RED BULL CLIFF DIVING

ERA CAPAZ DE SALTAR DE UM PENHASCO?


Os Açores voltaram a receber, pela sétima vez consecutiva, uma das etapas do Red Bull Cliff Diving World Series. Nos dias 13 e 14 de julho, 24 atletas subiram os penhascos do ilhéu de Vila Franca do Campo para saltar 27 metros de altura.

TEXTO | Filipa Traqueia, nos Açores

Este texto pode não ser aconselhado a pessoas com vertigens - só de imaginar uma plataforma, num penhasco, a 27 metros de altura pode ser algo assustador para os leitores com fobia de alturas. A décima edição do Red Bull Cliff Diving voltou aos Açores pelo sétimo ano consecutivo. No ilhéu de Vila Franca do Campo, conhecido entre os habitantes da região como Anel da Princesa – por ter um lago circular na parte de dentro do ilhéu –, 24 mergulhadores fazem com que pareça fácil desafiar a lei da gravidade.


O Red Bull Cliff Diving World Series é uma competição que se divide em sete etapas, cada uma num país diferente. Este ano, Portugal foi a terceira, depois de Texas, nos Estados Unidos, e Bilbau, em Espanha. Cada etapa subdivide-se em quatro rondas, avaliadas por um júri, onde os homens saltam de uma altura de 27 metros e as mulheres de 21 metros. 


Ao chegar ao ilhéu, as plataformas veem-se entre os penhascos, e os atletas começam os saltos de aquecimento. No entanto, as primeiras provas não são feitas a partir da plataforma, mas sim diretamente do penhasco. O ilhéu de Vila Franca é a única etapa do mundo onde o salto é feito da rocha. “É bom voltar às raízes do Cliff Diving e sentir a pedra, a sua força e aquele sentimento essencial do Cliff Diving”, diz o mexicano David Cultori, campeão do mundo no ano passado.


“A parte mais difícil nos Açores é saltar diretamente dos penhascos”, explica Gary Hunt, um dos veteranos desta competição. O inglês de 34 anos está na competição desde 2009, tendo levado o troféu de campeão mundial para casa de 2010 a 2012 e 2014 a 2016. “Basta olhar para os vídeos e as fotos para perceber que este lugar é único, não existe nenhum assim na competição. E quando saltamos diretamente das rochas – não de uma plataforma – isso torna tudo mais original.”


As preocupações antes de saltar e durante os três segundos que os atletas demoram a chegar à água são muitas. “O fator ambiente, o fator salto, o saltar das rochas em si, lidar com o vento e a chuva. É um dia longo aqui na ilha, é complicado”, explica Colturi. Já para não falar das pedras, que “não são direitas”, e do “impulso” extra que têm de dar para “saltar longe do penhasco”. “Há muita coisa a ter em consideração no salto", acrescenta. 


Para Rhiannan Iffland, a vencedora da etapa açoriana deste ano e de 2016, a meteorologia é “definitivamente” o mais desafiante. “Obviamente, estando nos Açores, o tempo é muito imprevisível. Num momento pode estar sol e poucas ondas e uma hora depois pode estar a chover e com ondas”.


A atleta australiana foi também a protagonista de um salto do topo do mastro de uma caravela portuguesa em pleno rio Tejo. “Foi muito especial. Enfrentámos desafios, como o movimento do barco, mas mergulhar em frente ao monumento [Padrão dos Descobrimentos] foi simplesmente incrível e é algo que me vou lembrar sempre.”

No que toca à meteorologia, a etapa deste ano teve um pouco de tudo: sol, chuva e vento, o que provocou algumas alterações no programa do primeiro dia, nomeadamente no que toca aos locais dos saltos. As primeiras duas etapas foram feitas a partir do penhasco, quando a segunda deveria ser da prancha. “É a ilha das quatro estações”, chama-lhe Colturi.


Na categoria masculina, Steven Lobue foi o vencedor e garantiu a manutenção do primeiro lugar na tabela mundial. “Nós sabemos, quando vemos esta localização no calendário, que é o mais desafiante que vamos ter. Mas isso não a torna mais fácil”, explica. Para Lobue, o mais complicado são “as ondas do mar” que “têm um grande papel” no salto. “A água pode descer ou subir um pouco e interferir com centenas de horas de treino. Isso é algo que não está sob o nosso controlo”, explica.


Adriana Jimenez, vencedora desta etapa no ano passado e número um este ano a nível mundial, partilha o seu segredo: “Pensar só no que tens de fazer”, “disfrutar e confiar em ti” e “não pensar muito nas ondas e no vento”. O problema do mergulho para o oceano é que “não sabes se te sobra ou falta espaço” para o salto que pretendes fazer, explica. Para evitar isso, o melhor é controlar “as emoções e a mente”. A atleta mexicana já teve “más experiências com as ondas” e, por isso, tem muito respeito por elas.

MUITO MAIS QUE UM SALTO

Não é só o salto que torna a etapa açoriana diferente. O próprio percurso até ao local onde tudo acontece é em si um desafio até para os mais corajosos. Para poderem saltar do penhasco, os atletas têm de descer por rapel até chegarem à altura certa. “Eu acho que o mais difícil é o rapel”, diz o mexicano Jonathan Paredes, vencedor mundial de 2017. “Este é um dos sítios estranhos em que a viagem até à plataforma é quase mais assustadora do que saltar”, confirma Hunt. “ É um sentimento de alívio quando a descida acaba e só temos de nos concentrar no salto.”


