Dizias que, antes de tudo isto, te fez muito bem ficar sem trabalho durante um tempo. Porquê?

Fez-me bem para perceber o que era a profissão. Acho que faz falta a muita gente. Se muita gente soubesse os sacrifícios que um verdadeiro ator faz e o trabalho que um verdadeiro ator tem que atravessar para desempenhar o seu ofício com verdade, se calhar nem tanta gente queria ser atriz ou ator. Percebi que ser atriz é uma forma de estar na vida, que não é só uma profissão.
 
Na primeira fase do 5 Para a Meia Noite falavas muito sobre isso, chamavas muita atenção para essas questões. Sentes que carregas uma responsabilidade pelo lugar que ocupas?

O que sinto não é uma responsabilidade. Não acho que haja uma obrigação de se ser exemplo para ninguém nem de se espalhar a boa nova de coisa nenhuma. Agora, acho que tens uma escolha e que o que vai ditar essa escolha é a tua consciência. A minha dita-me que posso ser uma pessoa que faz as outras rir mas que ao mesmo tempo tem uma consciência do que está a acontecer à sua volta e que pode despertar uma consciência em alguém que está a ver. E essa é a minha escolha.

Com muita ironia sempre.

A ironia é um ótimo instrumento para fazer isto que estou a dizer.

Por exemplo com a questão da condição feminina, a exploração do corpo.

Acho que cada um faz o que quiser da sua vida, sinceramente. Se há meninas que gostam de se despir e de postar a chamada foto porquichona, se há malta que gosta de fazer isso, quem sou eu para julgar? Cada um faz o que quer e bem lhe apetece, vivemos num país livre e ninguém tem que dar cavaco a ninguém. Agora, da mesma maneira que elas têm o direito de fazer isso, também tenho o direito de ter a minha opinião sobre isso. É só isso.

Como é que vês esta nova forma de feminismo pop?

[Risos] Acho que é melhor do que nada. Não condeno nem acho mal. Feminismo, #MeToo, se isso for um ponto de partida para depois se ir ler um bocadinho sobre o assunto e perceber que temos feministas vivas, ainda vivas, que lutaram pelo nosso direito de vestirmos uma T-shirt com decote, ou pelo nosso direito de votar, ou pelo direito de falar mais alto ou de estar na televisão… Se isso começar pelo feminismo pop, I don’t care. Desde que isso seja um início para uma investigação maior e para se perceber um bocadinho mais o que se passa, acho que é ótimo. Não tenho problema nenhum com isso.  

Elogiaste aqui já várias vezes a RTP e a direção da RTP pelas apostas que fez, incluindo em ti. Preocupa-te o futuro da televisão pública nesta fase de incerteza?  

Não estou preocupada. Acho que tudo tem o seu tempo e que esta direção fez um trabalho notável em várias áreas. Tivemos a Eurovisão cá, o Festival da Canção teve um crescimento incrível, as séries dinamizaram o nosso setor de uma forma muito boa. Estou ansiosa para ver o que vem aí. Quem muda Deus ajuda, não é o que dizem? 
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E também falaste na tua mãe, que o que querias era poder dar-lhe uma vida boa.

Não falo da minha vida pessoal, não vale a pena irmos por aí. Acho que mais importante do que estar a falar no meu caso, é o facto de ter começado numa altura em que este país estava a viver a maior crise económica de sempre. Fazemos parte de uma geração que foi completamente marcada por essa crise, porque quando começámos a ser independentes financeiramente o que começámos a ver à nossa volta foi «espera aí, a vidinha boa que nos nossos pais nos deram não existe». Quem é que vai ter reforma aqui? O que aconteceu foi que comecei a ver isto tudo à minha frente, que tudo aquilo que tínhamos como seguro afinal não era. Houve uma altura em que quis ser jornalista e percebi que afinal isso também não era seguro. Seres empresário já não era seguro, já nada era. O que aconteceu também foi isso. Começar a tentar perceber como é que, se acontecesse alguma coisa de mal aos meus, tinha alguma resposta para dar.

Querias ser jornalista? Ou quiseste?

Queria, no 11.º ano. Uma vez o Mário Bettencourt Resendes, um antigo diretor do Diário de Notícias, levou-nos numa visita à redação, que naquela altura era uma coisa incrível! Era enooorme, tinha imensos jornalistas a trabalhar de um lado para o outro, fumava-se lá dentro, era mesmo aquela cena dos filmes, a Murphy Brown [série da CBS década de 1990] existia! E eu queria ser a Murphy Brown. Achava aquilo tudo super entusiasmante e que o jornalismo de investigação era uma coisa que se fazia em Portugal [risos]. Afinal há pouco. Ainda há, graças a Deus, ainda há e até tem dado bastantes frutos. Mas depois comecei a perceber que também era uma profissão absolutamente precária e com imensas dificuldades e que vocês são muito maltratados, na verdade. Como os atores são, mas é uma profissão difícil.

Isso não há de ter sido muito antes de teres entrado nos Morangos com Açúcar.

Uns dois anos, mas sempre fiz teatro. Primeiro na escola, depois comecei a fazer oficinas de expressão dramática, ainda no 2.º e no 3.º ciclo, teatro amador em Carnide, e houve sempre cursos de teatro que fazia na Casa do Artista e noutros sítios, workshops. Fazia a minha vida toda sempre ansiosa pela hora de ir para o teatro. Era o que me dava pica, até que chegou o dia em que tive que dizer «pai, acho que quero ser atriz».

E ele?

Ele disse «está bem, eu pago-te o curso» - havia um curso na Casa do Artista muito fixe na altura com professores que vinham do conservatório e esse curso era caro, eu queria ir trabalhar para pagar o curso. Mas ele disse: «Pago-te esse curso, mas tu vais para a Faculdade de Direito».
E foste?

Fui, fiz um ano e meio.

Cresceste em Lisboa, mas tenho ideia de te ter ouvido falar já várias vezes em Ferreira do Alentejo.

É o meu pai que é de lá. É uma costela muito bonita, gosto muito dos alentejanos.
 
Às vezes pareces quase…

Otária?

[Risos] Apaixonada pelas pessoas que estás a entrevistar. E não escondes. Lembro-me de um programa em particular, quando tiveste o Jerónimo de Sousa como convidado, durante a campanha para as legislativas de 2011.

Porque não estava à espera que o Jerónimo de Sousa fosse tão simpático. E ele foi… um amor! Quando estás super nervosa e aparece uma pessoa que te desmonta… Acho que o melhor da nossa profissão é isso, estares sempre a ser surpreendida pelas pessoas que vais entrevistar. Quando tens tudo preparado e de repente a pessoa te leva a fazer outras perguntas e ficas ali a viajar. As pessoas estão a perder esse hábito, mas uma das coisas melhores da vida é contar histórias e conversar.