Vida

Segunda vida

A ideia da viagem formou-se na cabeça de Sandra Barão Nobre, coordenadora da equipa que faz gestão de conteúdos da Wook, a livraria online da Porto Editora, no dia 16 de Abril de 2013. É uma data precisa, fácil de recordar para ela. Nesse dia, conta Sandra, passavam nove anos do auto-transplante de medula óssea e Sandra, agora com 41 anos, costuma comemorar a data como o seu segundo nascimento.

Sandra estava a desabafar num chat com o irmão. “Andava a sentir que nos últimos tempos não estava a aproveitar a vida e a sentir-me um pouco engolida na rotina. Disse-lhe que o que me apetecia era agarrar na mochila e fazer uma grande viagem”. O irmão perguntou-lhe de volta: “O que te impede?”.

Nesse dia, Sandra chegou a casa, em Matosinhos, abriu um mapa no chão e começou a pensar num percurso. O facto de ser autora do Acordo Fotográfico (um trocadilho com o Acordo Ortográfico), levou-a a imaginar que fazia todo o sentido unir com a sua viagem alguns dos pontos do planeta onde a língua portuguesa é usada. E começou a documentar-se. “Li muitos livros sobre viagens de baixo orçamento, sobretudo escritos por norte-americanos”. Apercebeu-se de que vários autores referiam uma faixa à volta dos 18 mil dólares de despesas para viagens de um ano. O seu plano era para seis meses - teria que pedir licença sem vencimento à Porto Editora - e contava com as poupanças acumuladas.

“É um pouco assustador investir nisto todas as minhas economias”, assume Sandra, garantindo, no entanto: “Esta é a vida que faz sentido para mim. A leucemia foi um alerta. Foi-me dada uma segunda oportunidade e não quero desperdiçá-la”.

No dia 13 de Dezembro de 2003, Sandra ouviu o diagnóstico de leucemia aguda. Foi nesse dia internada, num hospital do Porto, para dar início imediato a sessões de quimioterapia. Só viria a ter alta a 17 de Maio de 2004. Conta que, “curiosamente”, quando recebeu o diagnóstico, não ficou revoltada, nem se perguntou porquê a ela. O médico dera-lhe uma hipótese de 80% de remissão do cancro e ela agarrou-se a essa percentagem e à ideia de em Novembro ir ao casamento do primo no Brasil. Nos meses de internamento que se seguiram, com isolamento num quarto onde só quatro familiares de touca e desinfectados tinham autorização para entrar, Sandra só desabou nos últimos tempos. “Tive dores realmente difíceis de suportar, já não aguentava o isolamento e rejeitei a comida do hospital. Apetecia-me loucamente arroz de tomate”. Em Outubro desse ano, voltou ao trabalho. Em Novembro foi ao casamento do primo. Um ano depois divorciou-se e apercebeu-se de que queria cultivar a sua curiosidade e liberdade. Aprendeu a surfar, a pintar e a fotografar, dedicou-se mais à leitura e acabou por criar o Acordo Fotográfico, um blogue onde publica posts com fotos de pessoas apanhadas em sítios públicos a ler livros. Fez grandes viagens, normalmente nos períodos de férias, para as quais canalizava as poupanças. Esteve na Índia, na China, no Japão, América do Sul. “Tenho dias menos bons como toda a gente, mas continuo felicíssima e em paz comigo mesma. O meu irmão é que diz que eu ando numa trip permanente”.

Em Janeiro deste ano teve autorização de se ausentar do posto de trabalho e desde aí “tem sido uma trabalheira tratar de tudo, dos vistos, vacinas, etc”.

No próximo dia 10, Sandra Barão Nobre irá juntar-se a uma amiga de viagens e apanhar um avião em Lisboa com destino ao Brasil. É o primeiro voo de uma viagem de seis meses que irá passar por três continentes, maioritariamente por destinos onde se fala o português.

Sandra irá aproveitar a viagem para continuar a expor leitores em flagrante, enquanto a amiga, arquitecta na Câmara Municipal de Portimão, em gozo de licença sem vencimento, irá criar um blogue de arquitectura alimentado pelo curso muito diversificado do itinerário.

Esta é a maior de todas as viagens que Sandra fez na sua 'segunda vida'. Além do Brasil , o projecto inclui Austrália, Timor Leste, Malásia, Tailândia, Laos, Cambodja, Vietname, Macau e muitas outras paragens, passando por Goa, Maputo, São Tomé e Príncipe e acabando em Cabo Verde.”A leucemia fez de mim uma pessoa melhor e menos angustiada. Quando decidi fazer a viagem estava a sentir que o estado de graça estava a declinar e não queria que esse efeito desaparecesse. Esta viagem vai fazer com que eu volte ao que é importante para mim”.

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