Cultura

Lana Del Rey: 'Não sinto necessidade de me explicar ao mundo'

Foi há três anos que Lana Del Rey surpreendeu toda a gente. Sem ninguém saber quem era, de onde vinha e quais as suas pretensões na música, a canção 'Video Games' começou a ser partilhada de modo viral nas redes sociais, revelando uma cantora misteriosa e sensual, capaz de criar emoções só com a voz. Pouco tempo depois desse primeiro single, o mundo já sabia na ponta da língua o nome de Lana Del Rey e aguardava ansioso a chegada de Born to Die, o trabalho que marcou a estreia de Elizabeth Woolridge Grant, 28 anos, nos discos. 

Como acontece com qualquer fenómeno mundial, a música passou rapidamente para segundo plano para dar lugar a especulações sobre o look ensaiado e artificial a lembrar as pin ups do passado, o ar estereotipado da mulher frágil que sofre por amor e não consegue libertar-se do seu carrasco emocional (como canta em muitas das suas canções ou refere em entrevistas) e, inevitavelmente, os seus parceiros amorosos.

Recentemente, em entrevista a uma revista norte-americana, a cantora disse que dormiu com muitos homens da indústria musical, mas nenhum lhe arranjou contratos discográficos. Não revelou nenhum nome, até porque tem sido bastante discreta nesta matéria. Desde que é figura pública só assumiu dois namorados: Barrie-James O'Neill, vocalista da banda Kassidy, e o actual companheiro, o fotógrafo italiano Francesco Carrozzini. 

A razão para manter a sua vida íntima o mais privada possível, explica, é o facto de ter tido um passado tumultuoso. Lana Del Rey raramente gosta de clarificar que passado foi esse, mas já mencionou em entrevistas a dependência de álcool de que sofreu na adolescência, quando tinha 15 anos. Como consequência foi enviada para um internato em Connecticut, onde estudou durante três anos até atingir a sobriedade. Nesta entrevista, a cantora explica como a música a ajudou a superar esses desafios, mesmo quando escrevia canções só para si, sem as mostrar a mais ninguém.  

Após o primeiro disco, Born To Die, disse que se ia retirar da música. Mas em Junho lançou Ultraviolence...

Não consigo começar um álbum se não tiver nenhuma ideia de como será a sua narrativa e o seu conceito. Se as canções não forem perfeitas para mim, porquê forçá-las? Foi por isso que disse que não tinha nenhum disco planeado. Mas em Dezembro/Janeiro, depois de um encontro casual com o Dan Auerbach, dos Black Keys, ficou tudo mais claro. Uma espécie de química aconteceu. Quando gravámos 'Brooklyn Baby', olhámos um para o outro e percebemos que ia acontecer qualquer coisa. Acabei por ser surpreendida porque trabalhei sempre com um círculo fechado de pessoas que conheço. Desta vez, dei por mim em estúdio com um total estranho.

Antes de entrar em estúdio faz uma lista de palavras ou conceitos para resumir onde quer ir?

As palavras são o meu ofício. Decido muitos títulos de canções antes sequer de estarem escritas, como aconteceu, por exemplo, em 'Old Money' e 'Cruel World'. E estas palavras nem sequer aparecem depois nas letras. 

Como se sente em frente a uma folha de papel em branco?

Nestes últimos dois, três anos, passei por longos períodos em que não conseguia escrever uma palavra. Estava constantemente em digressão e pensei ingenuamente que conseguia escrever na estrada, mas não funcionou. Finalmente, em Dezembro de 2013, passei algumas semanas nos Electric Lady Studios, onde gravei o disco todo, só com o meu guitarrista e um baterista de apoio, com o som moldado pelos Eagles. Foi aí que conheci o Dan e ele disse-me que o que tinha feito era muito rock clássico e, como resultado, refizemos tudo em Nashville, em seis semanas, com um microfone comum, gravado quase tudo ao vivo...

A influencia dos Eagles é óbvia em 'Pretty When You Cry', que se parece com 'Hotel California'. Quer colocar a música de dança lenta outra vez na moda? 

Já ninguém faz música de dança lenta e eu gostava realmente de tentar. Ninguém sabe, mas adoro dançar. Durante as sessões de Nashville, no final do dia, ouvíamos tudo o que tínhamos feito e dançávamos que nem loucos. Alguns amigos do Dan apareciam durante as gravações e outras pessoas que conhecemos num loja perto do estúdio também. Nunca trabalhei assim, de portas abertas. Mas foi bom porque agora sei como me isolar quando o estúdio está cheio. Não tenho muita sorte na minha vida pessoal, mas no estúdio fui bastante afortunada. Só o facto de um tipo como o Dan Auerbach se interessar por mim influencia imenso a minha confiança. 

