Opiniao

Quem olha pelas crianças?

Em menos de dois anos, morreram em Portugal oito crianças às mãos dos familiares, brutalmente torturadas.

Estes oito casos irremediáveis escondem milhares de outras histórias dramáticas: quantas crianças absolutamente indefesas estarão neste momento e neste país a ser espancadas, queimadas, seviciadas por aqueles que deveriam acarinhá-las e protegê-las?

Como é que ninguém ouve? Esta é a primeira pergunta que ocorre, quando tomamos conhecimento destes horrores. Um bebé não sabe falar, mas grita. Estas famílias não vivem em moradias isoladas, mas em prédios cheios de gente.

Reformulo: como é que os vizinhos, que ouvem, não agem? Se têm medo de bater à porta (um medinho mesquinho que diz muito da moral nacional), por que não dedilham pelo menos os três números do 112? Não vivemos no paraíso dos telemóveis?

Como é que não se reforçam as medidas preventivas? Como se compreende que famílias já 'sinalizadas' pela Segurança Social consigam matar crianças? 

Não sei por que razão não se incluem automaticamente todos os registos de nascimento no sistema de protecção de crianças. Parece-me evidente que todas as casas com crianças pequenas - independentemente do seu estatuto socio-económico -  deveriam ser visitadas pela Segurança Social. 

A violência sobre as crianças não é um exclusivo dos pobres; sucede é que as famílias ricas são mais sofisticadas no ofício de maltratar e de ocultar os maus-tratos. Não há assistentes sociais suficientes para isso? Formem-se voluntários entre os jovens desempregados ou os reformados que gostariam de se sentir úteis. Mas este país é tão rico e tão desprovido de problemas que proibiu recentemente os reformados de trabalharem, mesmo que a título gratuito. Maltratem-se as crianças, humilhem-se os velhos: tudo de cabeça baixa, a pedir desculpa por existir.   

Ouço daqui os protestos escandalizados: “Abrir a intimidade do meu lar à vistoria dos técnicos? Prestar contas sobre como trato os meus filhos?” 

Sim, caríssimos: os nossos filhos não são propriedade nossa. Não são os pais quem tem direito aos filhos; os filhos é que têm direito a ter pais - ou seja: pessoas responsáveis que saibam cuidar deles. 

E nesses primeiros anos em que a criança não sabe andar sozinha nem pedir ajuda, em que não vai à escola nem tem hipótese de fugir de casa, quem apura se ela está a ter os cuidados necessários? 

Antes de apelar a que nos reproduzamos mais, o Governo deveria ter criado um plano para assegurar que os direitos essenciais das crianças que nascem (alimentação, higiene, saúde, acompanhamento, carinho) sejam cumpridos. E isso só se consegue com vigilância activa e geral.   

Se os pais biológicos não manifestarem capacidade para assumir essas funções, há que encontrar outros pais para essas crianças. 

A tão portuguesa santificação da família biológica tem tido resultados trágicos: demasiadas vezes as crianças são devolvidas a famílias incapazes, em consequência da fé que técnicos e juízes depositam nos supostos milagres da biologia. 

E demasiados bebés crescem e perdem a oportunidade da adopção porque ficaram à espera da 'recuperação' de progenitores que nem os querem nem abdicam deles. Os caprichos dos adultos não podem demolir o futuro das crianças.

inespedrosa.sol@gmail.com