Opiniao

Os que escolhem a morte

Sempre que mergulho nalgum capítulo da História contemporânea da maldade humana, do defunto (e esperemos que sem retorno) horror nazi ao actual horror do fundamentalismo islâmico, penso que, se tivesse vivido sob o jugo de Hitler ou se vivesse hoje num desses países em que nascer mulher anuncia condenação quase certa à tortura, havia de arranjar forma de andar sempre com um comprimido de cianeto no bolso. 


Devaneios ociosos de quem não se encontra perante o choque concreto; a verdade é que ninguém sabe do que seria ou não capaz em situações-limite. 

A morte surpreende-nos e assusta-nos, embora seja a única coisa segura que temos na vida; se nos habituássemos a viver com esse alerta permanente aceso entre o consciente e o subconsciente, talvez aprendêssemos a ser mais felizes (e menos cobardes, o que seria logo uma alegria). Comigo, pelo menos, o exercício tem resultado; quando começo a enervar-me com as pequenas e médias injustiças ou decepções do quotidiano, acendo o cronómetro interior e decido não dar importância ao pivete do mal – que, embora pareça granuloso, também se desfará em pó um destes dias.

Deixando que a sombra da morte me faça companhia, tenho esperança de me tornar também mais capaz para detectar a ronda do desespero nos olhos dos outros e, de algum modo, auxiliá-los a rir e a sobreviver ao apelo do abismo. 

De resto, é por isso que escrevo – para adiar e contornar a morte. Sei que sobre esta esperança cairão os rótulos de candura ou presunção; porém, com a idade, deixei de ter paciência para os que troçam da candura e se pretendem despidos de presunções – façam bom proveito do rame-rame desse hamburger composto pelas sobras da inteligência que é o cinismo.

Quando alguém se suicida, ao espanto da morte soma-se uma espécie de culpa, mais ou menos forte consoante a proximidade que tínhamos da pessoa que escolheu morrer. Nesta terça-feira em que escrevo suicidaram-se uma mulher que eu conhecia desde há muitos anos e um actor de cinema que eu admirava também desde há décadas. Interrogo-me sobre o perigo de contágio que pode ter a notícia do suicídio de uma figura de sucesso.

O eufemismo da ‘doença prolongada’ quando alguém morre de cancro é simplesmente estúpido e hipócrita; mas, em caso de suicídio, creio que a ocultação do motivo da morte protegerá muitos desesperados por esse mundo (e não só os jovens, como paternalisticamente se costuma dizer). Se nem ele aguentou, porque hei-de eu aguentar? Se ele teve coragem para se matar, também eu hei-de arranjá-la. Etc., etc. A infelicidade tem artes de se fazer solidária, sobretudo em abstracto. 

Nunca saberemos se o suicídio foi realmente uma escolha ou o ímpeto de um momento de pânico específico. Penso nessa mulher ainda nova e apaixonada pela literatura que fui encontrando pela cidade, em celebrações culturais diversas.

Os livros não conseguiram salvá-la, provavelmente porque o trabalho em torno da literatura – revisões, traduções, textos – é miseravelmente pago. Vergonhosamente: abaixo do serviço doméstico. E escasso, cada vez mais escasso. Cada suicídio contém um enigma e uma acusação. Sei é que são cada vez mais os portugueses de mérito atirados para o lixo e os videirinhos sem escrúpulos catapultados para os diversos mandos. E isso gera um universo árido onde a vontade de viver se some – mesmo ou sobretudo quando o Sol brilha, indiferente, num céu longinquamente azul. 

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