As suas canções têm uma mistura estranha entre luxúria, opulência e tristeza...

É verdade. Sinto sempre que estou a escrever canções felizes, mas quando as outras pessoas as ouvem dizem-me sempre que são muito tristes. Não consigo fugir da minha vida, que foi bastante tumultuosa. Três anos depois da minha estreia na música, ainda vivo atormentada tanto por dúvida como por tristeza. À minha frente só vejo incertezas... Na minha vida amorosa e familiar não tenho certeza de nada. É por isso que odeio quando não consigo escrever. Durante dez anos, a escrita foi a única coisa estável e tranquilizadora na minha vida. 

Ultraviolence faz lembrar a atmosfera descontraída de Los Angels nos anos 1960, em particular a comunidade artística que vivia em Laurel Canyon...

Quando vivia em Nova Iorque andava à procura desse espírito de comunidade, à semelhança daquilo que o Jeff Buckley criou nos anos 90 ou o Bob Dylan nos 60. Mas nunca encontrei o meu gang. Assim que cheguei a Los Angeles encontrei finalmente músicos que ressuscitaram Laurel Canyon e com quem comecei a trabalhar. 

Cresceu no campo. Já era solitária?

Não, tinha um grupo verdadeiro de amigos. Éramos inseparáveis. Foi a única vez na minha vida que senti uma amizade assim. Mas aos 14 fui mandada para uma escola interna porque fazia muitos disparates, como namorar com rapazes bem mais velhos e fugir de casa para ir a festas. Quando me mudei para Nova Iorque, aos 19, tentei fazer o tipo de amizades que tinha na infância, mas as pessoas pareciam-me todas obcecadas com as suas carreiras e o seu sucesso individual.

Foi nessa altura que começou a escrever canções, mas não as mostrava a ninguém. Quando se sentiu segura para o fazer?

Durante a gravação de Born To Die nunca mais esqueci a visita que o meu pai me fez. Ele ficou maravilhado por me ver tão realizada. Disse cedo aos meus pais que queria ser cantora, mas eles não perceberam que a música era mesmo a minha paixão. Insistiram para que não deixasse a escola e terminei os estudos de Filosofia porque sabia que esses conhecimentos podiam alimentar as canções. Mas só quando o meu pai me viu no estúdio é que compreendeu o que estava a fazer em Nova Iorque.

Acredita que nasceu com este dom?

Mais do que qualquer outra coisa na minha vida, sinto que tenho um talento para a música. Mas nestes últimos anos existiram longos períodos em que não escrevi uma única palavra que gostasse e orei para que a minha inspiração voltasse. E de repente, no último Inverno, 'Old Money' apareceu-me inteira de uma vez só. E depois 'Carmen', enquanto andava na rua. Ultimamente tem-me acontecido enquanto conduzo e gravo logo tudo, cantando bem alto, no topo da minha voz. 

Menciona Lou Reed em 'Brooklyn Baby'. Porquê?

Sonhei que partilhava a canção com ele e escrevi a letra a pensar nele. Acho que a teria achado divertida: 'My boyfriend's in the land/He plays guitar and I sing Lou Reed'. No dia em que aterrei em Nova Iorque para lhe dar a ouvir a canção, ele morreu.    

Muitos dos seus ídolos são fantasmas: Amy Winehouse, Elliott Smith, Jeff Buckley, Marilyn Monroe, Kurt Cobain...

Esse parece ser o destino das pessoas que admiro. Felizmente, Leonard Cohen prova o contrário. Mas não gosto de romantizar a morte prematura. Os artistas são mais úteis vivos do que mortos. 

Porque termina o álbum com um cover de Nina Simone, outra artista que já partiu. 

Toda a gente me pergunta porque quis terminar Ultraviolence com 'The Other Woman'. Porque está lá tudo, porque adoro jazz, porque se calhar abre a porta ao que poderá ser o próximo álbum. Poderia ter sido eu a escrever aquelas palavras.

Que parte do seu trabalho é prazer, inspiração, trabalho árduo e dor? 

O prazer começa e acaba com a gravação do disco. Depois disso começa a parte dolorosa. As digressões, a promoção... Parece que tenho de me justificar perante o mundo quando nem sinto a necessidade de o fazer. A minha música é boa o suficiente para não ter de fazer isso. Bem no fundo, preferia permanecer em silêncio depois de o disco estar gravado.