Opiniao

No pasa nada

Um homem magro, cara chupada e olhar vazio, Manuel Baltazar, que responde à alcunha de 'Palito', quis matar quatro mulheres. Apanhou-as juntas e abriu fogo. Matou duas, as outras duas escaparam por pouco com ferimentos. Depois fugiu e assim se encontra há mais de um mês até à data em que escrevo este texto. Não sou perita em perseguições no meio do mato e acredito que as forças policiais em São João da Pesqueira e arredores estejam a fazer o seu melhor, mas neste caso não está a ser o suficiente. O 'Palito' foi avistado quatro vezes desde aí e numa delas até comprou pão. Ninguém sobrevive sozinho no mato durante tanto tempo. Alguém está certamente a dar guarida ao homicida. Na hipótese mais prática, estaria morto algures, caído numa ravina. Mas isso só acontece nos filmes. Entretanto, foi criada uma página de Facebook ao Manuel 'Palito', que brinca com a situação da fuga e é um sucesso. Podem satirizar o que quiserem que não têm graça nenhuma.

Muito tempo

Um estudo recente sobre violência doméstica concluiu que as mulheres demoram, em média, 13 anos a sair de uma relação abusiva e violenta. Não é um surpresa, mas o número é chocante. Em 13 anos fazem-se muitas coisas, vive-se, lê-se, escreve-se, viaja-se, conhece-se pessoas, ganha-se dinheiro, perde-se, etc. Em 13 anos é possível mudar de ideias, percebendo porque é que se mudou. É muito tempo. É uma eternidade, se pensarmos que estas mulheres vivem num contexto que as impede de viver uma vida normal. Por que razão paralisam em relações de medo e sem amor? O autor do estudo, psicólogo forense, refere que as mulheres, sobretudo as católicas, tendem a aceitar a violência como fazendo parte da relação e porque se culpam dessa violência. Deus diz para sermos bons, mas não manda ninguém ser saco de pancada de ninguém. Compreendo que o divórcio seja difícil para os católicos, mas às vezes não só é preciso como é essencial. Adiar pode levar à morte.

Três minutos

A série de televisão Web Therapy chega a Portugal com seis anos de atraso. Já não tinha esperança de a ver, mas eis que estreou o primeiro episódio, tão divertido quanto o imaginava. A Dra. Fiona Wallice (a brilhante Lisa Kudrow), psicóloga, teve uma grande ideia para poupar custos no seu consultório e rentabilizar as sessões com os pacientes. As sessões passaram a ser por computador, cada um na sua casa com a sua web cam, e não duram mais de três minutos. Fiona estava cansada de ouvir sonhos e descrições de acontecimentos que nunca levavam a lado nenhum. Pelo contrário, nos três minutos podia acontecer uma espécie de milagre da psicoterapia e o paciente poder compreender realmente alguma coisa sobre a sua situação. No meio desta subversão da psicoterapia, dos seus métodos e dos seus objectivos, Fiona só fala dela nas sessões. Os diálogos são divertidos e bem escritos. E os episódios não duram mais de meia hora. Tudo breve, original e muito bom.

Selfie no museu

Há dias li que o Metropolitan Museum de Nova Iorque, no meio de todas as iniciativas que promove no site e nas redes sociais, ia organizar um concurso na conta de instagram com a melhor selfie no museu. Pareceu-me uma ideia arrojada, inútil e engraçada, em que participaria se visitasse o Met em breve. Outra notícia relacionada com selfies em museus apareceu há pouco, mas desta vez na Frick Collection, também em Nova Iorque. Depois de o museu ter permitido fotografias, selfies, em Abril, voltou passado um mês a proibir tudo de novo, para desagrado dos visitantes e fãs. A explicação para a proibição foi dada ao site hyperallergic. O museu não estava preparado para a confusão de pessoas a mexer-se e a tirar fotografias e a colecção era demasiado valiosa para correr riscos. Apesar de achar graça às selfies com pano de fundo artístico, compreendo a direcção da Frick Collection. É um sítio de paz e recolhimento. Se querem imagens, comprem postais.

Islamizar por aí

O grupo terrorista nigeriano Boko Haram foi considerado 'radical islâmico' pelos media. Passados poucos dias, havia já quem pusesse as mãos à cabeça, ai, ai, que não se pode dizer que são muçulmanos. A revista Time elaborou uma lista com cinco pontos a defender que os ensinamentos do profeta Maomé não podiam estar mais longe do que o grupo professa. Líderes do mundo islâmico, como o grande mufti da Arábia Saudita, querem distância do grupo, que está a "manchar a imagem do Islão". Entretanto, numa mata profunda algures, 200 raparigas continuam na mão dos terroristas. E o que foi a primeira coisa que fizeram? Converteram as raparigas cristãs ao islamismo. Foram logo bem tapadas e filmadas a repetir versos do Corão. Enquanto isto se passa, no Sudão, uma mulher grávida de oito meses foi condenada à morte por um tribunal. Razões? A mulher é cristã. Foi acusada de adultério porque casou com um homem cristão. No Sudão também são terroristas?