Sociedade

'Queria estar normal mas não conseguia'

“Uma personalidade imatura e desequilibrada, propensa a impulsividade, pautada por traços paranóides associados a uma natureza psicótica”. Foi este o diagnóstico dos peritos do Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses sobre a personalidade de Paulo Almeida, que em 2008 matou Alexandra Neno e Diogo Ferreira.

Este perfil levou os especialistas a concluir que o ex-segurança - acusado de três homicídios qualificados (o terceiro é na forma tentada), entre outros crimes - apresenta uma capacidade “diminuída” de avaliar a ilicitude do seu comportamento e, por isso, uma “imputabilidade moderada”.

No dia em que cometeu os crimes, Paulo estava desorientado e saiu de casa decidido a pôr termo à vida, levando consigo a arma que guardava no armário. “Sentia-me odioso com o mundo... pensava que não ia ser um bom pai”, contou aos peritos. Mas não teve coragem de se suicidar e pôs-se a deambular pela rua. Os “sintomas depressivos graves e uma ideação suicida” foram-se então transformando em “raiva para com o mundo” - sentimento que “muito dificilmente o próprio poderia controlar”, diz o psiquiatra que assinou a perícia, Paulo Ferreira.

Foi neste estado de espírito que se cruzou em Loures com Alexandra Neno, a primeira vítima. A reacção inesperada da relações públicas - que gritou e buzinou, dentro do carro, quando viu a arma apontada na sua direcção - despertou nele um “pico de ansiedade com uma consequente despersonalização”, explicam os peritos. “Foi uma descarga”, confessou o próprio.

Horas mais tarde, já em casa, lembrou-se de um conflito que tivera com o chefe e voltou a sair para se vingar. No Oeirasparque, quando tentava sabotar o carro do seu superior hierárquico, foi surpreendido por Diogo e um amigo. Apontou-lhes a arma para os “assustar”, mas nenhum parou e Diogo acabou por ser abatido. Tanto Alexandra como Diogo foram vítimas “aleatórias”, admitiu.

Risco de violência dentro e fora da prisão

Os peritos forenses sublinham que a sua perigosidade é “elevada”, existindo um risco de violência “moderado a alto”, tanto na prisão como fora. E por isso recomendam que continue sob acompanhamento médico.

“Eu queria estar normal, mas não conseguia”, confessou aos peritos, durante as entrevistas. “A minha filha tinha meses e não me preenchia. Só me sentia bem no quarto a ouvir música”.

Estes distúrbios revelaram-se logo na infância e agravaram-se na adolescência. Aos 19 anos, a mãe levou-o ao psiquiatra porque não saía de casa - motivo pelo qual não conseguiu terminar o 10.º ano. Começou a tomar medicação, mas a ansiedade manteve-se, sobretudo nos transportes públicos. “Nunca me sentava nos bancos em que tinha de ficar frente a frente com alguém”.

Em 2006, três anos depois de se tornar segurança - antes foi carteiro, jardineiro e servente -, passou a ser seguido no Hospital Júlio de Matos, mas o médico nunca lhe comunicou o diagnóstico. E não teve melhoras. A mulher, que o achava muito agressivo, estranhou a medicação: “Tomava 13 comprimidos por dia”. Em menos de um ano, deixou as consultas e a psicoterapia de grupo, passando a ser seguido, até Maio de 2008, no Curry Cabral, que lhe diagnosticou “fobia social de carácter neurótico ou de transtorno da personalidade”. Um diagnóstico “duvidoso” para os peritos forenses: “A sintomatologia paranóide não terá sido tomada em conta”.

“Cheguei a um ponto em que comecei a ficar tipo animal, não saía, não convivia”, recorda Paulo, que resolveu entregar-se, a 21 de Novembro passado, por “arrependimento”. Confessa que chegou a pensar contar os crimes a um padre, mas não conseguiu. “Fui guardando para mim. Estive à espera que a Polícia me batesse à porta até agora”. E diz que a religião pesou na decisão de se entregar: “Como Jesus se castigou, eu também tinha de me castigar”. Hoje com 36 anos, Paulo diz-se arrependido e quer “pedir perdão às famílias” das vítimas.

Aguarda julgamento no estabelecimento prisional de Lisboa, para onde foi transferido em Janeiro. Na entrevista com os peritos, admitiu no entanto que já pensou em pôr termo à vida com “uma corda”.

sonia.graca@sol.pt