Sociedade

Cientistas reagem à nomeação de Moedas para a pasta da Investigação, Ciência e Inovação

Os cientistas portugueses contactados pelo Sol não conhecem a experiência de Carlos Moedas na área para a qual foi escolhido na nova composição da Comissão Europeia. Para Manuel Sobrinho Simões, que fundou e dirige o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular e Celular da Universidade do Porto (IPATIMUP), a pasta poderia ser entregue a Graça Carvalho, eurodeputada que sempre “estabeleceu uma boa ligação entre as instituições europeias e as universidades e centros de investigação em Portugal”. “Percebo que estas lógicas obedeçam a regras que não conheço”, diz o investigador, que se notabilizou pelo estudo do cancro e que foi Prémio Pessoa em 2002. “O que me faz impressão é que este nosso comissário não tem nenhuma experiência em ciência, investigação e inovação”.

De resto, continua, há um problema estrutural a resolver no nosso país, a da dependência dos centros de investigação dos fundos europeus para a sua própria sobrevivência e não, como se verifica na Europa, “como a cereja no topo do bolo”. “A maior parte dos países europeus desenvolvidos tem uma política científica forte com estratégias específicas. Os fundos são um acréscimo para desenvolverem aspectos mais sofisticados”.

Maria Manuel Mota, outra cientista agraciada com o Prémio Pessoa (em 2013) pela sua investigação na área da malária, sublinha que não conhece Moedas. Mas crê que “os investigadores nacionais acreditam que seja boa a nomeação de um português” para o cargo. “Queremos, acima de tudo, que seja uma pessoa competente e que acredite do fundo do seu coração que a ciência é deveras importante. E que tem de haver um bom investimento em locais que não sejam de ‘primeira onda’”, como Portugal.

O físico Carlos Fiolhais manifesta-se mais preocupado com o estado da ciência nacional. “Vimos de um período de duas décadas de grande crescimento. Em 1995 criou-se um Ministério da Ciência e da Tecnologia, logo a seguir criou-se a Fundação para Ciência e Tecnologia. Houve um aumento do número de cientistas e mesmo de aplicações à indústria. Estávamos num caminho de convergência para a Europa. Mas este avanço não é consolidado” e está a perder-se nos últimos três anos. “O que houve foi um corte genérico sem escolher nada, não foi um corte inteligente, afectou também a educação, além da ciência, da tecnologia e da inovação. Ora afectar da mesma maneira a ciência e a tecnologia como tudo o resto é um erro estratégico”, defende. 

Quanto a Carlos Moedas, deseja-lhe “felicidades no cargo” e assegura que a “comunidade científica está pronta a colaborar neste movimento europeu em prol da maior visibilidade da ciência”. A pasta é muito relevante e o papel de Moedas na Europa será o de “demonstrar uma coisa que alguns sabem e outros ainda não sabem, que a ciência é necessária, tem influência, tem impacto. Se ele conseguir demonstrar isso, cumpriu a sua função e Portugal tem de estar orgulhoso”.

ricardo.nabais@sol.pt