Sociedade

Dois exorcistas portugueses no primeiro Congresso no Vaticano

Há sete padres exorcistas portugueses que integram a recém criada Associação Internacional de Exorcistas, e dois estiveram durante esta semana em Roma no primeiro encontro mundial que reuniu 285 participantes de todo o mundo. Apesar de esta prática ser reconhecida pela Igreja Católica há muitos séculos, o tema continua a ser sensível e a dividir padres e bispos. O que faz com que em Portugal apenas três padres tenham uma autorização oficial dos bispos para realizar ritos de exorcismo.

Dois exorcistas portugueses no primeiro Congresso no Vaticano

Lamego, Santarém e Viseu são as dioceses em que os bispos atribuíram esta missão a um padre específico. Este é responsável por atender os fiéis que se acredita sofrerem de “distúrbios diabólicos”, estudar a sua situação e, se necessário, realizar o exorcismo. O acompanhamento pode demorar várias semanas e é feito em colaboração com leigos, entre os quais até psiquiatras que ajudam os sacerdotes a distinguir perturbações psiquiátricas de problemas relacionados com questões religiosas. 

Os outros quatro padres exorcistas que pertencem à associação internacional ainda estão a receber formação e a começar este trabalho. E, apesar de já atenderem pessoas nestas condições, ainda não foram nomeados pelos seus bispos para este ministério concreto. Na prática, apurou o SOL, fazem apenas “orações de libertação”, uma espécie de abordagem inicial ao problema, não recorrendo ao rito completo do exorcismo.
Nas dioceses do País em que não há sequer alguém habilitado ou disponível para esta missão, as situações são geridas caso a caso, acabando, por vezes, por ser transferidas para dioceses onde há exorcistas oficiais.

Exorcista de Lamego foi um dos oradores

O padre Duarte Sousa Lara é exorcista da Diocese de Lamego e a pessoa mais experiente na matéria em Portugal. Depois de ter trabalhado muitos anos em Roma com Gabriele Amorth, o exorcista mais famoso do Vaticano, o sacerdote português começou a realizar exorcismos no Norte do país quando aí foi colocado como padre. Ao SOL, afirmou que tem sido cada vez mais procurado por pessoas com este tipo de problemas e que actualmente acompanha dezenas de casos que lhe chegam de todo o país, até do estrangeiro. Na prática, tem uma equipa que o acompanha neste ministério e dedica mais de um dia inteiro por semana a atender pessoas nestas condições. O sacerdote português atribui “o aumento dos distúrbios diabólicos à procura crescente de novas formas de superstição e bruxaria”. 

Sousa Lara foi um dos oradores do encontro desta semana em Roma. Com os mais de 280 participantes, o padre português partilhou a sua experiência com Gabriele Amorth, ainda quando era seminarista, e as suas preocupações com o número crescente de casos. Na sua comunicação, a que o SOL teve acesso, o padre exorcista referiu os inúmeros contactos que recebe através da internet, por carta e telefone e a forma como, juntamente com o apoio de leigos, acompanha os fiéis. Sousa Lara lembrou ainda a controvérsia que o tema do demónio gera dentro da Igreja, onde muitos nem sequer “crêem na sua existência”.

No encontro, e ao longo de vários dias, foi discutida a difusão e as consequências do ocultismo, do satanismo e do esoterismo, especialmente entre os jovens.

Papa apoia trabalho de padres exorcistas 

Apesar de este ser um tema polémico mesmo dentro da própria estrutura da Igreja, o Papa tem-se referido explicitamente a ele. Foi no Pontificado de Francisco que a Associação Internacional foi reconhecida pela Santa Sé e que os exorcistas receberam o primeiro incentivo público e explícito do Papa. “Os exorcistas devem acolher àqueles que sofrem por causa do maligno”, disse Francisco numa mensagem dirigida aos participantes do primeiro congresso internacional, lembrando que este ministério deve ser exercido “em comunhão com os próprios bispos”.

Foi um gesto do próprio Papa no ano passado que relançou o tema no seio da Igreja. Num dos contactos próximos com os crentes que faz habitualmente nas audiências públicas no Vaticano, Francisco impôs, durante algum tempo, as mãos sobre a cabeça de um homem mexicano que teve uma reacção estranha. Imediatamente se instaurou a polémica: teria o Papa feito um exorcismo em plena Praça de São Pedro? 

Perante a dúvida, o porta-voz da Santa Sé, o padre Federico Lombardi, veio negar este facto, dizendo apenas que o Papa tinha rezado sobre um homem possesso. Mas o padre Gabriele Amorth, que durante muitos anos foi o exorcista da diocese de Roma, disse o contrário, acusando Lombardi de não saber do que falava. A dúvida ficou instalada, mas o que o Papa parece ter feito foi apenas uma oração de libertação, algo que também integra o rito do exorcismo.

rita.carvalho@sol.pt

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