Opiniao

Não devia ser notícia

Para quem não se lembre, Ian Thorpe é dos nadadores australianos mais populares de sempre. Ganhou a primeira medalha de ouro aos 14 anos. 

Aos 18, foi o atleta que ganhou mais medalhas nas Olimpíadas de Sidney, três de ouro e duas de prata. Em 2006, com 24 anos, abandonou a competição por falta de motivação. Apesar de várias tentativas para voltar, já não tinha a chama que o fez vencer inúmeras competições. Foi ‘acusado’ de ser homossexual, o que desmentiu repetidas vezes. Depois de passar por problemas de alcoolismo, depressão e reabilitações, na semana passada, aos 31 anos, admitiu ser homossexual numa entrevista ao canal de televisão Channel 10. Além dos direitos individuais que se continuam a discutir, o mais elementar e essencial, que é o de não ter medo de se ser quem é, ainda é o mais difícil de realizar. Não é possível legislar sobre a afirmação da identidade sexual do indivíduo. Para mal de quem tenha uma vida exposta, está longe de deixar de ser notícia.

À solta 

Jay Branscomb, um humorista com página no Facebook, aproveitando uma vaga bizarra de personalidades que se fotografam à frente de animais de grande porte mortos em caçadas, publicou uma imagem de Steven Spielberg à frente de um dinossauro usado em Jurassic Park. Apesar de ser um adereço, além de extinto, o troféu foi motivo de indignação no Facebook. As 42 mil partilhas e dezenas de milhares de comentários revelam o interesse pela fotografia. A maioria dos comentários era de indignação por Spielberg ter caçado um animal raro... É difícil acreditar, mas houve quem não percebesse a piada e quem acreditasse piamente na verdade daquela imagem. Adorava saber quem são estas pessoas, que idade têm, de onde vêm, só para poder perceber um bocadinho do que as levou a reagir desta maneira tão estranha. É porque tudo se desculpa se estivermos a falar de crianças, sem referências cinematográficas e com idade para acreditar em dinossauros não extintos. 

Mentir não é errar

Segundo o tablóide inglês Daily Mail, a futura sogra de George Clooney, mãe de Amal Alamuddin, terá afirmado estar contra o casamento por questões religiosas, uma vez que faz parte da comunidade drusa do Líbano. O actor queixou-se e o Daily Mail pediu desculpa por ter publicado uma notícia errada. Clooney agradeceu as desculpas, mas não as aceitou. A notícia não está errada. A notícia é falsa. Como tal, é uma mentira e, como se fosse pouco, é uma mentira premeditada. O jornal tinha publicado factos que desmentiam qualquer conflito religioso ou familiar no casamento. Clooney alega que as notícias falsas, além de insinuarem tensões inexistentes com os efeitos esperados em leitores distraídos, são mentiras premeditadas com o objectivo de vender jornais. Não sei o que exige, mas não parece ser dinheiro. Clooney quer que os responsáveis sejam investigados e que admitam a mentira. Penso que George quer que os tablóides fechem de uma vez por todas.

Erro grave

A ideia de que o ensino superior não é útil na hora de arranjar um emprego parece estar a ganhar mais adeptos. A ideia é falsa e não precisamos de fazer nenhum estudo para o comprovar. Não só a educação superior é útil como cada vez mais se tornará essencial num mundo mais competitivo e com menos emprego. Parece contraditório, mas não é. O decréscimo (necessário) de emprego no Estado criará a necessidade de cada um encontrar um rumo na vida, que nada terá que ver com aquele que tomaram muitos dos nossos pais. Sem uma sólida formação teórica, que só se consegue através do estudo, sem saber distinguir frases certas e erradas, resolver problemas matemáticos, compreender o modo de funcionamento de uma máquina ou o plano de uma casa, as alternativas profissionais serão mais reduzidas e menos atractivas. Ninguém está livre de ser enganado e há excepções, mas a educação superior é um meio do qual cada vez menos nos podemos dar ao luxo de prescindir.

Absorvidos 

António Costa disse há dias em Coimbra que «aquilo que nós temos a mais não são licenciados; aquilo que temos a menos são empregos qualificados capazes de absorver». Nunca percebo muito bem a linguagem dos políticos, que oscila entre a declaração, a queixa e a expressão de uma vontade, por isso gostaria que Costa esclarecesse a sua ideia de solução para um problema importante. Ninguém duvida de que o desemprego, sobretudo o de longa duração, é um dos problemas mais sérios que o país enfrenta. Mas a solução deixou de poder ser dada pelo Estado, pelo menos na medida em que tem sido dada até hoje. A palavra que faz soar alarmes é aquele ‘absorver’. Absorver onde? Nas empresas privadas, a grande maioria afogada em impostos e taxas? Não creio que fosse essa a preocupação do candidato socialista a candidato. Estará a pensar de novo no Estado como o principal empregador em Portugal? Se for esse o plano, estaremos perante uma nova catástrofe em breve.