E a forma de se concentrar varia de atleta para atleta. Nos bastidores do evento, são muitos os participantes que dedicam o seu tempo a fazer movimentos de preparação ou alongamentos. Para Lobue, por exemplo, a dança traz “boas vibrações”. “Eu gosto de dançar um pouco antes e receber as boas vibrações. Mas quando estou no topo da plataforma gosto de ter uns momentos para apreciar onde estamos, como aqui chegámos e a beleza que há num sítio em que poucas pessoas têm a oportunidade de apreciar”.


Mas há quem prefira o bom velho método: a concentração: “Quando chego à ponta, tudo desvanece a única coisa que consigo fazer é ouvir a água e sentir o penhasco. Estou apenas focado em um ou dois pormenores do salto. Não queres ficar assoberbado com muitos pensamento, tens mesmo de confiar no teu treino e deixar o piloto automático fazer o resto”, explica Colturi. 


No cimo da plataforma – sem olhar para baixo para evitar vertigens – é possível contemplar a imensidão do oceano Atlântico até ao horizonte, sem que nada interrompa os dois tons de azul. E depois do toque do sino – que dá início ao salto – a concentração tem que estar no nível máximo. Até porque há atletas que iniciam o salto em pino na plataforma – como fez, por exemplo, a mexicana Adriana Jimenez.


“Qualquer mergulho em qualquer localização é sempre assustador e eu creio que todos os mergulhadores de Cliff Diving digam o mesmo… Se não disserem, estão a mentir”, garante Lobue.

"ELES SÃO MALUCOS"

Meghan Benfeito é mergulhadora olímpica, já com várias medalhas ganhas, e foi convidada para estar presente na competição do Red Bull Cliff Diving, nos Açores. Para esta luso-canadiana, estar na ilha de São Miguel tem um gosto especial: “Eu tenho aqui família, alguns primos ainda vivem cá. Poder voltar ao sítio onde os meus avós nasceram e cresceram é maravilhoso. E poder não só representar ma fazer parte de dois países e ter as pessoas a apoiarem-me é muito bom.”


A atleta aceitou o desafio de saltar de um penhasco, mas apenas dos oito metros. “Eu gosto dos meus dez metros [a altura máxima das pranchas olímpicas] mas é muito impressionante vê-los”, diz Meghan. “Eu já tinha muito respeito por estes atletas, mas depois de os ver saltar tenho muito mais. A forma como treinam é absolutamente incrível. Eles são malucos”, acrescenta entre risos.


No entanto, a atleta olímpica admite que a preparação para os dois desportos é “muito semelhante”. “Os saltos que eles fazem são parecidos com os que nós fazemos exceto na parte final: eles entram de pé, eu entro de mãos”, explica. “A preparação que eu tenho seria suficiente para arriscar, mas não acredito que tenha a coragem”, confessa. 


“Não é para todos”, diz Colturi. “Existem centenas – se não milhares – de mergulhadores talentosos a quem eu digo ‘tu eras perfeito para isto, devias tentar’. Quase 99% diz ‘isso é demasiado maluco para mim’”. O processo para o mexicano começou em criança, em plataformas de um, três e cinco metros. “A maioria dos que praticam isto começou como mergulhador tradicional”, explica.


Também Steve Lobue tem “uma vida inteira de experiência”. “Este é o meu 26º ano de Cliff Diving”, diz com orgulho. A preparação, à semelhança de Colturi, veio das plataformas olímpicas, algo que ainda faz com regularidade. 

UM DESPORTO COM ORIGEM HAVAIANA

O “lele kawa”, que em havaiano significa “saltar de pés de um penhasco muito alto, entrando na água sem produzir um salpico”, está na origem desta modalidade. E, por isso mesmo, o troféu do Red Bull Cliff Diving é uma homenagem ao rei Kahekili, o primeiro a saltar dos penhascos sagrados de Kaunolu, nos finais do século XVIII.


Atualmente, na décima edição deste evento – quinta para na categoria feminina –, o salto é feito de uma altura entre 26,5 e 28 metros para os homens e entre 20 e 22 metros para as mulheres. Os atletas chegam a atingir os 85 quilómetros por hora numa salto que dura menos de três segundos. Quando comparado com a plataforma olímpica, o impacto na água é nove vezes maior chegando mesmo à força física de 10G.


As etapas são divididas em quatro rondas, cada uma com um grau de dificuldade mínima. Os júris que avaliam o salto atribuem uma nota de zero a dez, sendo que a pontuação final é calculada em função da dificuldade do salto. Ou seja, um atleta que tenha executado um salto mais difícil ganha mais pontos. No final são somados os pontos de todas as rondas e encontrado o vencedor.


Steven Lobue e Rhiannan Iffland foram os vencedores desta etapa, ele com 405,35 pontos e ela com 324,95. Nos segundo e terceiro lugares, na categoria masculina, ficou David Colturi e Gary Hunt, respetivamente, enquanto nas mulheres o pódio pertenceu a Adriana Jimenez e Lysanne Richard. A próxima etapa será no dia 5 de agosto em Uri-Stone, na Suíça.

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