Opiniao

Quem e quando

Só há dias percebi porque é que andavam a falar do dia 25 de Maio. Era o 25 de Maio para aqui e para ali e eu sem ligar o nome à data. Só no domingo, no comentário de Marcelo Rebelo de Sousa, se fez luz. 

É o dia das eleições europeias. Não me considero uma pessoa mal informada e mais: sei que não sou. Mas não fixei aquela data como um dia em que podia escolher os nossos representantes políticos na União Europeia. Se isto aconteceu comigo, que leio jornais em papel e online, vejo e ouço noticiários, como terá acordado o cidadão distraído para a realidade de votar no dia 25 de Maio? Creio que com surpresa. Já? No dia 25 deste mês? Não era em Junho? Quando falavam da campanha, era a esta que se referiam e não às legislativas de 2015? Talvez a confusão se tenha dissipado entretanto com a campanha por fim oficialmente começada. Veremos se até lá os eleitores portugueses despertam para o voto. Mais um bocadinho e as europeias passavam despercebidas. 

Homem barbudo

Apesar da subtileza de elefante presente no nome Conchita Wurst (qualquer coisa como ‘Pipi Salsicha’), qualquer pessoa percebe que o representante da Áustria é um homem de barba com cabelos compridos. Não são o vestido, a maquilhagem e os sapatos que fazem dele uma mulher. Por isso recuso a designação ‘mulher barbuda’, que é, no mínimo, pouco rigorosa. Os que ainda ficaram com dúvidas podem ver Jared Leto na sua fantástica interpretação em Dallas Buyers Club. Conchita Wurst era o único participante na Eurovisão com uma canção adequada à piroseira intrínseca ao festival. Era também o único concorrente que cantava. Não podia haver outro vencedor. Resta saber, apesar disto, se a Eurovisão se está a tornar uma espécie de Óscares, politicamente correcta, a querer chamar a atenção para casos específicos da sociedade. Seja como for, antes homens vestidos de mulher em público e a cantar bem do que homens vestidos de mulher em privado e a desafinar.

A teoria do arroz

Thomas Talhelm viveu na China, estuda na Universidade da Virgínia e está a desenvolver a teoria do arroz. Talhelm acha que encontrou a explicação para os chineses a norte do rio Yangtze serem mais individualistas do que os que vivem a sul. A explicação está respectivamente nas culturas de trigo e arroz. O arroz parece desenvolver uma interdependência entre a população da qual os agricultores trigueiros não precisam. Gosto do nome da teoria, mas parece muito simplista. Lembra aqueles filmes do faroeste em que os ganadeiros, mais agressivos, atacavam criadores de ovelhas, mais pachorrentos, e em que ambos hostilizavam os agricultores, mais sedentários, a viver com as famílias. Acredito que as actividades humanas possam moldar as pessoas, mas penso que há várias explicações para isso e não uma só resposta. Pelo menos até que alguém escreva um Romeu e Julieta com uma arrozeira sulista e um colectivista romântico do norte cujas famílias se odeiam.

Bodeguice com bolor

O chef Jamie Oliver é proprietário de um talho exclusivo que fica perto da Catedral de São Paulo, em Londres. No andar de cima funciona o restaurante Barbecoa, que serve carne do talho e que foi obrigado a fechar portas para resolver os problemas que os inspectores da ASAE inglesa encontraram numa visita surpresa. Algumas carcaças tinham bolor e havia carne que estava fora de prazo. Havia também frango desossado fora de recipientes, puxadores de portas sujos e pouca luz em geral. O talho reabriu 24 horas depois já com os ‘melhoramentos’ feitos e com uma explicação sobre os tempos de maturação da carne que justificam a presença de bolor nas carcaças. Um responsável das autoridades alimentares afirmou que algum bolor é normal, mas não sabemos em que estado estava a carne. Mas não foi esse o único problema apontado ao talho do chef inglês. Esta notícia só apanha de surpresa quem nunca viu os programas de Jamie Oliver com o próprio a cozinhar.

Até que enfim

Na Universidade do Michigan, concluíram que a actividade mental presente em resolver quebra-cabeças e actividades do género faz bem ao cérebro. Até aqui nada de novo. A novidade foi outra experiência. Foi pedido a um grupo de pessoas que conversasse em vez de se dedicar a Sudokus. Os dois grupos foram submetidos a testes cognitivos e o resultado foi o mesmo. Tanto uma actividade como a outra provocaram estímulos e progressos na actividade cerebral. Conversar é intelectualmente tão benéfico como resolver problemas que exigem concentração. Desenvolver as aptidões sociais é uma excelente ginástica cerebral. A ciência é uma forma de descobrir novas expectativas. Mas também pode ser apenas uma maneira de confirmar certezas antigas, muitas consideradas como ociosamente naturais. Não foi a Grécia Antiga que gabou a actividade de conversar? E antes dela, as discussões interpretativas teológicas e práticas dos judeus não fizeram deles o povo do Livro?